A difícil decisão de colocar ou não o Círio na rua

Diário de um desespero – ou quase – XXXVI

João Carlos Pereira

Mais um domingo de isolamento. De segunda até sábado, encaro a ordem de ficar em casa como afastamento social. Hoje, a dor é mais forte, porque pesa a falta da comunhão. É o cruel isolamento sacramental. Verdade que a comunhão espiritual também me coloca em união, em comum união, com o Senhor e surge como complemento, mas sinto imensa falta – e como dou valor a isso agora, meu Deus – da chamada comunidade, que é a igreja. Mesmo sabendo que a Igreja parece mais forte e mais unida do que nunca, gosto de ir ao templo, não importa se para assistir à missa ou simplesmente ficar em oração, ouvindo canto gregoriano, na Basílica.

Por conta de uma angústia que começa a crescer no coração da cidade, esta semana muitas pessoas me indagaram se haveria Círio ou estaria cancelado. Também fui questionado se, desde 1793, quando a romaria saiu pela premira vez, aconteceu alguma interrupção. Essa pergunta, por incrível que pareça, é mais fácil que a primeira. Nem febre espanhola, nem surto de varíola, nem cabanagem, nem revolução de 30, nem primeira ou segunda guerras, nem quando a Irmandade brigou com a Igreja e o cortejo saiu sem padres por dois anos, nem o golpe de 64 (esse teve os novos donos do poder, com suas esposas usando véus, dentro da corda, revelando sua fé) , nem a morte de João Paulo I, quando a igreja se cobriu de luto pelo Papa que sorria e dizia que Deus não era pai, era mãe, nunca, até onde sei, o Círio deixou de sair. Se haverá este ano, nem D. Alberto, nem a Diretoria da Festa, nem Papa, ninguém pode garantir. Apenas Deus.

O que se diz, hoje, domingo, 26 de abril de 2020, é que o pico da pandemia, em Manaus, acontecerá em duas semanas. Belém está atrás de Manaus outras duas semanas em relação ao surgimento da doença. Logo, pelos cálculos matemáticos que vejo na televisão, baseados nesse dado e nos índices oficiais, o pico, aqui, só depois de um mês, ou seja, final de maio. Como o pico não é uma reta final e, sim, como o nome sugere, a parte mais alta do gráfico de contágios, casos suspeitos e de mortos, não se pode precisar quanto tempo se manterá num planalto de muitas mortes, até que a linha comece a descer. Quem dera fosse na mesma velocidade de um carrinho de montanha-russa, que sobe lentamente e despenca como um raio. Quem dera….

Com a curva começando a olhar para a terra, depois de quanto tempo ninguém consegue calcular , acontecerá a redução de infectados, de pacientes internados, de gente em estado grave, de óbitos. Se demorou dois, três meses para subir, imagino que levará o mesmo tanto de dias para descer e se estabilizar. Estabilizar não quer dizer acabar, mas, simplesmente, se ajustar à normalidade. Se as contas estiverem certas, se não surgir uma vacina, se um milagre não acontecer, isso não acaba antes de agosto.

Se aparecer um tratamento, se surgirem remédios, se Nossa Senhora interceder com um milagre, ainda assim o vírus restará entre nós. Agosto será época das peregrinações, da preparação das casas, época de receber pessoas, de acompanhar vizinhos e amigos de casa em casa para agradecer, sobretudo. Serão centenas de pequenas romarias pelos quarteirões da cidade, todo santo dia, seguida de roda de orações e de um lanchinho ao final. Em condições normais, é um maravilhoso processo de evangelização doméstica, fruto de uma ideia luminosa do padre Giovanni In Campo. Mas será viável este ano?

D. Alberto, que é prudente e tem fé, não fala em cancelar o Círio. A Diretoria continua trabalhando, cada um de sua casa, para que o Círio saia no segundo domingo de outubro. Mas o corpo a corpo é fundamental, as visitas são decisivas, os encontros com patrocinadores e apoiadores precisam acontecer na base do olho no olho. Os retiros espirituais dos diretores são essenciais, a viagem de quem for bordar o manto para comprar material, em são Paulo, é indispensável. A decoração também obriga o profissional (espero que seja Paulo Morelli e que faça a mais alegre de todas as berlindas da história) a pelo menos uma ida a Holambra. Colocar um Círio na rua não é brincadeira, nem coisa para amadores, sujeita a improvisações.

Quem pensa que fazer Círio é instalar a santinha na berlinda, acionar o eletroímã e deixar o povo agir está, no mínimo, totalmente por fora. A missão de organizar a maior romaria católica do planeta é gigantesca. Os diretores trabalham sem receber um centavo, como se fossem escravos desse compromisso. Para muitos deles não há a folga do depois do expediente, porque as reuniões são constantes. Há alguns que, diariamente, “batem ponto”, num terceiro expediente, na sala da Diretoria, seja perto do Círio, ou não. Quanto mais outubro se avizinha, mais aumenta a carga de trabalho.

Como sei disso? Muito fácil. Acompanho de perto tudo que se faz nesse sentido. Acho que sou o único repórter “setorizado” no assunto. Passo 365 dias por ano tratando do tema. Não sou funcionário da Diretoria, nem a ela pertenço, mas conheço todo esforço que é travado no dia a dia. Sem a Diretoria, é bom que todo mundo saiba, não haveria Círio.

A Igreja se movimenta num único sentido: o da evangelização mariana. Tudo, em Belém, gira em torno do evento religioso. O Dieese fala centenas de milhões de reais, acho até que já ouvi falar em bilhão, injetados na economia local. Com o dinheiro arrecadado de patrocínio e apoios a Paróquia de Nazaré mantém três creches, faz um serviço social fantástico, auxilia a Fundação Nazaré, garante o funcionamento do serviço do altar e sua continuidade em todos os sentidos. Um Círio não é somente o levar e o trazer a imagem. Um Círio é um ano inteiro de evangelização, amor, solidariedade e cuidados. A prestação de contas está disponível para quem quiser ver como é empregado cada real que cai no cofre ou dele sai.

Por agora, a Mendes Publicidade está cuidando da elaboração do cartaz, que será apresentado no final de maio. Da mesma forma como a romaria em honra de Nossa Senhora de Fátima foi suspensa, a apresentação pública do cartaz, com toda a gente na praça, deve estar fora de cogitação. Será o pico do pico da pandemia entre nós. Um salve-se quem puder.

Um panorama favorável, com os governos, a saúde, o MP, todos concordando com a realização do Círio, sem nenhuma restrição, com o risco de contágio estabilizado em zero, ainda assim as aglomerações ainda seriam temerárias. O covid-19 está doido para fazer uma festa do arromba e, com tanta gente para contaminar, nem saberia quem escolher ou por qual pulmão começar. Todo mundo ia entrar na dança.

E o povo que virá do interior, os turistas estrangeiros que chegarão de todo canto? Primeiro: viriam? Segundo: trariam o vírus para continuar a se espalhar por aqui?

A situação é complicadíssima. Por isso a Arquidiocese pede calma, espanta as fakenews e orienta a continuação dos trabalhos, até que chegue o momento adequado e se veja a conveniência ou não de fazer a festa. Como ninguém sequer imagina o que vai acontecer daqui a pouco, o que dizer dentro de um período de 5, 6 meses ?

A história é feita de decisões importantes, sejam elas acertadas, ou não. Cancelar o Círio, adiá-lo para dezembro ou realizar dois, em 2021, mantê-lo, nem que seja com a berlinda instalada sobre um caminhão dos bombeiros, no dia 11 de outubro, passando lentamente, sem povo, não vai mudar a vida de ninguém. Paralelamente a esse problema – que não é pequeno! – há outra bomba nas mãos do Governo: as eleições municipais, programadas para uma semana antes. Eleição num domingo, Círio no outro, é muita gente na rua em tão pouco tempo. E tudo aglomerado, tudo se apertando.

Sei que o Arcebispo é um homem de oração e de ação, nunca de precipitação. Mas ainda é cedo para garantir a realização do Círio. O que eu sei, o que todo mundo sabe, na data de hoje, é que se o Círio e as romarias que o antecedem e se realizam após dele não dominarem as ruas de Belém, ou se for adiado, ninguém vai morrer. Haverá, sim, um grande vazio no coração de todos nós, uma imensa tristeza, uma saudade sem precedentes. Mas se existirem, ainda que pequenos, riscos de contágio, abrindo de pronto uma hipótese inviável, muita gente pode morrer.

A decisão é difícil, mas o que for feito, com certeza, será acertado.

João Carlos Pereira (Belém do Pará, 1959-2020) jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.

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