Pentecostes: a Casa, a Trombeta e o Fogo

Cyril Suresh, SJ

Enviai o vosso Espírito, Senhor, e da terra toda a face renovai.

A. Olhar Histórico-Narrativo

Pentecostes, quinquagésimo dia, é uma festa que acontece 50 dias depois da Páscoa. Antigamente os Israelitas, alimentado pela refeição pascal, saindo da terra de Egito, atravessando o mar vermelho, chegaram ao deserto de Sinai e acamparam diante da montanha (Ex 19,1-2). Moisés subiu ao monte santo de Deus. Houve uns fortes trovões e relâmpagos cercados pelas nuvens e ventos fortes. Deus desceu no fogo (Ex 19,18). A voz de Senhor lança chispas de fogo (Sl 29,7). A presença divina inundou a montanha toda e a PALAVRA sagrada de Deus foi entregue a Moisés em forma de Dez Mandamentos. Ele desceu do monte e instruiu o povo reunido nas semanas seguintes. Iluminado pela PALAVRA bem instruída, o povo renovou os seus compromissos com Deus. Todo ano, o povo comemorava fielmente este acontecimento histórico como festa agrícola, fazendo acampamento de tendas, trazendo suas colheitas primícias da safra, renovando sua aliança da Palavra de comprometimentos. Era comemoração da proclamação da “Palavra do Senhor”, o dom da Lei, no monte Sinai, relacionada com o evento salvífico da aliança libertadora. Anualmente era uma grande festa da messe (Ex 23,16). Assim, Pentecostes, na tradição judaica antiga, tem outros nomes sinonímicos, como a festa da colheita, a festa da semana, a festa das tendas, a festa da congregação, a festa de juramento e renovação da aliança.

A Palavra de Deus se dirigiu a Moisés na sarça ardida no fogo (Ex 3,1-6). A Presença de Deus protegia o povo de dia, numa coluna de nuvem, para guiá-lo e de noite numa coluna de fogo, para iluminá-lo (Ex 13,21). O povo percebia a manifestação de Deus por meio de trovões e relâmpagos, nuvens e fumaças, trombetas e ventanias, terremoto e furações, fogo e palavra (Ex 19, 16-25; 20,18; 1Rs 19, 10-12; Is 66,15-17).   Profeta Ezequiel encontra-se com o Espírito revivificador de Deus. A vivificação do povo de Deus exilado, cujos ossos eram ressequidos pelo confinamento forçado, demostra uma infusão do Espírito colocando o exército imenso em pé, forte e vivo (Ex 37,1-14). Tal povo recebeu a promessa da efusão universal do Espírito sobre todos os viventes, como afirma o profeta Joel (3,1-5). Nesta experiência intensa, o povo salmodiava cantando, “Deus faz dos ventos os teus mensageiros e das chamas de fogo os teus ministros” (Sl 104, 4).

O Espírito de Deus é princípio de vida divina na criação como vento, água e sopro divino (Gn 1,2; 2,7). É presença ativa de Deus em tudo. Sem a respiração ou participação de Deus, a criação nem sequer pode existir. Ao retirar a força de Deus, os viventes expiram e voltam a ser pó; ao enviar o sopro Dele suas criaturas vão continuar sendo recriadas e renovadas na face da terra (Sl 104,29). 

O relato de derramamento do Espírito Santo na historiografia bíblica contém uma ponte unificadora. A promulgação carismática da Lei de Deus (AT) deve se conectar com a Proclamação querigmática da Palavra do Senhor Jesus (NT). Então, o Novo Pentecostes (At 2,1-13), antes de tudo, é a consumação ou plenificação do mistério pascal. Isto é, a paixão-morte-ressurreição-ascensão de Jesus Cristo- o encarnado e ressuscitado. É uma realidade única e especial. Todos falam línguas diferentes, mas a linguagem do Espírito é única, por isso todos entendiam essa linguagem na própria língua; são muitas línguas, mas uma linguagem única.  É o contrário da experiência na construção de Babel (Gn 11,1-9), na qual Deus confundiu a língua de todos os habitantes da terra. É provável que todos tivessem falando a mesma língua – arcádica. Porém a linguagem de Deus os confundiu e eles não se entendiam (KONINGS, J; ISIDORO, M. Atos dos Apóstolos, São Paulo: Loyola, 2017, p.19).

Jesus é o cordeiro que tira o pecado do mundo (Jo 1,29.35). Agora pede ao Pai para enviar o Advogado-Paráclito-Espírito Santo (Jo 14,16.26) que é o Espírito da verdade (Jo 14,17), da paz (Jo 14,27), do perdão (Jo 20,21-23). O espaço que Jesus deixa, ao encerrar sua missão na terra, é preenchido pelo Espírito que vem de Deus-Pai e procede do Filho-Jesus. É o mesmo Espírito, diferente dos dois, mas une os dois. Jesus mesmo soprou, assim como no AT (Gn 2,7; Sb15,11), sobre os seus discípulos amados o Espírito Santo da paz e reconciliação (Jo 20,19.22).

B. Olhar Espiritual – Mistagógico 

Na tradição rabínica a PALAVRA de Deus é apresentada como fogo. É remédio contra o embrião do pensamento abstrato do gnosticismo. Contra este abuso, todas as teofanias bíblicas são materializadas. O Pentecostes é a materialização da ação do Espírito Santo na marcha da Palavra. Não deve ser visto como um fato isolado ou um dia acontecido, mas algo que continua acontecendo desde a partida física de Jesus até o fim dos tempos e não só em Jerusalém, mas em mundo inteiro. Seria errado pensar que o Espírito foi dado naquele momento pela primeira vez, sem tomar a consciência histórica do povo bíblico desde sua criação. 

O Espírito Santo que desce sobre os discípulos em forma de língua de fogo é a PALAVRA e o Novo Mandamento de Jesus (Jo 13,34-35). Tal manifestação histórica do Espírito no fenômeno carismático de Pentecostes permanece atuando nos carismas da igreja, por meio de diversidade de dons, para a edificação de uma assembleia santa e unida. Ela é Corpo de Cristo, Templo de Espírito Santo e Povo de Deus. A unidade do Espírito na diversidade dos dons (1Cor 12,3-13), no pertencimento a Cristo, envia o povo na pluralidade dos serviços na Igreja (Ef 4,11-13).  É a ação do Espírito de Deus que nos faz dizer que “Jesus é o Senhor” (1Cor 12,3). O Espírito Santo como línguas de fogo faz os apóstolos anunciar as maravilhas de Deus! O Espírito que nos habita não é um Espírito de medo, mas é o Espírito que capacita o povo para proclamar, discernir, reunir, construir, abrir novos caminhos, a fim de formar hoje as pessoas que podem encontrar e reconhecer o Jesus Cristo, sempre viva na comunidade de discípulos. Desejosamente, a “paz” que Jesus por duas vezes aos discípulos (Jo 20,19.21) implica a superação do pecado pelo amor, da vingança pela reconciliação, do medo pela fé. Uma mistagogia cristã pode tomar uns três símbolos que poderia reconduzir intensamente o povo na vivificação do Espírito Santo dentro da liturgia. Seguindo a reflexão narrativa do Espírito, a tenda (a casa confinada), a trombeta e o fogo são símbolos inevitáveis desta festa de Pentecostes.

Estrutura concreta: A tenda, a montanha de Deus, a Igreja, a casa confinada, a raiz, o alicerço, o fundamento, etc.
Evocação: Presença, paz, firmeza, mistério, Palavra, Amor, Paz, justiça, etc.    
Habitar na
Encontro concreto: Trovões, vento, sopro, força, sino, um forte vendaval, perdão, purificação, etc. 
Convocação: Proclamar, cantar, alegrar, ecoar, soprar, ajuntar, escutar, congregar, acampar, habitar, etc.
Anunciar a esperança
Sinal concreto: Relâmpago, luz, língua de fogo, lâmpada, Círio Pascal, renovação, consagração, etc.  
Provocação: Ver, renovar, cumprir, iluminar, discernir, plenificar, propagar, curar multiplicar, realizar, etc.
Doar o amor no serviço
C. Olhar Eclesial-Pastoral

Deus fala através de profeta Isaías: “Eu virei para reunir todos os povos e línguas” (Is 66,18). O acontecimento do Espírito Santo é uma glossolalia, que é um fenômeno comum na igreja primitiva com louvor, entusiasmo da fé, temor e coragem, admiração e posição dos apóstolos falando em línguas (cf. At 2,1-4.6a.12-13; 4,31). O derramamento do Espírito Santo se traduz na linguagem de Lucas como “ficar cheio de Espírito Santo”. Maria, a mãe de Jesus, ficou cheia de graça e do Espírito Santo (Lc 1,28.35). Isabel ficou cheia do Espírito Santo (Lc 1,42), e o marido dela, Zacarias, soltando-se sua língua, começou a louvar a Deus (Lc 1,65), e depois ficou cheio do Espírito Santo e profetizou (Lc 1,67). Seu filho João Batista ficou forte de Espírito (Lc 1,80). Jesus recebeu o Espírito Santo no seu batismo (Lc 3,22), e foi ungido também na proclamação da Palavra dentro da sinagoga (Lc 4,18). Pedro ficou cheio do Espírito Santo e falou (At 4,8). Os sete diáconos estavam repletos do Espírito e de sabedoria (At 6,3). Diácono Estêvão, o primeiro mártir helenista, repleto do Espírito Santo olhou para o céu (At 7,55). A igreja nascente, junto com Maria, mãe de Jesus, ficou repleta do Espírito Santo (At 1,13.14; 2,4). O Apóstolo Paulo ficou cheio do Espírito Santo (At 9,17; 13,9). Todos os ouvintes do testemunho de Pedro e João, que estavam reunidos, ficaram cheios do Espírito Santo (At 4,31). Os samaritanos receberam o Espírito Santo (At 8,17). Podemos observar que democrática e universalmente o Espírito de Deus é derramando sobre aqueles que o invocam.

Os dons e os frutos de Espírito Santo, não são restritivos ao número sete, mas são indicativos e inumeráveis. A listagem do profeta Isaías tem sete dons do Senhor Deus – fortaleza, temor a Deus, ciência, sabedoria, inteligência, conselho e piedade (Is 11,1-3). A listagem do Apóstolo Paulo tem mais de sete dons (cf. 1Cor 12,8-10; 28-30; Rm 12,6-8; Ef 4,11-13). De acordo com ele, uma vez que o Espírito de Deus habita no povo, o povo está sob o domínio do Espírito (para superar os instintos egoístas), e quem não tem o Espírito de Cristo não pertence a Ele (Rm 8,9). As profecias como dons de Espírito devem ser examinadas sem extinguir o Espírito (1Ts 5, 19-21).     

O Espírito, como Rûah (רוח) em hebraico, é um termo feminino cujo significado tem a ver com vento, sopro, brisa, espaço. Sua função é criar, gerar, vivificar, reconstruir, renovar, evoluir, com a presença poderosa de Deus. O Espírito sagrado gera a vida, movimenta o corpo e sopra onde quer. A força vital do Espírito nos conduz sempre no caminho da vida, evocando-nos o mistério e a presença de Deus, convocando-nos a união e a firmeza, e provocando em nós o mesmo sentimento de Cristo (i.e.) a consolação no Senhor e a liberdade de ação. O Espírito, na Bíblia, não é alheio à matéria, mas é ajudante defensor para animar a matéria biológica e histórica, negra e branca, tangencial e invisível, carnal e mística. O oposto do espírito (móvel) é matéria morta (imóvel) ou “ego-estático” autossuficiência opressora dos homens. Em outra palavra, não é Pentecostes transformador (At 2,1-11), mas sim, a torre de Babel derrubada (Gn 11,1-9). É comunhão e não é confusão ou divisão.      

Neste dia de Pentecoste, a Igreja que é Una-Santa-Católica-Apostólica, está aniversariando pelo seu batismo de fogo da palavra (Lc 3,16, At 11,16). Seu papel fundamental é conservar a unidade na diversidade de dons, a fraternidade na multiculturalidade, a dinamicidade na multiformidade dos serviços. Pois, as línguas (idiomas) são inumeravelmente diversas. Porém, a linguagem do Espírito (perdão, amor, paz, justiça) é única. A Igreja é uma só, pois ela crê num só Deus (uno e trino, triuno). A unidade divina por parte de Deus paralelamente se dirige à unidade cristã por parte dos homens. A Igreja é santa, porque sua fundação é instituída por Jesus no cenáculo e por Espírito de Deus no Pentecostes. Ela é católica, porque seus membros são um povo universal de todas as raças e de todos os idiomas do mundo. Ela continua procurando alcançar todos os povos, grupos, raças e etnias, numa linguagem que os atinja – anunciando o Evangelho, denunciando a injustiça, renunciando o apego material e pronunciando o perdão e a paz.

A Igreja é fundamentalmente missionária. Jesus disse: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio” (Jo 20,21). Por isso, todos os batizados em Cristo apostolicamente recebem a missão de Deus com a diversidade de chamados – apóstolos, profetas, mestres, milagreiros, curandeiros, intérpretes (1Cor 12,29-30). O diálogo ecumênico – inter-eclesial e intra-eclesial, é um caminho irreversível para a Igreja unida. Com isso, a unidade do Espírito é o vínculo da Paz (Ef 4,3), que exalta na harmonia e na sintonia da Igreja, uma só Esperança, um só Corpo, um só Espírito (Ef 4,4), uma só fé, um só batismo, um só Senhor (Ef 4,5) e um só Deus-Pai (Ef 4,6). Tal unidade não é principalmente o resultado da nossa ação, mas, segundo o Papa Francisco, é dom do Espírito Santo. Para isso, haja Espírito!  


31 de maio de 2020 — Solenidade de Pentecostes
At 2,1-11 | Salmo 103(104) | 1Cor 12,3-13 | Jo 20,19-23

Palavra de Deus

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