O amor segundo Lindanor Celina e Serge Casha (II)

Diário de um desespero – ou quase – XXV

João Carlos Pereira

Depois que o universo conspirou, mobilizando todas as suas forças para que a professora, romancista e cronista Lindanor Celina e o professor Serge Casha se encontrassem nesta vida, ela, livre e desimpedida (era viúva do primeiro marido e separada do segundo); ele, totalmente solteiro, os dois colocaram um sorriso de bobos apaixonados no rosto e só o desfizeram quando ela morreu, em 2003, aos 85 anos.

Assim que saíram da biblioteca, praticamente hipnotizados por uma paixão que cresceu mais rápido que o pé de feijão do meu xará João, Serge, todo príncipe, condição que manteve até o último dia de sua relação, foi levá-la em casa. Como dois adolescentes que namoravam pela primeira vez, ficaram no portão. A república onde ela morava possuía normas rígidas de horário. Se não cumprisse a regra, dormiria na rua. Quando deu a hora, entrou, mas ficaram conversando pela janela.

Como ela mesma me contou, e repito suas próprias palavras – “foi, foi, foi e, quando vi, já estava morando, no apartamento dele, em Clamart”. Durante 32 anos de um encantamento sem precedentes em suas vidas, Lindanor, a nossa Linda, veio várias vezes ao Brasil. Foi numa dessas, pelas mãos da saudosa Lana, no final dos anos 70, que nossa amizade nasceu. Eu era um menino, tinha o quê? 23, 24 anos, e logo nos tornamos íntimos, confidentes. Trocávamos cartas regularmente e, aos domingos de manhã, quando fazer discagem direta internacional, o famoso DDI, era mais barato, eu ligava para ela. Tinha o cuidado de observar a hora, sempre quatro ou cinco a mais, dependendo da estação, para não atrapalhar a hora do almoço.

Serge nunca veio ao Brasil, embora tivesse muita vontade, mas a claustrofobia o impedia de pegar avião. Padecia de imenso pânico de aglomerações. tanto que evitava vencer os quase nove quilômetros que separavam sua pequena cidade de Paris para ir até lá. Levava uma vida regrada, totalmente dedicada ao magistério na universidade e ao seu amor. Era um homem bonito, alto, doce e cuidava da Linda como se fosse uma joia, um biscuit. Na verdade, seu maior tesouro. Os amigos da esposa eram os seus amigos e ele a mimava (também nos mimava) de todo jeito.

Todas as vezes que eu ia a Paris, sempre em julho, eles estavam na Grécia e jamais coincidiu de nos vermos. Essa impossibilidade colocava um quê de tristeza, uma gotinha de frustração em minhas sempre tão felizes temporadas na cidade do meu coração. Estava muito perto de minha amiga e, ao mesmo tempo, distante. Como jamais desisti de vê-la, uma vez, a última em que nos encontraríamos, me disse que não viajaria e pediu: “assim que você chegar, me ligue”.

Combinamos um jantar e ela avisou que Serge nos pegaria, na estação de Maire d´Issy, às 6 da tarde, para nos levar até Clamart. “Seja pontual”, advertiu. Era tão próximo de Paris, que, de lá, à noite, se podia enxergar a Torre Eiffel iluminada. Como só havia visto uma foto de Serge, há muitos anos, na coluna do Edwaldo Martins, jornal ainda em preto e branco, na “Província do Pará”, insisti várias vezes para que fizesse ao menos uma breve descrição do marido, ou da roupa com que estaria vestido. Ela ria e dizia: “você vai reconhecer…você vai saber quem é…” Eu já estava vendo que aquilo ia dar errado. Dois doidos fazendo uma combinação desse tipo não havia como dar certo. Fiquei quieto e não contei nada para ninguém.

Eu estava apavorado. Íamos em quatro, minha irmã, Edithe, a amiga Maria Lúcia Almeida, Emília e eu. Se o encontro desse errado, ia ouvir gracinhas pelo resto da viagem. Pense uma estação de final de linha, seis da tarde, uma ruma de gente por tudo que é lado, e eu esperando encontrar uma criatura que jamais havia visto. Não tinha foto, só sabia que era bonitão e devia estar na faixa dos 40 anos. Esse tipo, em Paris, não é exceção. Eu me sentia no mato sem cachorro.

Chegamos à estação na hora combinada e, como eu imaginava, parecia um Círio. Havia povo correndo para todo lado e, a cada momento, novos vagões do metrô empurravam multidões para as plataformas. Encontrar Serge Casha ali seria mais difícil de que achar agulha num palheiro, ou descobrir o Wally, aquele menino de óculos redondos, cabelinho ruivo, queixudo e sempre trajando a mesma camisa branca com listras vermelhas, combinando com a inseparável touca branca, de barra e pompom também vermelhos, eternamente perdido nas multidões. Em vez de brincar de “onde está Wally?”, me consumia num angustiante “onde estará o Serge?”

Não confiasse mais em Nossa Senhora de Nazaré do que em mim mesmo, teria desistido. Minha mulher perguntava, minuto a minuto, se já o havia visto e eu disfarçava, fingindo que o procurava. Nunca revelei que não sabia quem era a criatura que devia nos apanhar e levar para Clamart. Vivendo o que poderia chamar, por estar em Paris, de “um desespero – ou quase”, avant la lettre, dei alguns passos em direção à saída da estação e enxerguei um senhor com barba e cabelos grisalhos, bastante lisos.

Alto e muito branco, parecia bem mais velho do que realmente era. Usava óculos e trajava um pulôver cinza, se não me engano. A chance de ser nosso anfitrião não passava de uma no meio de todo aquele povaréu. No maior nervoso, fui me aproximando e, percebendo que me olhava, abri os braços. Na mesma hora, ele repetiu o gesto e nos abraçamos. Só pude dizer, incrédulo, caprichando no acento e puxando o “erre”, imitando o tom grave da voz de minha amiga: Serrrrge? Graças a Deus era. Como a Lindanor previu, eu iria reconhecê-lo. Mas como? Deus a ninguém desampara, podem acreditar.

Conversamos como velhos amigos que queríamos ser, sem jamais nos termos visto. O casal preparou um jantar maravilhoso e serviu Bordeaux Superior chamado “Saint Emilion”, que Lindanor depositava generosamente nas taças, explicando que, por ser Bordeaux, não fazia mal algum. Depois daquele dia, nunca mais tive coragem de provar aquele vinho. Num momento, enquanto o dono da casa dava atenção às mulheres, minha amiga puxou meu braço, ficamos com a cabeça à altura da mesa, como se procurássemos algo no chão, e cochichou: “até hoje não entendo… Sem beleza, sem juventude e sem dinheiro, como eu peguei esse homem ?”, e deu uma risada. A resposta era fácil: Serge cultivava outros valores e era um ser humano especial.

Naquele tempo, eu tinha a estranha e amalucada mania de, onde quer que chegasse, tirar o relógio do pulso. Acho que era uma espécie de “toc” do qual, felizmente, me livrei. Pois assim que cheguei ao apartamento, larguei o relógio num canto da mesa de jantar. Comemos, conversamos, bebemos, rimos e, quando fomos embora, já no carro, a bem dizer no meio do caminho, senti sua falta. Pacientemente, Serge deu meia volta e eu subi correndo para apanhar o relógio, que estava direitinho, no lugar onde o havia esquecido. Foi só o tempo de colocá-lo no pulso, dar um último beijo na Linda e voltar para Paris.

Quando descia para fazer uma compra um pouco mais demorada, ou simplesmente ia buscar o pão, deixava bilhetinhos apaixonados pela casa. Se a esposa vinha para Belém, quando mais se aproximava o dia da viagem, era flagrado choramingando pela casa. Assim que se conheceram, uma das primeiras coisas que fez foi tratar de corrigir o sotaque. Serge, que lecionava literatura, falava como um português de Portugal. Num gesto de amor ao seu país, ensinou o modo brasileiro de se expressar. E ele aprendeu direitinho.

Quando o assunto era língua estrangeira, um não podia criticar o outro. Para escapar de uma depressão, Lindanor se danou a estudar grego. Meteu a cara nos livros e, se julgando apta a conversar com qualquer um, na querida ilha de Skyros, encheu-se de coragem e abordou um guarda, em Atenas. Para sua surpresa, escutou do oficial uma lição: “minha senhora, aqui não se fala mais esse idioma há séculos. É grego clássico”. Quase teve um troço e depois caiu na gargalhada. Essa história foi ela mesma quem me contou.

Toda a gente que a conheceu, se escrevesse uma página – apenas uma – narrando as presepadas, as tiradas de humor e inteligência, as doidices, as brincadeiras, as histórias verdadeiras, as aventuras e desventuras de uma pessoa que falava como escrevia e escrevia como falava, em um minuto se construiria um livro enorme. Todo mundo que a conheceu mais de perto tem uma coisa interessante para falar sobre ela. Ontem, um amigo nosso me disse que, mais jovem, ainda em Belém, não tinha pudor de mostrar os seios, assim como faziam uma certa folclorista paraense e a Dercy Gonçalves. Ele era um rapazinho, quando a escritora, sem nenhuma maldade, apresentou-lhe seus dotes de mulher. Na sua cabeça, aquilo era a coisa mais normal do mundo. Não disse, na outra crônica, que estava à frente de seu tempo anos luz?

Lindanor era uma escritora excepcional. Infelizmente sua obra está esgotada e não há sinais no horizonte de que será reeditada. Chegou a ser publicada pela Nova Fronteira e Pedro Paulo Sena Madureira, um editor exigentíssimo, a cobria de elogios. Como ser humano, era de uma bondade rara e tinha o coração maior do que o mundo.

Quando seu primeiro romance saiu, em 1953, deixou de ser Lindanor Coelho e acrescentou ao seu o nome Celina, homenagem àquela que foi uma de suas melhores amigas e colega de colégio, em Bragança, dona Celina Mártires Coelho, esposa do professor Machado Coelho, em cuja casa entrava com uma intimidade de familiar próximo, dando teco em tudo, mexendo em tudo. Imaginava que Lindanor Coelho não era exatamente um nome de escritor, um tanto árido, talvez, e precisava de outro que desse a ela a doçura infinita que sua amiga-irmã possuía. Por isso cortou o Coelho e passou a se chamar apenas Lindanor Celina, que nascia 37 anos depois da Lindanor Coelho. Ficara, portanto, 37 anos mais jovem. Essa diferença praticamente fazia de Serge um homem pouquinha coisa mais velho do que ela. Num estalar de dedos, rejuvenesceu quase quatro décadas. Nenhum dos procedimentos estéticos na face a que se submeteu a deixou tão jovem. Seu pavor era “ficar para semente”.

Alegre, sempre de bem com a vida, arteira como ela só, senhora de gestos teatrais, não tivesse sido atriz, na juventude e encenado, na escola de Teatro da Universidade a peça (olhem que nome horroroso!) “Lágrimas do amante no sepulcro da amada”, era mulher de caras e bocas e olhares que valiam por um discurso. Às vezes, acabava de almoçar, equilibrava um livro sobre a cabeça e saia rebolando. Dizia que era para ajudar na digestão. Lindanor era assim: doida de pedra. Anjo de candura.

Senhora de muita religiosidade, ficou viúva do pai de seus filhos e, depois, casou-se, no civil, com um homem que cuidou deles como se fossem os próprios filhos. Divorciada, podia unir-se no civil ou no católico com Serge, mas preferiu ato religioso. Para a igreja, valia sua condição de viúva. O divórcio não existia. Assim, talvez tenha sido a única criatura no mundo com três estados civis ao mesmo tempo e absolutamente legais, e dois nomes verdadeiros: nasceu Lindanor e se transformou em Lindanor Celina.

Seu corpo foi cremado e as cinzas vieram para Belém, para serem jogadas na baía do Guajará, numa cerimônia emocionante. Quando o barco se afastou, uma touceira de mururés se aproximou do local e formou uma espécie de coroa, que ficou, por muito tempo, estacionada sobre o que restou da escritora, nossa matéria prima e à qual voltamos. Era a natureza da Amazônia, em nome de todos nós, dizendo que a amava e sentia muita saudade.

Em Clamart, Serge Casha era a imagem da tristeza.

Em 2017, o Pará prestou à Lindanor um grande tributo, celebrando, de todas as formas, seu centenário. Onde quer que estivesse – e com certeza está no céu – ela deve ter experimentado um sentimento ambíguo. Primeiro, a felicidade por ter seu nome lembrado, reverenciado, aplaudido e o talento de grande escritora, reconhecido. Houve eventos para marcar a data em muitos lugares, inclusive na França. Segundo, capaz de ter odiado a revelação de que, se ainda vivesse entre nós, completaria 100 anos. detestava dizer a idade e, quando se falava nisso, brincava: “não revelo quantos anos tenho, nem debaixo de tortura”.

Não foi preciso recorrer a extremos. Bastou falar-lhe de amor para que tivesse todas as idades que desejasse.

Belém, 15 de abril de 2020

João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Henri Matisse — Vénus, 1952.

Crônica

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