Aproveitar a vida, enquanto ela está ao alcance das mãos

Diário de um desespero – ou quase – LXVIII

João Carlos Pereira

Entre as tantas besteiras que chegam pelas redes sociais, uma coisa ou outra se salva. É raro, mas se salva. Detesto mensagens de otimismo, boa noite ou bom dia com gifs sentimentais. Não suporto fotos de pratos servidos em restaurantes, exceto quando se tratar de algo muito especial, como uma travessa de bacalhau que comi em Portugal, capaz de servir até cinco pessoas. Era tão grande, que passava de um lado ao outro de mesa. Dispenso rótulos de vinhos e postagem auto-elogiosas. Certas intimidades são concedidas apenas a poucas pessoas, porque intimidade é uma coisa que deve ser preservada e não exposta ao mundo.

No domingo passado, no meio de uma lixarada, recebi um vídeo maravilhoso intitulado “não perde tempo. Mete o saca-rolha”. Já fiquei meio assim, porque era narrado pelo professor Cortella, que, junto com Carnal e Pondé, foi alçado ao mais alto degrau de inteligência nacional e nada passa sem que os três sejam chamados a dar opinião, do tipo: “Cortella, choveu muito. O que você acha. Vai ser bom para a safra do cupuaçu?” “Carnal, caiu o ministro. Qual sua opinião. Será que ele se bateu?” “Pondé, o presidente falou em cocozinho. Isso é correto. Não há aí um viés reacionário? Acho que o problema é mais de quem perguntado do que para quem é perguntado. Mesmo assim, deixei rolar, porque o assunto toca muito de perto ao um de meus maiores prazeres: o vinho.

A história é simples, bem contada e as imagens são ótimas. Dois amigos estavam em um restaurante, quando o garçom chegou, trazendo uma garrafa de ótima procedência e de uma safra excepcional. Essas duas características, somadas, resultam no óbvio: preço alto. Vinho tem dessas coisas e quem aprecia sabe muito bem que seu bolso é o limite de seu paladar. Um deles não hesitou e disse: mete o saca-rolha.

A história tem duas morais, ou quantas forem possíveis. Uma delas é: quem pode, bebe o vinho que quer. A outra é mais importante. Se der para fazer, que se faça. Do jeito que a vida anda (ou não anda), ninguém sabe se o corona vírus se esconde atrás da porta e, como cobra traiçoeira, dá o bote em quem quer que seja. O famoso carpe diem, ou aproveite a vida (enquanto ela há) nunca foi tão verdadeiro e atual como agora.

A historinha prossegue com o narrador contando que um homem muito rico, dono de uma adega maravilhosa, que faria o Sérgio Cabral corar de vergonha da sua, considerada uma das melhores do Brasil, sentia prazer apenas em ver o estoque. Mas apenas de ver. Poderia abrir qualquer “Pera Manca” ou “Barca Velha” para degustar um rótulo de 500 euros (três mil reais, para deixar mais claro seu real valor), no momento que desejasse, mas sempre preferia aguardar uma ocasião especial, o momento certo. Os vinhos iam envelhecendo, à espera de um saca-rolha que nunca passou pelas suas mãos.

Certo dia, a morte, em vez do saca-rolha, meteu foi a foice no pescoço do refinado enólogo, que morreu sem apreciar o que a vida lhe disponibilizara. A viúva deixou passar um tempo e casou novamente. O segundo marido, bem mais novo e mais sábio que o anterior, secou a adega em pouco tempo. O morto não voltou para reclamar e tampouco aproveitou seus vinhos caros. De certa forma, muito feito.

Já fiz isso e, agora, não me privo mais de nada. Claro que não possuo um “Pera Manca” e, de verdade, nem sei que gosto possui. Mas o que a vida me oferecer, nunca mais deixarei passar. Queria adaptar o ditado “quem de um escapa, cem anos vive”, para “quem de um corona vírus escapa, deve aprender a viver”. Se não aprender, não mereceu escapar.

Não creio no novo normal, porque isso me parece conversa fiada. Mais uma pós-modernidade sem noção. Se cada um puder ser um ser novo, normal, ao natural, ajudando o mundo a entender que luxo, riqueza, esnobação, prepotência e preconceitos não levam a lugar algum – que o digam (se pudessem) os ricos e poderosos, esnobes, prepotentes e preconceituosos vitimados pela covid-19 – a vida poderá ter um sentido renovado, mas não será muito diferente, não. Quem sobreviver, verá. Quem sabe, entre bons goles de vinho. Não necessariamente vinho caro, porque esse meu braço não alcança, mas o que se degusta entre amigos que falam a mesma língua do afeto e observam o mundo a partir de idêntico patamar.


P.S. Muito agradeço a compreensão dos leitores que sentiram falta dessas historinhas, nos dois dias em que fiquei sem internet. Graças ao bom Deus está tudo normalizado.

João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Claude Monet — Nature morte avec bouteille, Carafe, pain et vin, c. 1862/1863 — National Gallery of Art

Crônica

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