As máscaras do triste e desesperançado baile cotidiano

Diário de um desespero – ou quase – XXXVII

João Carlos Pereira

Nunca fui chegado a carnaval. Só tenho memória de uma festa infantil para a qual fui levado por meus primos. Depois disso, nunca mais. Não sei se festa de carnaval ou baile de carnaval são a mesma coisa, mas o certo é que, estando em Veneza, de onde sairia o navio que nos levaria para a Grécia, fomos avisados de que haveria, em pleno julho, um baile de máscaras a bordo. A sugestão dos organizadores era para que os viajantes adquirissem suas máscaras no shopping interno. Além de saber que tudo num navio custa os olhos da cara, se eu tinha Veneza inteira, a um passo dali, iria trocar o melhor comércio de máscaras do mudo por uma comodidade de bordo? Nem doido!

Num quiosque de rua achamos máscaras lindas, por um preço bem razoável. Por lá, essa expressão é mais exceção do que regra. Como a máscara, agora, virou parte integrante do ser humano, que até pouco tempo era formado apenas de cabeça, tronco e membros, me lembrei das lindas venezianas e me admiro que nenhum estilista, nesta terra momesca e estilosa, tenha pensado em criar máscaras pintadas, com plumas e paetês, para dar um tom de alegria ao cenário sombrio. O Remo e o Paysandu já fizeram as suas, usando os gloriosos escudos.

O olhar parece ser a vitrine mais perfeita da alma e seu espelho mais verdadeiro. Penso nele quando lembro novamente de Fernando Pessoa, quando garante que

Deus ao mar os perigos deu,
mas nele que espelhou o céu.

Jamais o mar será verde, se houver nuvens pesadas sobre ele.

Na infância, bastava um olhar de minha mãe para que ouvisse, sem que houvesse necessidade de pronunciar uma palavra, um sermão inteiro. Homens casados passam por idêntica situação com as esposas, que igualmente dispensam qualquer fala, apenas lançando um olhar. O famoso “em casa a gente conversa” vira severa acusação, até que o marido se explique. Quando consegue, claro.

Difícil escapar de um olhar, traga ele a intenção que quiser. Hoje, com a máscara, ninguém se esconde e o que não se vê é o que mais está revelado. Quem desejar se ocultar, melhor não encarar.

Tomara que, quando isso passar, as máscaras sejam somente tristes lembranças de um tempo inimaginável. As minhas, as que colei na face pela vida toda, foram retiradas ao longo da viagem pelos mais sombrios dos meus subterrâneos, sem anestesia, sem piedade, e da qual voltei com a cara limpa.

Máscara, agora, somente as venezianas que, não sei como, sumiram. Tudo some aqui em casa! É uma coisa impressionante….

João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Athos BulcãoSem título, série Carnaval, guache sobre papel, 1963. Acervo particular.

Crônica

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