Memórias de um menino que quase não saiu da escola

Diário de um desespero – ou quase – LXIV

João Carlos Pereira

Nunca fui adepto do dito “quem não cola, não sai da escola”. Não por moralismo, escrúpulos ou medo. Mas por incompetência. Se dependesse de copiar respostas de provas alheias, ainda estaria por terminar o científico, que virou segundo grau e, agora, se chama ensino médio. Tirando matemática, física e, sobretudo, química, eu me safava bem nas demais matérias. Em algumas, até passava por média. E olhe que, nos anos 70, no glorioso Colégio Moderno, a média para aprovação direta era 8. Menos que isso abria-se caminho para prova final – primeiro degrau da vergonha – e, em seguida, segunda época – o altar supremo da vergonha.

Quem ficasse em mais de duas matérias, nessa etapa, podia pedir logo transferência para o colégio “Abrahan Levi”, o famoso “Abrahan me Leve”, ou chamado de coisa muito pior, como pronto-socorro da vadiagem, para se dizer o mínimo. Lá podia tudo. Hoje, se não houve alteração de nomenclatura, os malandros ganharam direito a uma aberração, algo deformado e deformador, estranho, que atende pelo nome de “dependência”.

Se meus professores, à época, tivessem uma crise de generosidade e permitissem fazer prova de matemática, química ou física, consultando material, ainda assim eu não escaparia da nota vermelha, porque não possuía a mínima noção do conteúdo. A resposta estaria na minha cara, mas não a veria.

A professora de matemática tinha um nome pouco comum entre nós, mas bastante comum na língua francesa. Graças a ela e um pouco à sua própria anatomia, popularizou ainda mais a rima “perna fina e bunda seca”. A bunda não era seca, pelo contrário. Era bem cheinha e larga. Ancas exageradas a definiriam bem. Andava como uma pata e as pernas eram, realmente, finas. A falta de dentes deixou a boca mole e criou o hábito de colocar a língua para fora, enquanto falava, o que dava a certas palavras uma forma arredondada, sobretudo porque possuía o hábito de soletrá-las. Entre o nariz abatatado e a beiçola, encaixava um lápis. A careta era de tal modo medonha, que o pavor ficava visível em nossos rostos.

Foi a primeira professora que eu vi desenvolver a técnica da embromação com elegância e competência. A chamada consumia uns bons dez minutos da aula. A relação era lida inteira, bem lentamente, pronunciando o nome completo do aluno. Se o sobrenome lhe soava familiar, fazia um questionário completo. “Tu és o que para fulano? És parente de sicrano”? E aí engatava conversa.

Ela trazia na voz a força de um trovão. Um berro seu era ouvido a quilômetros. Vestia-se com tanta simplicidade, que seu aspecto contrastava com o das demais professoras. Até as pobres serventes, ou inspetoras, andavam mais arrumadinhas. Dinheiro não lhe faltava. Diziam que possuía uma vila, tinha casa própria e dava aulas particulares para meio-colégio Moderno. Alugava uma sala na antiga Escola Prática e lá nos desemburrava. A paciência que lhe faltava de manhã, sobrava à tarde. Nunca se escutou um grito da professora, cujo nome não escrevo por respeito e consideração, nos encontros com os “clientes” vespertinos, os mesmos alunos matutinos. Economizava sorrisos e simpatia, de manhã, para liberá-los à tarde, quando conseguia mais resultados, mais respeito e mais dinheiro, claro.

Meus pais faziam sacrifício para pagar as aulas particulares e o resultado compensava. Mas não era real. O exercício aplicado na véspera, algo como 3 + 2, na prova do dia seguinte reaparecia como 2 + 3. Só não passava quem era muito burro, o que, graças a Deus, não foi meu caso.

Uma tarde, tendo sido o último a sair, puxou conversa comigo e descobriu que meu avô havia sido seu professor na faculdade de engenharia – sim, esqueci de dizer que ela era engenheira, como também quase me escapou de contar que vivia com uma senhora muito bonita, de pele branca e olhos azuis, que abandonou o hábito para ser sua companheira. Nunca, ao que eu saiba, levantou bandeira da causa gay, mas também não escondia a opção.

Soube que, contratada para ministrar aula particular na casa de uma família tradicional, aqui de Belém, ajustou o preço e visou, antes da informação chegar em tom de fofoca e maledicência, que vivia com uma senhora. Sem que alguém pedisse detalhes, ela se apressava em fornecê-lo, não escondendo um certo orgulho, uma pequena vaidade. “Mas eu quero dizer que, no caso, a pessoa seduzida fui eu”. Pelo que se via no presente, ou ela havia sido virada do avesso, ou se fazia de gostosa, coisa que, provavelmente, nunca foi.

Se, de fato, viveu uma paixão proibida pelo meu avô, nunca soube. Mas, de alguma forma, foi bom para mim, pois passou a agir como se estivesse honrando uma dívida de gratidão ao velho mestre, me dispensando da mensalidade. Alguém me disse que ele foi sua grande paixão. Eu peguei a rebarba do sentimento. Não sei se foi impressão minha, se desejei ver a coisa deste jeito, para parece que, desde então, subi no seu conceito e nunca mais fui humilhado. Mas já era tarde. O trauma do “dize a regra” estava instalado em minha alma.

A professora era quase uma personagem. A mulher ríspida, baixinha, ancas avantajadas, cabelo partido no meio, ondulado, às vezes exageradamente ensebado pelo creme de pentear, escorrendo para os ombros, tinha algo a mais em seus olhos miúdos, escondidos atrás dos óculos, que me fazia gostar dela. Em que pesem os berros, as descomposturas, as sacudidas que dava na gente – nunca ninguém reclamou sequer ao Diretor, quanto mais registrou queixa na polícia, primeira providência de um pai, cujo filho fosse tocado de leve, hoje, pelo professor, sob alegação de assédio – sentia enorme simpatia pela professora de hábitos estranhos e pouco higiênicos.

 De vez em quando, pegava a régua que éramos obrigados a depositar sobre a certeira e, com ela, coçava as costas. Quase sempre a enfiava pelo meio das pernas para aliviar alguma assadura ou incômodo nas coxas. Quando tomava emprestada uma régua, um qui-qui-qui abafado corria pela sala. Alguém comentou que não usava calcinha, mas isso não posso afirmar.

Numa ocasião, pediu, com todo jeito, o que não era normal, a régua de uma aluna muito bonita, pela qual não escondia especial simpatia, e se coçou toda. Depois, chamou a menina pelo nome e mandou que apanhasse a régua de volta. A pequena, que era um tanto atrevida e toda rebolativa, o que talvez fosse agradável aos olhos da professora, se levantou, tomou a régua pela ponta dos dedos e depositou-a, ostensivamente, na lixeira da sala. A criatura ficou morta de vergonha.

Como sempre tive abuso das aulas de português e de matemática, as duas juntas me levavam ao inferno. Um dia, a professora de matemática me pegou pelo braço e, enquanto me sacudia, repetia aos berros: “menino, dize a regra. Dize, menino. Dize!” Quando mais eu tremia, fosse pelo nervoso, fosse pelo gesto violento, mais ela berrava o imperativo afirmativo do verbo dizer, na forma tu. “dize, menino. Dize a regra”. Eu até sabia a regra, cuja descrição me cobrava e poderia responder, caso indagasse de outro modo, usando o mesmo verbo. “Menino, diz a regra”. Ou “menino, diga a regra”. Aí eu diria, caso parasse de tremer. Mas “dize” era algo incompreensível, parecia outra língua.

O por quê de não haver respondido o que sabia era devido, em grande parte, aos péssimos professores de português que tive no ginásio. Uns péssimos, outros antipáticos, alguns péssimos, antipáticos e estúpidos. Da que reunia essas três características não digo o nome, porque não desejo sujar esta crônica. Ainda me custa lembrar que a infeliz pisava o pé da gente de propósito e ainda dizia: “eu não vou pedir desculpas, porque vocês estão vendo que eu vou passar e não tiram o pé do caminho”. Aquilo não era uma professora. Era um demônio. Mais não revelo para evitar que seja identificada. Essa nem memória merece, quanto mais descrição alongada, como a da professora de matemática. Aquela deve estar no céu. Essa-uma, não sei.

Havia um outro professor gordão, cujo nome suprimo por pura piedade. Ele usava bata cada vez mais apertada, com os botões estourando, a pança à mostra, sempre com a barba por fazer e, em dia de jogo do Remo, enchia tanto a cara, que chegava ao colégio cheirando a bebida. Quando havia prova num pós-jogo, aproveitávamos. Se nos faltava a certeza entre uma alternativa ou outra, bastava chegar perto e confessar a dúvida. Com forte hálito de cerveja, os olhos vermelhos, dava a resposta e uma esculhambaçãozinha: “não estás vendo que isso é um complemento nominal ? Tu és burro, burro…” Apesar de tudo, da péssima dicção, da falta de didática, gostávamos dele. Era bem simpático, o remista bonachão.

Não sei como pude me apaixonar pela língua portuguesa, se tive em mãos, e diante de mim, os melhores elementos para odiá-la. Todos os créditos devem ser dados a duas pessoas especiais: Marlene Coeli Vianna e Concita Magno Bentes. Foram elas que me mostraram a beleza do idioma e, involuntariamente, de alguma forma, pavimentaram o caminho da minha frustração profissional. A diferença é que elas amavam gramática e eu, não.

De Física lembro apenas de um professor chamado Lázaro. Era jovem, simpático, atencioso e bonito. Estava começando a carreira, quando comprou seu primeiro carro, uma Brasília azul, com o dinheiro das aulas. Um acidente fatal, para os lados de Icoaraci, acabou com o veículo e com ele. A missa de sétimo dia foi no pátio do Moderno e todo mundo chorava. Lázaro deixou saudades. Como sempre passei raspando em física, apaguei da memória todos os conceitos e os nomes dos professores que vieram depois dele.

Química foi um caso à parte. De um lado havia uma professora exigente. Do outro, um aluno tapado. O aluno era eu. A professora, Norma da Costa Mendonça, reencontrei, anos mais tarde, como Norma Sá. Ela só podia ter tido pena, piedade, dó, compaixão, clemência, comiseração, condoimento, misericórdia, ou qualquer outro sinônimo que agora não me acorre daquele aluno tapado. A esses, acrescento o que talvez fosse o ingrediente mais verdadeiro de nossa relação: o afeto. Até hoje, quando nos vemos por aí, ela aposentada, eu também, após havermos sido colegas no mesmo colégio Moderno, recordo os dias de sofrimento e ela diz, generosa: “não, João. Tu não eras assim”. A bondade não conhece limites.

Se eu tivesse estudado um pouco mais a tal da química, conseguiria o título de doutor em vinho, pela Universidade de Buenos Aires. Mas o que hoje se chama de a “química” da relação, numa existiu entre mim e a disciplina.

Saí da escola e, na universidade, fiz um curso que não era exatamente a minha praia. Tenho duas especializações em língua portuguesa e passei duas vezes no mestrado. Fui professor e sou jornalista. Mas, como já disse nesta interminável quarentena, em pelo menos três crônicas, o que eu queria mesmos era ser padre.

Agora, pelo menos para isso, é tarde.


João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Vincent Van Gogh — O Escolar, 1888. Museu de Arte de São Paulo.

Crônica

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