O dia depois do coronavírus, no quartel de Abrantes

Diário de um desespero – ou quase – XVII

João Carlos Pereira

Ao que tudo indica, o fim da pandemia ainda nem é algo parecido com uma luz no fim do túnel. Está tão escuro, que nem se consegue saber a direção do túnel. Em algum momento, porém, ela vai acabar. Por isso estou pensando na maneira como o encerramento da agonia será proclamado ao mundo e por quem. Meu voto é para o Papa Francisco, que outra coisa não fez na vida a não ser divulgar, na prática, a Boa Nova. Literalmente.

Acredito que cada nação criará seu marketing próprio e convocará um salvador da pátria. O que se disser para um grande país, valerá para qualquer capital ou município miudinho, onde haja – porque sempre há – um chefe de qualquer coisa. Nem que seja o chefe da quitanda. Alguém levantará a taça da vitória sobre o vírus, ainda que o pódio tenha sido construído sobre uma pilha de túmulos.

O porta-voz da saúde restabelecida deverá ser alguém de muita credibilidade, que entrará, ao vivo, em cadeia mundial, com tradução simultânea para vários idiomas, inclusive em libras e, lado a lado, os líderes mundiais cantarão vitória. Até os que, com sua burrice, atrapalharam mais do que ajudaram. Logo depois, como se cada nação tivesse ganhado a final da copa contra o coronavírus, haverá explosão de fogos, buzinaço, gente nas ruas se abraçando, igrejas lotadas, procissões, praças tomadas pelo povo, campeonatos de várias modalidades com quadras e estádios apinhados, festa a perder de vista e coberturas especiais na imprensa. A Torre Eiffel vai piscar alucinadamente à noite toda e sirenes tocarão nos quatro lados do planeta. Pensa numa zorra.

No Brasil, onde o pessoal só quer um pé para se divertir, a comemoração será mais longa do que casamento em Portugal, sobretudo nas cidades menores, onde os comes e bebes duram três dias.

Até já vejo as avenidas Paulista e Atlântica em euforia. A Esplanada dos Ministérios, em Brasília, as orlas de mar e de rio, as beiras-de-vala e canais tomadas de empolgação. A cachaça comendo solta. Rolê para tudo que é lado. Nas lajes, nas quadras, por todo canto uma haverá uma “mundiça”, como se diz no Recife, mais feliz do que num carnaval inteiro. Escola de samba, bloco de rua, bloquinho de bairro, cordão de pássaro, de boi, o Galo da Madrugada, o Homem da Meia-Noite, as Filhas da Chiquita, os Pretinhos do Mangue, em Curuçá, vão se esbaldar na brincadeira. A turma que tem fé e que reza vai fazer novena, trezena, quinzena, missa, culto, pregação, procissão, marcha e todo gesto que puder subir aos céus para se apresentar aos olhos de Deus como forma de gratidão. Nesse dia, para dar uma trégua, Ele não deixará ninguém morrer (da covid 19, nem pensar) e não acontecerão velórios ou enterros. Lágrimas, só de alegria.

Como todo mundo estará (estará? Está há muito…) farto de ficar em casa, os governos nem se atreverão a pedir volta imediata ao trabalho, porque o povo vai querer é transgredir e ganhar rua. No mínimo, um dia inteiro de celebração. Os países que gostam de exibir poderio militar, paradas com tanques e exércitos – todos inúteis na hora em que mais precisávamos bombardear o vírus – devem ter programação prontinha. Nos festeiros e felizes por natureza, ninguém precisará preparar nada, porque as populações se encarregarão da folia .

Em Belém – até parece que estou vendo – a Doca ficará lotada, repleta de carros de som, com políticos e artistas se alternando, fazendo discursos, jogando para a galera. A Aldeia Cabana será pequena para tanta aglomeração. As praças verão seus gramados arrasados e perto do Theatro da Paz haverá manifestações contra o Governo (seja ele qual for), porque essas coisas não podem faltar ali. Na Cidade Velha, os blocos improvisados vão desfilar e o amigo Eloy Iglesias comandará a fuzarca, usando uma peruca cor-de-rosa, na forma do coronavírus, para debochar do vilão do século (por enquanto, né?), no melhor estilo Eloy Iglesias.

Ninguém duvide de que haverá logo um Círio fora de época, com a imagem original de Nossa Senhora de Nazaré e Varanda da Fafá repleta de muita emoção; um Re x Pa de portões abertos, no Mangueirão, shows gratuitos com paraenses famosos e os quase famosos, festival de tudo que há bom por aqui, tipo pirarucu, gurijuba, açaí, camarão, caranguejo, maniçoba e, se alguém souber onde ocorrerá um de tartaruga, peço que me diga. No privado, ok?

O querido Pinduca emplacará um sucesso maior do que o “alô, alô, papai; alô, mamãe’, que pode ser o “Carimbó do coroana vencido”. E ninguém duvide que surgirá o Hino da Vitória contra o covid 19, escrito e musicado, ato contínuo, pelo hinista Vicente Fonseca, que não deixa escapar nada.

Haverá igualmente muitos bailes à base de funck e de variados ritmos, além de resenhas, onde mulher não pagará até 23 horas, com balde de cerveja a R$ 5,00. Os shoppings farão promoções escandalosas (e toda a gente correrá para aproveitar, sem reparar na etiqueta), com preços anteriores à pandemia, e as agências anunciarão pacotes internacionais, cotando o dólar ao preço de dezembro. As companhias aéreas persistirão na prática de cobrar o que lhes dá na cabeça e de tratar mal o cliente, sobretudo as que levam para o outro lado do mar.

Tudo voltará a ser como antes, assim que a poeira da doença baixar e as celebrações terminarem. Ninguém terá uma gota de saudade desses dias terríveis, eu imagino, mas a vida continuará sua rotina de monotonia, bem à moda retrô, para honrar o ditado:

Tudo como dantes, no quartel de Abrantes.

Não cultivo esperança de que muita coisa mudará radicalmente e, para ser bastante sincero, às vezes tenho a impressão de que isso não passará nunca, mas ninguém repare, por favor. Há momentos em que me bate uma desesperança tremenda. As lições do confinamento não podem ser esquecidas ou desprezadas. Está sendo tudo dolorido demais para se transformar em fuligem.

Duas coisas aprendi de muito verdadeiras, nos anos em que mergulhei para dentro de mim mesmo, em busca de luz, pelos caminhos mais tortuosos e sombrios que um ser humano pode ter, debaixo de seu jardim. A primeira foi que o mundo não é quintal da minha casa, o que equivale dizer que o que gira em torno do Sol é a Terra e não o Sol gravita em volta de João Carlos Pereira. Logo, aprendi a ter vergonha na cara e jogar a vaidade na lixeira. Depois do corona, minha senhora, quem não aprender que, como disse o Fernando Pessoa, o ser humano não passa de cadáver adiado que procria, não entenderá mais nada. É melhor pedir a conta.

A segunda é que ninguém muda, apenas porque cansou de ser elegante. Para haver uma alteração verdadeira de rota são necessárias umas das três coisas – ou as três, de uma vez só, se o universo estiver fazendo aquela famosa “conspiração”: um grande risco de vida, uma paixão doida e/ou uma vontade de sair da zona de conforto para entrar de cabeça na vida. O risco de morrer eu vi de perto. A grande paixão existiu, mas pela verdade e por mim. E o desejo de ser eu mesmo comandou tudo.

Não vivi um isolamento social como o de agora, mas me distanciei do mundo irreal, dos cenários, aparências e alienações. Quem me via por aí, flauteando, “passarinhando”, nem podia imaginar o vulcão que estourava aqui dentro.

O bom da história é que as camadas foram se acomodando e, agora, encaro esse afastamento do mundo sem histeria, embora, de vez em quando, olhe para o abismo e me sinta amedrontado. A beira do precipício foi feita para todos, não apenas para quem não teme encarar o vazio.

Ruim é que estamos começando a nos habituar a esse tipo de situação. Isso é muito ruim.

João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Retrato – Djanira, 1954

Crônica

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