Jesus: “Eu estarei com vocês todos os dias, até ao fim do mundo”

Cyril Suresh, SJ

Neste domingo de Ascensão do Senhor, a Encíclica do Papa Francisco, Laudato Si’ (24 de maio de 2015),  sobre o cuidado da casa comum, está aniversariando alegremente (5 anos), e seus temas mais importantes estão retomados também na exortação apostólica pós-sinodal Querida Amazônia (2/02/2020). E hoje a Igreja conclui sua comemoração de uma semana de Laudato Si’ (16-24 de maio). A nossa aproximação com as Leituras do dia e com a Encíclica está entrelaçada de três aspectos: tornar-se Solidário, manter-se o Equilíbrio e contemplar o Mistério. 

(a). Tornar-se Solidário é uma ascensão comunitária 

O mundo atual está infectado de autodestruição, da cultura de descarte, do dualismo-dicotômico, da autorreferencialidade pelos regimes totalitários e mortíferos, pelos conhecimentos fragmentários. O resultado disso descontroladamente traz crueldades, desequilíbrios, egoísmos, ativismos, consumismos, desigualdades, injustiças, violências e outros tantos. Consequentemente um vazio desconcertante persegue a humanidade dita moderna que apoia o desenvolvimento de exploração com um paradigma homogêneo, unidimensional e esquizofrênico permanente. Portanto, a sabedoria desta Encíclica profeticamente inspira-nos para escutar uma voz silenciosa da revelação divina que convoca todo mundo para a paz, a harmonia e a sabedoria. Convida-nos para assumir o compromisso constante da tremenda responsabilidade coletiva com o meio ambiente no qual tudo está interligado. Entusiasma-nos a cultivar mais a interdependência num único mundo e num projeto comum pelas virtudes ecológicas. Ilumina-nos para promover conversão comunitária, solidariedade universal, comunhão sublime, fraternidade justa, diálogo respeitoso, desenvolvimento integral das potencialidades. Inflama-nos para aprender a buscar o amadurecimento lúcido, a sobriedade sadia, a espiritualidade solidária na compenetração entre ora et labora (oração e trabalho) e entre mística e ética. 

(b). Manter-se o Equilíbrio é uma ascensão fraterna

Um diálogo fraterno entre um astrofísico, um biomédico e um sábio espiritual poderia desvendar um ponto de convergência sobre o assunto enigmático do universo, do mundo e do corpo humano. Tudo está interligado. Tudo é um grande mistério, pois o universo ainda está desconhecido por maior parte. Ninguém saberia dizer clara e evidentemente a origem e o fim da evolução tanto da matéria física quanto do ser bio-psico-espiritual. Todos são confinados com limites. Inegavelmente a terra, nossa casa comum, não é tão especial. Ela é somente uma poeirinha no universo que tem mais de um bilhão de galáxias. Em cada galáxia existe mais de um bilhão de astros e planetas no universo no qual os seres humanos são apenas um pontinho minúsculo. O conjunto dos conjuntos estrelares, planetários e galácticos fica mais além do total alcanço humano. Tão insignificantes são os seres humanos que ficam vulneráveis dentro da linha de tempo, diante da força cósmica, perante a calamidade natural e subjacente de qualquer pandemia.

O Senhor é um Deus eterno que criou toda a terra; é insondável a Sua sabedoria; Ele dá forças ao cansado e enche de vigor o fraco (Is 40,28-29). A configuração macrocósmica é um grande mistério. Simetricamente, a configuração microcósmica ou o mundo subatômico do corpo é outro grande mistério. Em ambas, existem os movimentos circulares universais de contração (centrípeta) e de expansão (centrífuga) girando continuamente. Até as almas invisíveis dos humanos tanto compartilham entre si uma inter-relação energética e intercósmica que até seus pensamentos, sentimentos e aparecimentos ficam empobrecidos pelo isolamento sociocultural de tal laço sagrado. 

Uma cosmovisão oriental afirma que o ser humano é o resultado da interação das forças do céu e da terra, do espírito e da matéria, da energia e da vibração; está condicionado pelas experiências singulares sofridas na vida; com um horizonte ecológico do corpo, onde cada parte contribui para o todo no equilíbrio do universo, necessária e responsavelmente, o humano passa a pensar, sentir e agir em ressonância harmoniosa com o universo mais equilibrado; para ele, a meditação seria uma raiz de equilíbrio que promove a comunhão cósmica e um remédio confinado que favorece a transformação mística pela convivência sustentável nesta terra – a casa comum. 

(c). Contemplar o Mistério é uma ascensão universal

Ascenção do Senhor Jesus é a última teofania coletiva registrada na Bíblia Sagrada, isto é, a manifestação de Jesus Cristo, Encarnado e Ressuscitado, aconteceu diante do povo reunido, antes de subir ao céu – o seu encontro cósmico com Deus. Depois da sua paixão e sua ressurreição, Jesus permaneceu na terra por quarenta dias instruindo os seus discípulos no Reino de Deus (At 1,3), e em seguida Ele foi levado ao céu (Lc 24,51; At 1,9). A tradição bíblica também registra tal evento semelhante de subir ao céu no relato de dois patriarcas no Antigo Testamento: Henoc e Elias. O primeiro é o neto de Adão e o filho de Caim (Gn 4,1.17). Ele andou agradando a Deus e Deus o levou (Gn 5,24; Hb11,5). O segundo é um grande profeta que despedaçou a idolatria em Israel. Ele subiu ao céu no redemoinho (2Rs 2,1-18).

Semanticamente, o vocábulo bíblico da Ascensão que foi usado na narrativa bíblica vem da raiz hebraica  לָקַח (lakod) e do termo grego ἐπ-αίρω (epaíro), quer dizer levar e subir, tomar e receber, transpor e transformar, retornar e extasiar com olhos erguidos na visão. Por exemplo, Elias subiu ao céu (2Rs 2,11); os santos encontrarão o Senhor (Sb 6,10); os discípulos ergueram os olhos (Mt 17,8); quem ouve as palavras de Deus e conhece a ciência do Altíssimo vai ver o Todo Poderoso e entrar em êxtase de olhos abertos (Nm 24,4.16).

Empiricamente, um olhar moderno, fotográfico e espetacular encontra dificuldade de compreender a experiência mística da Ascensão do Senhor. Simplesmente, a Ascensão significaria ter o fim misterioso ou o espírito profético da pessoa que subiu que nunca morre, mas perpetua no meio do povo de Deus, em todos os tempos. Por isso, Eliseu recebe o espírito de Elias no Antigo Testamento. Os discípulos recebem o espírito de Jesus no Novo Testamento. Teologicamente, o sentido de Ascensão está no dar solidário (1. repartir o poder) e no estar unido (2. comunhão permanente) mantendo-se o equilíbrio. Tal compreensão sagrada de Ascensão está contra qualquer desligamento, abandono, isolamento, desenraizamento, sumiço às nuvens.

  1. O repartir do poder está no compartilhamento da autoridade divina. Jesus respondeu: “Não vos cabe saber (é Mistério) os tempos que O Pai determinou com a sua própria autoridade, mas vós recebereis o poder do Espírito Santo (At 1,7.8). Deus manifestou sua força (o poder) em Cristo e o fez sentar-se à sua direita nos céus, bem acima de toda autoridade (Ef 1,19-21). Jesus se aproximou e falou: “Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra” (Mt 28,18).
    Atenção: O poder servidor da Bíblia é a força vivificadora que profeticamente ensina o povo, solidariamente levanta o povo e sacerdotalmente consagra o povo no amor e no serviço. Aqui não há um poder castigador, esmagador e opressor que tira a vida do povo. Jesus sempre foi um servo fiel de Deus, ensinando, curando, abençoando o povo.
  2. O estar unido na comunhão permanente é explícito na palavra de Jesus: “Eis que eu estarei convosco todos os dias, até o fim do universo (Mt 28,20); Eu levarei vocês comigo, para que onde eu estiver, estejam vocês também (Jo 14,3); Eu estou em meu Pai, vocês em mim e eu em vocês (Jo 14,20)”. 

Nesta certeza sólida, o Salmista se vibra exclamando, “O Senhor subiu ao Toque da trombeta!” (Sl 46,6). O apóstolo Paulo sintetiza a fé cristã de teofania: “Os vivos serão levados para as nuvens, ao encontro do Senhor a fim de estar para sempre com o Senhor. Consolai, pois uns aos outros com essas palavras (1Ts 4,17-18).Todos serão transformados revestidos de incorruptibilidade (1Cor15,51-53)”. A experiência da Ascensão democraticamente está aberta para todos e universalmente está confirmada a todos que agradam a Deus, escutando sua Palavra e obedecendo-a no caminho de Deus – Mistério, Solidário e Equilíbrio ao mesmo tempo. 

O início e o fim se abraçam. Este é o caminho de Jesus – no início a Palavra (Jesus) estava com Deus e era Deus (Jo 1,1); a Palavra se fez homem e habitou entre nós (Jo 1,14); o Pão que desceu do céu (Jo 6,41.50); fecundamente ele nutre a humanidade e depois retorna a casa de Deus – o Pai Nosso. Com a Ascensão do Senhor, a carne encarnada (humanidade de Jesus) entrou no céu! Na sua despedida terrestre, sua presença celestial permanece sempre! Sua ausência física afirma a sua presença mística! É o amor encarnado que faz o impossível possível. Por isso, não tem sentido em continuar olhando para o céu e ficar parado (num vazio paralisante)! Precisamos sair ao encontro dos outros. Parafraseando Mt 28,19-20: Ir e fazer discípulos de Jesus todos os povos, batizando-os (servindo, amando, lavando os pés e as mãos, mantendo-se o equilíbrio fraterno como Cristo), ensinando-os (ser solidário como Jesus) e observando os ordenamentos de Jesus (estar sempre juntos com Deus e com o povo no mundo). Assim, Deus seja tudo em todos (1Cor 15,28).

O Papa Francisco convida cada um de nós a contemplar este mundo com um olhar mais sapiente, no caminho do amor sem medo. Pois a inseparabilidade da biodiversidade e a interdependência das criaturas manifestam um sagrado inter-relacionamento que é evidente. Com quatro princípios (ganchos, postulados), o Papa nos ajuda enxergar uma sabedoria que rebaixa a prepotência dos humanos e eleva a insignificância deles:

  • o tempo é superior ao espaço
  • a unidade prevalece sobre o conflito
  • a realidade é mais importante que a ideia
  • o todo é superior à parte (Evangelii Gaudium,2013, n° 221)

Para tanto, uma conversão social, cultural, ecológico e eclesial ininterruptamente impulsionaria o ser humano que contemple humildemente o Mistério (de Deus, do universo, dos seres vivos), trabalhe fraternalmente no equilíbrio e torne-se universalmente solidário com os outros seres vivos nesta Terra – a Casa Comum.  


24 de maio de 2020 — 7° domingo da Páscoa: Ascensão do Senhor
Atos 1,1-11| Salmo – 46(47) | Efésios 1,17-23| Mateus 28,16-20

Nascido na Índia, padre Cyril Suresh Periyasamy cresceu em uma família de tradição religiosa hinduísta. Na adolescência, ao conhecer a história de Jesus Cristo, converteu-se ao Catolicismo, sendo batizado aos 17 anos. Durante seus estudos, em uma faculdade jesuíta, ele tomou contato com a espiritualidade inaciana e decidiu ingressar na Companhia de Jesus. [saiba mais]

Imagem:   Salvador Dali — Ascensão, 1958.

Palavra de Deus

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