Glória a São Jorge e um poema de Bruno de Menezes

Diário de um desespero – ou quase – XXXIII

João Carlos Pereira

23 DE ABRIL sempre foi um dia especial para mim. Na data consagrada ao poderoso e glorioso São Jorge, o grande Ogum na linha dos Orixás, e sincretizado como Oxossi, na Bahia, como diria o Manuel Bandeira, justamente por ser bandeira, embandeiro eu minha alma inteira. E não apenas faço festa em mim, mas compartilho da devoção, especialmente de quem mora no bairro da Marambaia, onde foi erguida uma linda igreja em homenagem ao santo, no coração da avenida Dalva.

Todos os anos, há muitos anos, visito o templo no dia 23. Procuro chegar numa hora relativamente calma, me ajoelho e rezo um terço para agradecer pela vida, pela manutenção da minha fé católica e, em especial, por uma graça que contarei mais adiante. A Marambaia faz grande festa para São Jorge e a paróquia se veste de vermelho, a cor dos bancos, para reverenciá-lo. Há uma procissão e parece vir gente de todos os lugares do bairro para agradecer favores ou pedir graças ao santo que, segundo a tradição, nasceu no século terceiro e morreu justamente num 23 de abril de 303. Hoje, porém, será dia de preces silenciosas.

Jorge nasceu na região da Capadócia, onde hoje é a Turquia, no seio de uma família muito cristã. Fez carreia meteórica no exército, chegando a Tribuno Militar e, depois, a Conde da sua cidade. Quando a mãe morreu, deixou uma herança enorme, que ele fez distribuir entre os pobres. O imperador Diocleciano mandou prender todos os soldados cristãos e Jorge foi no meio. Temendo perder um de seus melhores tribunos, ofereceu mundos e fundos ao militar, a fim que negasse o Cristo. Depois de muita e inútil tortura, ele foi degolado.

Diz a lenda que a sombra de Jorge levantou-se da poça de sangue e recolocou a cabeça sobre o pescoço, para mostrar que quem andava ali era Jesus e não o bestalhão do Diocleciano. Com a mensagem dada, o guerreiro pode, enfim, morrer em paz. Essa a história misturada com a lenda, que a igreja católica não faz muita questão de contar, por considerá-la sem fundamentos suficientes, mas o povo nunca ligou para isso e cada vez mais ama o santo. Ele é cultuado em diversos países, tanto no catolicismo, quanto na igreja Ortodoxa, quanto na Anglicana. Apenas Nossa Senhora ganha dele, porque é reconhecida e louvada até no islamismo.

A história do dragão aparece com a lenda de um recém-nascido chamado Jorge, que veio ao mundo com três marcas: um dragão em seu peito, uma jarreteira em volta de uma das pernas e uma cruz vermelho-sangue em seu braço. Adulto, lutou contra os sarracenos e, depois de viajar durante muitos meses por terra e mar, acabou em Sylén, uma cidade da Líbia. Foi lá que encontrou um eremita, que lhe falou do terrível dragão, cujo hálito venenoso matava qualquer um. Nem o corona vírus daria conta da criatura. O couro do bicho era impenetrável e todo dia se alimentava de uma virgem. O estoque de donzelas estava no final e a última disponível era a filha do rei, chamada Sabra. Se ela não aparecesse, não haveria máscara que detivesse o hálito mortal da fera, que tinha o diabo no corpo, só podia. A menina, de 14 anos, já estava pronta para o sacrifício, quando Jorge apareceu como herói e salvador da pátria.

Depois de passar a noite em oração, com o eremita, foi enfrentar a peste. O rei do Marrocos não queria que sua filha casasse com um cristão, mas entre vê-la morta ou casada, optou pelo menos pior. Na primeira versão da história, o rei, um exemplo de ingratidão, depois de reencontrar a filha sã e salva, ordenou que o guerreiro fosse para a Pérsia e mandou matá-lo. Para quem derrotou um dragão, escapar dos guardinhas do rei era brincadeira. Ele voltou, levou a esposa para a Inglaterra e viveram felizes para sempre. Daí talvez a origem do amor dos britânicos por seu padroeiro.

Na segunda versão, Jorge aparece enfrentando o dragão e leva uma baforada tão forte, que é projetado para trás de um pé de laranjeira, que o protege do hálito mortal. Por um minuto me passou pela cabeça se a laranjeira não possui poderes curativos para todos os males da humanidade, porque planta que resiste a bafo de dragão, deve matar verme, micróbio, vírus, curar câncer e tudo mais. Recuperado, volta à cena e dá uma palanquetada tão forte com sua espada Ascalon na cabeça do mostro que, enfurecido, solta outra baforada. Dessa vez foi tão forte, tão forte, que a armadura se partiu em duas partes. Num lance de muita perspicácia, conseguiu perceber que as asas do dragão não eram protegidas por escamas, como o restante do corpo, e aquele seria o calcanhar de Aquiles. Em vez de insistir em furá-lo onde era impossível, enfiou a espada no lugar certo e jorrou sangue para todo lado. Era o começo do fim do perigo.

Como grande herói que era, amarrou uma corda ao pescoço do inimigo e o foi arrastando até a cidade. A linda princesa, vestida de noiva, pois casaria com a morte anunciada, o acompanhava. Nem a Disney, em seus momentos mais inspirados, construiria uma cena semelhante para a primeira entre as belas e doces princesinhas. No meio da praça principal, diante do povo ainda assustado, porque, não esqueçam, o dragão feroz estava apenas ferido, mas não morto, Jorge desferiu um violentíssimo e certeiro golpe mortal, que a cabeça rolou para muito longe. Nesse mesmo minuto, a cidade inteira – in-tei-ra, como diria a Danuza Leão – se converteu ao cristianismo, porque Jorge, como sabeis, era cristão.

Bastaria essa história, com suas duas versões, da qual a segunda me agrada mais, porque está plena de todos os ingredientes românticos que fazem bem ao meu espírito sonhador, para me tornar fã, cativo, fiel e devoto de São Jorge. Mas foi um fato que se deu comigo, em Belém do Pará, em janeiro de 1985, quando se comemorava o sesquicentenário da Cabanagem, que me aproximou definitivamente de seu coração valente e amoroso.

A Secretaria de Cultura do Pará, então dirigida por Acyr Castro, quis celebrar a data histórica, bancando a encenação de uma peça do meu querido amigo Edyr Augusto Proença, no Theatro da Paz, cujo nome, à época, ainda não continha a letra h, era Teatro mesmo, sem esse charme adicional. Nesse tempo, eu trabalhava na Secretaria, graças a um pedido da professora Lana, primeira-amiga do Secretário, a quem eu auxiliava, com enorme prazer, sem nenhuma remuneração, na Universidade Federal do Pará, fazendo as vezes de seu substituto, nas aulas que começavam às 8 da manhã. De monitor de Literatura Paraense, ela me promoveu a quase-substituto. Sempre tem um quase nas minhas histórias.

O mesmo eu fazia para minha amada amiga e professora Nélia Felippe, no lugar de quem dava aula de Literatura Portuguesa, quando, por motivo de saúde, ela precisava ficar algum tempo afastada. Eu ia do Pará, de manhã, a Portugal, à noite, sem depender da TAP ou de passaporte. Meu veículo, naquele tempo, eram os ônibus da linha “Universidade Ver-o-Peso” ou “Universidade-Presidente Vargas”. O que passasse primeiro, eu pegava e me achava o máximo, bancando professor, quando não passava de simples aluno, que adorava o que fazia. Peguei tanta experiência que, quando abriu concurso na Universidade, fui aprovado em primeiro lugar. Sou muito grato às duas.

Na Secretaria, eu era lotado no setor de Cultura, mas passava mais tempo na Comunicação, ajudando na difusão cultural, setor que me cabia comandar. Eu era dois pelo preço de um. Dias antes da peça estrear, o secretário me entregou um maço de convites para um público vip, tipo Benedito Nunes, Albeniza Chaves, Célia Bassalo, entre outros de naipe parecido, para que os levasse em mãos. Era a certeza de que haviam recebido e de que iriam prestigiar a estreia mundial. Muita responsabilidade para um rapaz que, na época, ainda tinha a cabeça na lua. Só depois vim descobrir que era na lua de São Jorge, porque até hoje o identifico por lá, nas noites em que ela está desfilando sua beleza plena nos céus de Belém.

Peguei os convites, os ajeitei entre meu material e voltei para casa a pé. Eu adorava caminhar pela cidade e não via distâncias ou tinha receio de assalto. Nesse dia, achei de parar em uma banca de revistas, a uma quadra de casa. Encostei os papeis sobre a prateleira de baixo, comprei o Jornal do Brasil, peguei as tralhas e fui almoçar. Duas horas depois deveria estar no jornal.

Trabalhei normalmente, como se nada tivesse acontecido. Pelas seis da tarde, me deu um estalo: “cadê os convites”? Aquela estreia seria uma coisa de cinema. Até o governador Jáder Barbalho havia confirmado presença. E aonde ia o governador, se arrastavam o secretariado, os deputados, os senadores, o Bispo, o Pastor, todo mudo de peso. Os convites estavam sendo disputados a tapa. Câmbio negro não existia. Iria quem tivesse prestígio. O resto, ouviria a voz rouca do Ibrahim Sued, dizendo: “sorry, periferia”. E eu, com uma ruma de convites na mão, achei de perdê-los. Todos. Todinhos.

Antes de terminar o expediente, pedi licença no jornal e dei um pulo na secretaria. Meu medo de não encontrar lá os convites que eu não achava em canto nenhum só era maior do que ver a alma do doutor Francisco Bolonha que, diziam, vagava pelo palacete construído para o amor de sua vida. Era tanta história que, se eu parar para contar, não vou terminar é nunca. Mas o mínimo que diziam é que ele vagava sem a perna amputada, ou se embalado numa rede. Caso topasse com o antigo dono da casa, transformada em secretaria de Cultua, Desportos e Turismo, mas encontrasse os convites, seria capaz até de cumprimentá-lo para, em seguida, descer aquelas intermináveis escadas de um pulo só.

Os convites não estavam lá e, pelo visto, o dr. Bolonha, que era amigo do meu avô, em atenção a ele, com certeza, me poupou do susto. Agoniado, quando coloquei os pés na rua, ouvi uma voz sussurrando ao meu ouvido: “Não te preocupa, João. São Jorge vai resolver isso para ti”. Como num passe de mágica, a agonia passou e um estranho esquecimento caiu sobre minha cabeça. Voltei para o jornal, fui para casa e não lembrei mais do assunto.

No dia seguinte, cheguei cedo à Secretaria, antes de todo mundo, e, sinceramente, não me recordava dos convites, até que o telefone tocou. Era uma pessoa, que trabalhava na galeria Theodoro Braga, perguntando se alguém ali, do nosso setor, havia perdido uns convites para a estreia da “Cabanagem”. Gaguejando, já com um frio descendo pela espinha, respondi que sim, que eu os havia perdido. Do outro lado, a pessoa disse apenas: “um amigo de um amigo meu encontrou, numa banca de revista, e sabendo que esse amigo me conhecia, mandou me entregar. Eles estão aqui. Podes apanhar?” Para ele, parecia a coisa mais normal do mundo. Para mim, era um milagre de São Jorge. Milagre anunciado desde a véspera, que concretizava.

Se eu podia? Fui num pé e voltei noutro, trazendo os convites intactos, não faltava nenhum, atados ao meu peito, como se fossem – e eram – uma preciosidade. Nunca ninguém soube dessa história, que deu origem ao desmesurado, ao desbragado amor que tenho por São Jorge. Com maior cuidado deste mundo, entreguei um por um e me tornei devotíssimo do santo. Por isso, todos os anos, vou à igreja dele agradecer por tudo de bom que me acontece entre um ano e outro e pedir mais proteção. Isso já faz 35 anos.

Quando eu estava no jornal e organizava uma coluna chamada “Janela da Poesia”, sobre a qual, qualquer dia desses, escreverei, publicava dois poemas que possuíam espaço cativo. Um, era o “Poema de Finados”, de Manuel Bandeira, que começa assim: “Amanhã, que é dia dos mortos, vai ao cemitério, vai, e procura entre as sepulturas, a sepultura do meu pai”. Esse saía no dia 1º de novembro, porque o “amanhã” era dia de finados. Nunca os herdeiros do poeta acionaram o jornal, pedindo direitos autorais. Graças a Deus! Porque, se isso acontecesse, o redator-chefe, o temido Claudio Sá Leal, mandaria debitar do meu salário.

O outro era a “Louvação ao cavaleiro Jorge”, de Bruno de Menezes, cuja família jamais pediria um centavo pelos direitos de publicação. Ao contrário. Ficava imensamente feliz pela homenagem. Era a minha forma de agradecer, mais uma vez, publicamente, a São Jorge, pela grande ajuda, colocando no jornal um belíssimo texto em sua honra.

Como a coluna deixou de existir, me valho deste espaço para, mais uma vez louvar, bendizer e agradecer ao santo corajoso, que me ajudou numa hora de grande aflição. Naquela e em outras.

Salve, São Jorge!!! Salve!!!!

E obrigado, mais uma vez, meu santo, por ter me safado de uma demissão sumária, a bem dizer por justa, justíssima causa, logo no começo da minha vida profissional.


LOUVAÇÃO AO CAVALEIRO JORGE

Bruno de Menezes

“São Jorge foi príncipe da Capadócia. No ano 303, tempo de Deocleciano, morreu martirizado. A igreja católica festeja-o no dia 23 de abril. Na corrente dos xangôs é o grande Ogum, também invocado como o Cavaleiro Jorge, havendo muitos dos seus devotos, que o louvam, rezando ladainhas, com cânticos sacros e música de atabaques. Este poema tem sido cantado por ocasião dessas celebrações em muitas ladainhas.”

LOUVAÇÃO

Cavaleiro Jorge
que mártir morreu
tem lança e espada
com que combateu

CANTO

Guerreiro valente
montou seu cavalo
matou o dragão
fez dele vassalo

Meu príncipe lindo
defensor da fé
em frente da morte
ficaste de pé.

O Gênio do Mal
só tu dominaste
porque meu São Jorge
com crença lutaste.

O teu capacete
de prata lavrada
a tua couraça
é arma sagrada.

Levando no peito
a lança a luzir
meu corpo é fechado
quem vem me ferir?

Teu nome na boca
rezando contigo
não temo São Jorge
vencer-me o inimigo.

BENÇÃO

Meu São Jorge milagroso
grande Santo protetor
que lutaste com o tinhoso
pela graça do Senhor.

No seu cavalo valente
Levando a lança na mão
São Jorge foi num repente
que dominou o dragão.

São Jorge sendo um soldado
lutou em favor da cruz
pelo sangue derramado
do nosso pai que é Jesus.

São Jorge hoje está no céu
tem na lua seu altar
coberto com branco véu
quando é noite de luar.

São Jorge nos dê seu manto
nos olhe por vosso bem
São Jorge querido Santo
para sempre e sempre
Amém!

(Poema gentilmente enviado por Carolina Menezes Brito Reis, bisneta do poeta)

João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Rubens — Luta de São Jorge e o dragão, 1605 — Museo Nacional del Prado

Crônica

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