As lições (não aprendidas) do BBB e o tempo presente

Diário de um desespero – ou quase – V

João Carlos Pereira

Foi preciso aparecer um coronavírus do tamanho do mundo para o BBB deixar de ser o assunto mais importante no Brasil. Em casa, pelo menos, nesta altura do campeonato, em condições normais de temperatura, pressão e saúde, as filhas não falavam de outra coisa. Acho que até em Paris era o assunto dominante. Se fosse apenas aqui, eu daria um jeito e resolveria o problema. A questão é que todo mundo vê o programa. Mesmo quem diz que não vê, vê. Tenho um amigo que mora na Espanha e assinou um canal onde o reality passa 24 horas por dia. Não sei por quantas ele se prostra diante da TV, mas devem ser muitas. Algo além da razão. Isso explica o fato de estar no ar há vinte anos e a fórmula não cansar.

Nunca assisti a nenhuma edição do BBB, porque não gosto do tipo de formato e da proposta. Também não curto programas de entrevista, nem de auditório, nem de música, nem de variedades, nem de nada. De vez em quando me tomo de amores por uma novela e sou doido por jornalismo. Por isso assisto aos telejornais locais, sobretudo os apresentados pelos meus amigos, a Globo News e o canal Viva. Mas uma coisa preciso reconhecer, com imensa humildade: se não fosse uma criatura tão chata, tão intransigente, tão ranheta, teria cedido um pouquinho e dado um pouco de atenção a uma das versões do Big Brother, nem que fosse do meio para fim. O problema é que não sou adivinho e jamais poderia supor o quão didático o programa deve ser e o quanto teria me ensinado a conviver com pessoas em regime de confinamento.

Minha casa, dizem as filhas, está o próprio BBB. Todo dia, para espantar o tédio, elas perguntam quem vai para o paredão. A resposta vem em coro: ele! Como entre nós só há um ele, e esse ele se chama João Carlos Pereira, não resta dúvida. Ainda que o nosso paredão seja simbólico e nada tenha a ver com os históricos “perdóns”, diante do qual os inimigos da pátria são legalmente fuzilados, não é confortável ser mandado para lá.

Elas me jogam no paredão porque ando nervoso, estressado, reclamando da situação de ter de ficar dentro de casa. O argumento de minhas fiscais é quase incontestável: tenho mais de 60 e sou cardiopata. Isso significa pertencer a dois grupos de risco ao mesmo tempo. Quiseram me empurrar em mais duas categorias – a dos diabéticos e dos hipertensos – mas isso não colou. Graças a Deus acabei de fazer uma bateria de exames e estou abaixo da linha, bem abaixo, dessas mazelas. Se eu não reagir com firmeza, elas são capazes de criar um grupo de risco para acomodar os aposentados e grisalhos, o que me tornaria vulnerável e incapaz. Não sei com escapei de uma curatela.

Se tivesse visto algum BBB, saberia como se age numa casa onde todos têm o mesmo objetivo e ficam se estranhando a cada hora. Como entre nós não há grana em jogo, aumenta o laço de amor que transforma qualquer estratégia em solidariedade e, quando a coisa aperta, como agora, quando todo mundo está com os nervos à flor da pele, aí que o laço aperta mesmo e a família inteira ganha imunidade. Menos para o tal do vírus, infelizmente.

Aqui todos nos concedemos imunidade e a vida tem de seguir de algum jeito. Cada um arruma seu quarto, lava seu banheiro, todos ajeitam a sala e cuidam da roupa, eu rego as plantas e cuido da comida. Se formos descontar as embromações, em uma hora, hora e meia, está tudo liquidado. Aí restam mais doze, pelo menos, para tentar espantar a rotina e o tédio.

Ir à janela não adianta, porque o cenário é de uma monotonia sem precedentes. Ninguém surge na rua, poucos carros e nem os bichos que circulam pelas alamedas do Museu dão as caras. Da janela eu vejo o rio Guamá que, de longe, parece doce e macio. De perto, tem a fúria de um demônio acorrentado. Eu prefiro imaginar que ele é como o observo e não ousaria enfrentá-lo por nada. Digo isso porque, uma vez, ele quase me tragou. Desde então, malmente nos cumprimentamos. Mas é bobagem minha. O rio não tem culpa de ser como é. O imprudente fui eu.

Como não criamos esquemas e ninguém está desejando ganhar coisa nenhuma, exceto a liberdade para poder sair, e tampouco há um milhão e meio na parada, até que, em família, estamos negociando bem essa etapa de nossas vidas. Sinceramente, ainda não tentamos nos matar e não passamos (nem passaremos, Deus há de ajudar) para a fase da agressão.

O BBB, com suas artimanhas, estratégias, jogadas calculadas, erros e acertos parece que tem prazo para acabar. Esse recolhimento obrigatório, não.

Belém do Pará, 25 de março de 2020.

João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
Facebook
| Blog

Imagem: Olhos – Oswaldo Goeldi, s/d.

Crônica

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: