Santo Antônio é de Lisboa ou de Pádua?

Diário de um desespero – ou quase – LXXXIII

João Carlos Pereira

Praticamente todo mundo tem orgulho da terra onde nasceu e nutre grande amor por ela. Eu mesmo, quando penso em ir embora daqui, e, confesso, penso cada vez mais, porque o Brasil está ficando irrespirável, sinto meu peito apertado. Como não estou brincando quando digo isso, invento uma forma de manter o pé atado a Belém e juro que voltarei todo outubro para passar o Círio. Depois garanto que serão apenas temporadas. Em seguida, mudo de assunto. É complicado desgarrar-se assim do lugar onde se tem trabalho e amigos.

Como não sou Lindanor Celina, que no dia em que resolveu ir morar na França foi mesmo, e minha coragem não chega aos pés da que ela sempre teve para tudo na vida, acho difícil arrancar as raízes de uma árvore de 61 anos, tão profundamente deitadas nesse chão. Uma vez, fui ver a possibilidade de um emprego num jornal de Lisboa e as chances eram bem grandes. A pessoa que me recebeu informou que deveria retornar dois meses depois para saber se a proposta havia sido aprovada. Como inda estou em Belém, desnecessário dizer que não me interessei pela resposta.

Era o Rubem Braga quem dizia que brigava, xingava, reclamava, mas não saía do Rio de Janeiro. Nem mesmo quando sua saúde estava seriamente comprometida, poderia ter ido para São Paulo, em busca da cura para o câncer que o matou. Ele até chegou a pegar um vôo da ponte aérea, mas a finalidade era outra: foi acertar a cremação de seu cadáver, deixar tudo arrumadinho para não dar trabalho a ninguém. Quando o homem da funerária perguntou o nome do defunto, disse secamente que era ele próprio. O inventor da moderna crônica brasileira morreu no dia 19 de dezembro de 1990.

Um dos maiores santos da Igreja se chamava Fernando, ou Fernão, Antônio de Boulhões e nasceu em Lisboa, no dia 15 de agosto de 1195. Como se vê, era português. Viveu pouquinho, apenas 36 anos, e teve a graça de conviver com outro santo pelo qual o mundo cristão é apaixonado: São Francisco. Reconhecido como pregador extraordinário e grande realizador de milagres, ainda em vida, foi canonizado apenas onze meses depois de sua morte. Santo Antônio é um caso raríssimo entre os humanos com direito à glória dos altares.

Quando o corpo de Santo Antônio, que é padroeiro de Portugal e doutor da Igreja, foi exumado, tudo havia seguido o destino dos mortos, exceto a língua. São Boaventura, que estava presente à cerimônia, disse que o milagre era a prova de que sua pregação era inspirada por Deus. A língua segue exposta até hoje na Basílica a ele dedicada, na cidade de Pádua, ou Padova, na Itália, onde morreu no 13 de junho de 1231.

Se alguém perguntar a qualquer português a nacionalidade de Santo Antônio, ouvirá sempre a mesma resposta. “Ele é nosso conterrâneo. É português”. Na Itália, a resposta é outra. Santo Antônio é italiano. No livro de registro dos santos, seu nome foi inscrito como sendo italiano, tal como deveria constar em sua certidão de óbito, caso esse documento exista, do mesmo modo como se lê em sua certidão de nascimento no céu.

A pequena confusão, origem do surgimento de dois santos no lugar de um só, – Santo Antônio de Lisboa e Santo Antônio de Pádua” – é decorrente de uma regra da igreja. Se um santo volta para Deus em um país diferente daquele onde desembarcou no mundo, sua nacionalidade muda. A lógica é simples: ele nasceu para uma nova vida, a partir daquele solo. Logo, se transforma, automaticamente, em nativo de onde morreu e não de onde nasceu. Como o português Antônio morreu em Pádova, virou, italiano na mesma hora.

Ninguém duvida que Karol Wojtyla nasceu na Polônia. Como morreu em solo italiano, sua biografia como santo começa na Itália. Para a igreja, São João Paulo II é italiano e pronto. Os poloneses não engolem a regra, assim como os portugueses também não aceita o Santo Antônio de Pádua. Mas Roma falou, está falado. Não há apelação.

Claro que os espanhóis adorariam que José de Anchieta fosse um santo deles, mas, desculpa aí, é nosso. Espanhol canonizado que morre no Brasil ganha nacionalidade brasileira. Anjezë Gonxhe Bojaxhiu M.C., conhecida como Madre Teresa de Calcutá, nasceu na Macedônia e morreu na Índia. Índia 1, Macedônia 0. O primeiro santo 100% brasileiro, porque nasceu e morreu aqui, é Frei Galvão. Produto nacional tipo exportação.

A questão do bairrismo é mais uma bobagem que o mundo encontrou para arrumar encrenca. Santo Antônio, cuja data hoje celebramos, não é mais ou menos santo ter nascido em Portugal e morrido na Itália. Ele é santo, amado no mundo todo, amigo dos pobres, dos que buscam um amor, e, em especial, dos que perdem alguma coisa. Isso não basta para justificar esse chamego que a humanidade tem com ele?

No meu caso, acho que vou preferir morrer em Belém. Se calhar de virar santo, não posso negar essa glória à minha terra, uma vez que santos não estão nem aí para essa vaidadezinha sem sentido.


João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Crônica

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