A Cidade Velha e a “burra-velha-tartaruga”

Diário de um desespero – ou quase – XL

João Carlos Pereira

Gostaria de poder dizer, como Carlos Drummond de Andrade falou de sua terra, Itabira, que nasci na Cidade Velha. Principalmente vivi na Cidade Velha. Mas isso não aconteceu integralmente. Nasci na Cidade Velha, sim. Comecei a me entender por gente nas praças e ruas de lá. Foram apenas cinco anos, mas tempo suficiente para amá-la. Minha vida se deu mesmo foi no bairro de Nazaré. Quando nossa bisavó morreu, as tias-avós, herdeiras do imóvel, tinham direito de vendê-lo e o fizeram. No lugar, subiu o prédio principal do Tribunal Eleitoral, na rua João Diogo.

Do lado de nossa casa, à direita, morava dona Carmem, que vendeu sua residência para uma editora, mais tarde adquirida pelo Tribunal. À esquerda, residia dona Iolanda, cuja história contarei a seguir. Dona Carmem era uma pessoa muito boa, vizinha e amiga, que, quando nossa televisão pegou fogo, nos ofereceu a sua sala e nos transformávamos em “televizinhos”. Nunca antes, na história deste país, ou da humanidade, em todas as épocas, os bombeiros conseguiram ser tão eficientes e contribuíram para nossa nova condição, de vizinho que ia ver televisão na casa do vizinho.

Morávamos a menos de cinquenta metros da sede da corporação e bastava um grito dado na porta para que a sentinela de plantão acionasse o alarme. Era tão perto, que bastou ligar a mangueira ao hidrante, entrar pela sala e direcionar o jato para o curto-circuito de nenhuma importância, acabando, de vez, com um aparelho raro para a época. Imagine um jato d´água violento, agindo contra as fagulhas emanadas de um televisor. Uma verdadeira disputa de Davi e Golias ao contrário. A histeria, e talvez a vontade de ver bombeiros em ação, entraram para a história do bairro.

Entre nossa casa e os bombeiros havia a da dona Carmen, irmã de um senhor chamado Didi, o “seu” Didi, que gostava de amarrar os cadernos dos jornais por causa dos ratos. Segundo ele, os bichos adoravam roubar as partes da edição para fazer ninhos, e a do doutor Cândido Pereira, um médico famosíssimo em Belém, tanto pelo saber profissional, como por ser casado com uma senhora que usava laços enormes. O Tribunal foi comprando uma a uma, inclusive a da dona Iolanda, uma mulher de péssima reputação. Não que levasse vida de alcova reprovável do ponto de vista da rígida moral de então, imprópria para uma criatura que ostentava o título de baronesa (de onde, não se sabe), mas era cruel, muito má, com sua fiel empregada.

Há muito tinha vontade de contar sua história, mas sempre me esquivava por uma única razão: não conseguia me lembrar do nome de um das personagens envolvidas. Pensei em usar qualquer um, afinal a história não tem nada de muito especial e tudo que disser possuirá mais componentes de imaginação do que propriamente de verdade. Ela se deu há mais de meio século e não tenho na memória, a não ser fios de recordação. Igualmente desapareceram a fisionomia e as roupas das criaturas envolvidas. Com tantas lacunas, que mal faria eu ao chamar de Regina para Francisca; ou de Lúcia para Sílvia, que dificilmente apareceria alguém para me desmentir? Nem o amigo João Maroja, que conhece esses fatos, porque era nosso vizinho pela travessa São Francisco, recordava o nome da pessoa.

Deixa estar que eu nem pensava mais no assunto, porque havia decidido não mais me ocupar dele, quando, de repente, do nada, uma voz do passado acionou uma tecla da lembrança e eu recordei vivamente o nome. Chamava-se Cláudia, mas todos a tratavam de Claudinha.

Claudinha, esse nome tão juvenil e alegre, não era apropriado para uma dessas sofredoras de Cristo. Claudinha cai bem numa pessoa feliz. Baixinha e magricela, trazia, se não me engano, uma deformidade no que, antigamente, se chamava de espinha. Era magrela e baixota. Uma humilde criatura nascida no interior, que veio para Belém se empregar em casa de família. Caiu na mão da dona Iolanda, cuja mãe, imagine, tocava violino na porta, e a escravizou. O labor era de 7 dias na semana, de sol a sol, fazendo comida, lavando e passando no ferro de carvão, limpando o sobrado, areando prata, encerando o chão. Às vezes a patroa a libertava, domingo à tarde, para dar uma voltinha de bonde, ir à missa e voltar para a senzala.

Éramos vizinhos dessa feitora que, imagino, tenha saído da moldura de um camafeu enferrujado. Diziam que era baronesa por causa da postura elegante. Sua vaidade, seu orgulho e a crueldade com que travava a infeliz Claudinha a precediam. Devia ser uma casa tão grande como a nossa, que começava na João Diogo e ia terminar quase na São Pedro. Imagino a Claudinha dando brilho no piso, limpando os enfeites, trocando os paninhos dos móveis, espanando as peças antigas, cuidando dos quartos, do banheiro, do quintal, da cozinha de tudo. Moravam só as duas numa casa gigantesca. Uma sujava, a outra limpava.

Diziam que, quando iam ao comércio, a patroa tangia a Claudinha como vaqueiro conduz o gado, batendo nas suas perninhas com a ponta da sombrinha. “Sai da frente, anda ligeiro, burra-velha-tartaruga”. Essa frase ficou na minha cabeça de menino. A Claudinha, para mim, era burra (não foi à escola, porque, quanto menos soubesse, melhor. E olha que morávamos em frente ao Ginásio “Paes de Carvalho”), velha (porque consumiu a juventude na casa da baronesa) e tartaruga por que, graças à deformidade e às perninhas arqueadas, andava lentamente, a bem dizer se arrastava.

Até hoje, um eco distante repete no meu ouvido: “burra-velha-tartaruga” e eu imagino a baronesa empurrando a Claudinha pela rua 7 de Setembro. Um dia, sem a Claudinha em casa (olhem como Deus é justo!), os ladrões entraram, esfaquearam impiedosamente a dona Iolanda e levaram todas as joias. Diziam que eram muitas. O corpo só foi encontrado dias depois, apodrecido, com uma faca cravada no meio do peito.

Não me alegro nem me entristeço com o fim trágico, mas parece que, mesmo sendo tão cruel, ela não merecia um desfecho impiedoso. A história acaba aqui. De verdadeira só teve as personagens, o hipotético jeito de ser da baronesa e o crime. O resto é livre criação deste cronista desesperado – ou quase.

Da minha Cidade Velha trago muitas lembranças, quase todas muito boas, mas o bairro ainda guarda (e protege) algumas possibilidades. Entre elas, a vontade infantil de tomar banho na calha da catedral, de onde despencava uma verdadeira cachoeira de Paulo Affonso. Eu via os meninos se esbaldando ali, na chuva, e uma voz repressora alertava: “não sei como não têm medo de gripe ou de furar o pé num prego”. Por que haveria um prego ali, só esperando a chance de atrapalhar a alegria daqueles pintos-molhados, prontos para entrar na peia, assim que metessem o pé em casa?.

Essa coragem que sempre me faltou, hoje pula feita macaco enjaulado, diante de mim. Melhor dormir de couro quente, como meu pai dizia, e chorar na cama, porque lá, ameaçava minha mãe, era lugar quente, do que morrer na vontade. Espero que o corona vírus não me leve, antes que eu me esbalde na calha da Catedral.

Tô nem aí, se pegar uma gripe ou furar o pé. Como dizia a Lindanor Celina, “agora eu quero é ir para o frevo, me jogar no fogo”. E tomar banho de chuva.

João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Cicero Dias — Composição com Estátua e Monstro, 1928

Crônica

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