O amor segundo Lindanor Celina e Serge Casha (I)

Diário de um desespero – ou quase – XXIV

João Carlos Pereira

De tanto ouvir e ler histórias, passei a contá-las profissionalmente. Como não gosto de histórias compridas, intermináveis, não escrevi romances. Mais perto que cheguei foram duas novelas, não para televisão ou para o rádio, veículo que aposentou o gênero. As últimas que ouvi, nos anos 70, saiam dos estúdios da PRC-5 e eram gravadas direto, à noite, com sonoplasta, contrarregra e tudo. Me lembro bem de uma e somente do nome – “Eleonora, a mulher predestinada” – porque a história esqueci completamente.

Há algum tempo, fiz alguns contos, todos ambientados em Paris. Como ia parecer esnobação em excesso, guardei-os. Não faltaria quem dissesse que os fatos poderiam ter sido ambientados no Telégrafo, no Jurunas, na Cremação, no diabo-que-o-carregue, mas o metido, no caso, eu, tinha que colocar Paris como cenário. Se da vida, agora, quero apenas sossego e estou dispensando polêmica, deixei-os no HD externo, maturando, à espera de bom tempo.

Minha predileção, todo mundo sabe, é a crônica, espaço onde me sinto totalmente à vontade. Conheço seus segredos e, como quase sempre, o narrador é a personagem e o fato, ainda que exterior, passa primeiro pelo meu crivo interno, pela minha forma de ver o mundo e de contá-lo, acionar seus mecanismos virou um grande prazer. Assim, como um cigano, armo minha tenda e desmonto-a todo dia, com a missão completa. Um romancista, um novelista e, eventualmente, um contista não podem fazer isso. O cronista pode.

Das histórias que gosto de contar, e sobre as quais pouco escrevo, as que falam de romances com final feliz acabaram virando raridade. Talvez por ser algo em extinção, quase privativo das telenovelas ou de filmes açucarados, o célebre “e viveram felizes para sempre” se tornou algo muito parecido com “o coelhinho da Páscoa deixou isso para você, lá em casa”. Mas existem exceções, lindas exceções, como o derradeiro amor de Lindanor Celina. Para quem não a conhece, vou apresentá-la.

Ela se chamava Lindanor Coelho. Nasceu no interior de Castanhal, mas transferiu sua naturalidade para Bragança, que até hoje se orgulha de uma de suas “filhas” mais famosas. Passou a infância por lá e veio estudar no colégio Santo Antônio, em Belém, cidade onde casou e passou a ser Lindanor Coelho de Miranda. Teve três filhos e sempre foi uma criatura a anos-luz de seu tempo. Cronista e romancista – das melhores que o Pará já conheceu – a paraense com alma francesa trabalhou na Justiça do Trabalho, cursou Letras e foi ser professora na Universidade. Aluna (depois, professora) da Aliança Francesa, começou a viajar para Paris, onde fazia cursos. Um dia – me lembro bem deste gesto: ela riscava com a ponta da unha, sempre pintada vermelha, uma linha no começo da testa para indicar que havia chegado ao limite – “por aqui” com a vida que levava, arrumou as malas e foi fazer doutorado em Paris. Lá alguma coisa haveria de acontecer, porque estar em Paris e não acontecer nada não é possível.

Há um ditado, provavelmente francês, com o qual concordo totalmente, que ensina o seguinte: “se está triste, vá chorar em Paris; se está feliz, vá comemorar em Paris.” Lindanor levou isso muito a sério e se mandou. Já havia passado dos 50 – na verdade, estava com 53, cravados -, quando se encheu de coragem e partiu. Conto esse detalhe da idade, que ela odiaria revelar, como, de resto, jamais disse, de verdade, quantos anos tinha, porque há pessoas que sentem o peso da âncora do tempo enterrá-las no chão do tédio de uma vidinha de segunda categoria e se imobilizam, à espera do câncer e da morte. Coragem, minha senhora, não é para quem quer, porque todos querem. É para quem deseja ter e corre atrás.

Com uma vaga garantida na casa do estudante brasileiro, ela se mudou e foi estudar. Já estava escrevendo a tese, quando o amor bateu à sua porta. O local e as circunstâncias eram os mais improváveis, mas quem disse que amor, coerência e previsibilidade são amigos que andam de mãos dadas ao tempo?

Instalada numa mesa, na biblioteca da Universidade de Paris, antiga Sorbonne, onde fazia doutorado, Lindanor cercou-se de tantos livros, que acabou construindo uma espécie de muro, atrás do qual se escondia. Quem estivesse de fora, via apenas os livros, ignorando a existência de um ser humano que, ali, datilografava a tese.

Por um desses acasos da vida, um grupo de jovens estudantes discutia um assunto, bem perto dela. De vez em quando, sem ser chamada, dava um teco na conversa alheia, do tipo: “não é bem assim”, “fulano não disse isso, foi beltrano”, “sua citação está incompleta”. Ela era mestre em fazer isso. Quando ia para casa de sua irmã, minha querida amiga Laudi, no conjunto Valparaíso, se trancava num quarto que dava para o quintal, onde o pessoal ia bater papo. Reclusa, pedia para não ser incomodada, porque ia rezar o terço. Enquanto o povo falava lá fora, ela avançava nas “Ave,Marias”, mas, de vez em quando, parava e se intrometia nos assuntos. Minuto seguinte voltava para a reza.

 Lindanor era católica, dessas católicas corretas, não perdia a missa, fazia promessa, conversava com os santos, não deixava seu terço e se entregava totalmente aos cuidados de Nossa Senhora de Nazaré. Talvez por isso tenha tido tanta proteção nas doidices que fazia. Não disse há pouco que estava muito à frente de seu tempo? Leila Diniz perdia feio para ela. Quando passava perto da Basílica, podia estar no maior qui-qui-qui, dentro do carro, que parava, olhava séria para a igreja e pedia: “Ô, minha Nossa Senhora de Nazaré, por favor guarde um lugar para mim no céu, nem que seja no último banco”. Logo depois, voltava para a risadaria.

Pois foi com essa mania de se meter aonde não era chamada, que despertou a atenção de um rapaz do grupo, que ficou curioso para saber de quem era aquela voz, que tudo sabia, em tudo enfiava a colher, anonimamente, já que estava protegida pelos livros. Como quem vai abrindo caminho por capinzal denso e alto, o jovem, que talvez não tivesse 25 anos e, se houvesse sido descoberto por Hollywood, com certeza Tom Cruise e Brad Pitt ainda estariam procurando emprego, desbravou a livrarada e encontrou Lindanor Celina. Quando os olhos dos dois se cruzaram, todos os sinos de Paris tocaram ao mesmo tempo. Uma noite de 14 de julho e seu espetáculo pirotécnico brilharam em pleno dia. O cupido, que já rondava o ambiente, avisado de que teria trabalho, naquele lugar, disparou duas flechas embebidas em paixão no coração de cada um e, partir de então, o mundo nunca mais foi o mesmo. Pelo menos o mundo de Lindanor Celina e de Serge Casha.

Naquele preciso momento, a conversa com os colegas se desfez e o estudo ficou para quando fosse possível haver outro instante de concentração. Os dois pareciam encantados com aquele reencontro, porque não era possível brotar tanto amor em tão pouco tempo. Se eu acreditasse nisso, diria que era estoque acumulado de vidas e vidas passadas. Nem dona Inês Pereira de Castro e o príncipe D. Pedro, de Portugal, conseguirão protagonizar uma cena tão linda como a que Lindanor, depois senhora Casha, e ele, apenas e para sempre, o eterno marido da Lindanor, viveram.

Para que se tenha noção do afeto que uniu a paraense e o francês, preciso contar a história (mais uma) do príncipe português, sobre o qual o povo até cochichava que não gostava de mulher, porque nunca era visto com nenhuma, e da linda moça de origem espanhola, que representaria risco para a coroa portuguesa, já que uniria seu sangue ao da casa real de Portugal. Aproveitando que o filho havia viajado, o rei, seguindo conselho do seu ministro da Economia, o Paulo Guedes da época, autorizou o assassinato da nora e dos netos, que não queria próximos do filho. Como com o destino não se brinca, D. Pedro logo foi feito rei e, sabendo da crueldade do pai e do ministro, não perdeu tempo. Assim que viu o mentor de sua infelicidade, desembainhou a espada e enfiou-a todinha, pelas costas do ministro. Depois, puxou o coração do infeliz para fora, pelo menos lugar por onde a espada entrou, trincou a parte inferior do músculo e fez justiça. Se não foi assim, capaz de ter sido bem parecido.

Quando tudo estava consumado e a vingança plenamente realizada, mandou desenterrar a ossada de dona Inês, lavou-a, remontou o esqueleto, cobriu as costas da caveira com o mato real, enfiou-lhe no dedo descarnado o anel de rainha e colocou sobre o crânio careca a coroa de soberana dos portugueses. Como se não bastasse, mandou que a corte se ajoelhasse diante dela e beijasse o anel. Até Lindanor e Serge se conhecerem, nunca o mundo havia visto tanto amor assim.

D. Pedro e dona Inês foram sepultados em belíssimos túmulos góticos, no mosteiro de Alcobaça, cada um numa ponta do braço da cruz do traçado do templo, para que, no dia da ressurreição dos mortos, o Juízo Final, as sepulturas se abram e delas os mortos se levantem, o casal, cujo amor foi podado pelo preconceito e pelo ódio, não perca tempo se procurando. Antes mesmo de se espreguiçarem, após um soninho que começou no século XIV e sabe Deus quando terminará, se reencontrarão para viver o amor impossível. Melhores e maiores detalhes desse lindo e trágico acontecimento, muitas vezes mais doloroso do que o de Romeu e Julieta, os senhores encontrarão  nas instâncias de 118 a 135, com III canto de “Os Lusíadas”. É só jogar no Google que aparece.

Nem essa narrativa de amor chega aos pés do de Lindanor e Serge.

Como a história que já vai demais longa por hoje, faço como Sherazade, a corajosa e sábia estrela das “Mil e Uma Noites”, a mesma que enrolou o rei Shariar, o pobre soberano que, depois de ser corneado pela primeira esposa, pegou um certo medo de chifre e mandava matar as mulheres logo após a noite de núpcias, para não ter tempo de ser passado para trás, outra vez. Só que Sherazade era esperta e prolongava o final das 1001 histórias que contava para o dia seguinte.

Vou fazer como ela e deixar o melhor para amanhã, porque esse texto já está bem maior do que planejei. E ainda tem tanto para dizer, que acho que vou precisar de mais dois dias.

[continua]

João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Henri Matisse — Deux danseurs, 1937-38

Crônica

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