Para fugir do tédio e já pensando no Círio

Diário de um desespero – ou quase – XXXII

João Carlos Pereira

Ando demais preocupado comigo. O cuidado redobrado com a saúde, a consciência forçada de que não devo colocar o pé para além do jardim, o pânico até para entrar no elevador e descer para a quadra de esportes do prédio, onde, solitariamente, faço caminhada estão me deixando nervoso. Ontem, uma amiga, esquecendo que moro no vigésimo andar, recomendou que usasse as escadas. Para descer, tudo bem. Mas para subir é lenha. No nosso prédio há álcool em gel nas entradas, na garagem e nos elevadores. Só não usa quem não quer. A questão é que estou ficando noiado e, se sobreviver à pandemia, vou chegar de volta ao mundo real cheio de ansiedades e de tocs. E lá vai dinheiro com terapia.

Quando, rarissimamente, tenho necessidade de sair de casa para ir ao banco, que só libera dinheiro com a verificação biométrica, ou ao dentista, porque a praga do dente quebrou e não podia ficar com ele me maltratando, caio num estado de nervos deplorável. Ao banco vou a pé, porque está a cem metros da casa. Mas a tensão é grande, tão grande, que chego a ficar com as mãos suadas. Acho que até que desaprendi a dirigir. Verdade que nunca foi bom motorista e, por causa da falta de prática, acabo de ser rebaixado para a categoria de péssimo.

Para criar uma rotina, inventei de escrever estas crônicas, o que é muito bom. Pelo menos para mim, porque me obrigo a produzir, a manter a cabeça pensando, a ter um compromisso diário com mais de 700 pessoas, via zap, e com não sei quantas, no Face. Nas redes sociais, acompanho muitas sugestões de como passar o tempo. Umas são malucas, outas fazem bom sentido. Escrever crônicas faz sentido.

Das malucas, tipo contar quantos furinhos há no chuveiro, não vou me ocupar. Mas das interessantes, levei em consideração a de observar os rejuntes dos azulejos e vi que os de casa estão precisando de uma boa limpeza. O mesmo serve para a capa das tomadas, interruptores e os azulejos em relevo que formam o roda-meio da cozinha. Comecei a ver defeito em tudo que antes parecia invisível ou dispensava interesse.

Cada vez que lavo as mãos com sabão, ou as encharco de álcool apropriado, tenho a sensação de que estou derrotando colônias e mais colônias de coroa vírus que peguei no simples toque do botão de elevador. A impressão de que derroto o inimigo oculto me deixa melhor. Se duvidar, enxergo legiões de coronas mortos, ou agonizantes, indo pelo ralo da pia. Se isso não é sintoma de loucura, não sei dizer o que é.

Também olho para o lado, o tempo todo, para ver se não há ninguém por perto disposto não a levar meu celular o ou pouco dinheiro que trago na careira. Isso, agora, não tem mais nenhuma importância. A aflição é para que ninguém tussa perto de mim, ou, de leve, toque em minha mão, ainda que por descuido.

Os assuntos que até há pouco me angustiavam, se tornaram tão pueris, que nem sei se vale a pena falar neles. Em fevereiro, comecei a planejar nossa viagem a Portugal. Desta vez iríamos esticar até Paris, ou a Barcelona, e nossos olhos não saiam do sobe e desce do euro e do valor da passagem. Agora, ainda que eu tivesse (mas, infelizmente, não tenho) uma montanha de euros e passagem em primeira classe, não arredaria o pé de casa. Logo, as referências perderam sentido e ninguém fala mais em dólar, euro e passagem. Exceto quem foi mais previdente do que eu e as adquiriu ano passado. O preço da gasolina também era um problema, mas o que eu tenho com isso, agora, quando meu carro cria raízes na garagem? Anteontem, soube que, num posto perto de casa, o litro estava sendo vendido a menos de quatro reais. Qualquer hora dessas começarão a dar gasolina. Será que não é hora de sair de casa só para encher o tanque?

No prédio ao lado do nosso, um vizinhozinho muito simpático arrumou um jeito de embelezar sua sacada e, com certeza, de passar o tempo. Da janela da cozinha acompanhávamos o rapaz no trabalho de raspar a tinta antiga, emassar a parede, num procedimento que os profissionais da área chamam de aparelhar. Depois, com um rolo, dividiu o panorama cromático, sem alterar a identidade externa. Trabalhava de sol a sol e, enquanto esperava a massa secar, limpava as esquadrias de alumínio e organizava o ambiente. Ontem, ele concluiu a parte da jardinagem e, em seguida, armou uma linda rede branca, na qual descansou. De casa, aplaudimos o encerramento da missão e jogamos beijo para ele. A solidão torna íntimas pessoas que não se conhecem.

Depois de quase vinte anos morando no mesmo lugar, entrei, pela primeira vez, na quadra de esportes, onde passei a fazer caminhadas diárias. À piscina fui apresentado há poucos meses, para fazer hidroginástica. Agora, contra toda a minha vontade, digo, como Fernando Pessoa, vou cumprir o meu destino. Ou me exercito, ou morro. Prefiro, contra minha vontade, seguir o meu destino sobre a Terra, à espera do fim da pandemia.

Não quero parecer alarmista, nem deveria, mas o cerco está se fechando. Até pouco tempo, não conhecia ninguém que sequer tivesse sido contaminado. Agora, tenho notícias de pessoas próximas que adoeceram. Felizmente, ainda estou naquela parte das histórias de visagem que só apareceram para o amigo de um amigo. Os mortos são pessoas que trabalhavam ou conviviam com gente que conheço vagamente. Ainda existem como abstrações, tristes referências de nomes generalizados na oração. Difícil vai ser quando tiver que nominar os meus mortos.

“Gripezinha” não mata ninguém. Mas a pandemia não é “gripezinha”. Esse vírus tem parte com o capeta, só pode, porque se instala no pulmão do vivente e devasta tudo pior que cupim em madeira ou livro. Uma vez, deu cupim na minha biblioteca e os bichos devoraram um “Aurélio” inteiro, deixando, o que restou muito parecido com o a parte interna do Coliseu. Acho que o pulmão infectado fica assim, porque a pessoa morre muito depressa, da pior forma possível.

O doido de lá já avisou que, se tudo melhorar, vai liberar a vida aos poucos, em intervalos de quinze dias para cada grupo e dividiu a responsabilidade com os Governadores, que não dão muita bola para ele e seu cabelo cor de palha de milho. O doido daqui todo dia diz uma coisa diferente, mas a preocupação com a economia não pode ser ignorada. Como começou a arrumar encrenca do Deus-e-todo-mundo, começou a agir como um monge trapista.

Nessa ordem sagrada, os religiosos, pensando no trabalho que pouparão aos seus companheiros, todos os dias tiram uma pá de terra da cova na qual, futuramente, serão sepultados. Ele cava não uma pá, mas várias, de sua própria sepultura. Bem diferente dos monges, que fazem voto de silêncio, fala pelos cotovelos e, quando abre a boca, se atrapalha todo. Fala hoje para se desdizer amanhã.

Como diz o povo paraense, quando olha para a imagem da santinha em sua berlinda, só posso pedir a quem tem mais poder do qualquer um neste planeta teimoso: valei-me, minha Nossa Senhora de Nazaré que, por sinal, aparece toda formosa, lindona, atrás do secretário Beltrame, em toda entrevista que concede para a televisão. A mensagem da fé, de confiança na Virgem Maria é explícita. Eu fico todo metido, porque posso dizer: é a minha Mãe na TV.

Ele pegou o vírus, mas, felizmente, está em forma. O Hélder, que é igualmente devoto, também. Para quem tem Nossa Senhora como madrinha, não há covid que resista. Mas com o próprio Filho dEla ensinou, mandando cada um fazer a sua parte que Deus ajuda naquilo que faltar, o certo é cuidarmos da nossa parte, ficando em casa, saindo o mínimo possível e observando as regras da higiene.

Não sei se haverá Círio este ano e isso, sinceramente, não me preocupa. Se a romaria não acontecer, ninguém vai morrer e Nossa Senhora vai entender direitinho, mas, se sair, com a pandemia não totalmente controlada, capaz de muita gente morrer.

Havendo Círio, com ou sem corda, com a Santa no chão em cima de uma carro dos bombeiros, o que vai ter de gente agradecendo por ter escapado do corona vírus não vai ser brincadeira.

O trabalho do Roberto Sena, para garantir que contou, via Dieese, mais de 2,5 milhões (ou mais) de pessoas, vai ser moleza.

Belém, 22 de abril de 2020


P.S. 1. O bom de publicar na internet é que é possível fazer correções quase imediatamente. Ontem, por exemplo, errei duas vezes. A primeira foi com o nome da 22, hoje Alcindo Cacela, que imaginei chamar-se 22 de Fevereiro. O certo, corrigiu-me o amigo José Maria Toscano, é 22 de Junho.

P.S. 2. Errei novamente, ao garantir que o único livro sobre ruas de Belém era de autoria de Ernesto Cruz. Há outro, me informou o amigo Luiz Guilherme Pereira, escrito por José Valente. Esse não conheço, embora saiba quem é o autor.

Dia, quase esquecido, do descobrimento – ou do achamento, como preferirem – do Brasil.

João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Ismael Nery (1900-1934) — Resignação diante do irreparável, s/d.

Crônica

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