O coronavírus tem medo de chuva e de calor?

Diário de um desespero – ou quase – VI

João Carlos Pereira

Trago da infância alguns pequenos ditados, uns poucos “ensinamentos” que me acompanharam pela vida toda e, com o tempo, foram perdendo significado ou desmentidos. Um deles dizia respeito ao clima e era levado a sério por toda a gente da minha casa.

Contrariando (ou afirmando) a ciência, o dia de Santa Luzia (13 de dezembro) era uma espécie de sinalizador do “inverno”. Dependendo da intensidade da chuva, saberíamos como seria o comportamento da estação. Muita chuva no dia 13 era prenúncio de águas torrenciais até maio. Pouca chuva, inverno mixuruca. Por muitos anos fiquei atento a essa relação e, confesso, até hoje dou valor ao saber ancestral, mas também gosto de saber se haverá el niño ou la niña sobre as águas do Pacífico.

Independente da “previsão” do 13 de dezembro, a imagem, ou vulto, de santa Luzia sempre me meteu medo. Em casa havia uma, de madeira, feita na fábrica Estrela, de Portugal. Luzia (ou Lúcia) é mostrada em finos traços, com um prato na mão, sobre o qual estavam seus dois olhos, retirados brutalmente por um soldado romano, no século IV, porque se negou a renunciar à fé no Deus único. Diz a tradição que, na mesma hora, outro par de olhos brotou em sua face, mais bonitos que os anteriores, deixando ainda mais linda a jovem de 20 anos. Como ninguém conseguia demover a convicção do coração de Luzia, cujo significado do nome tem a ver com luz, o jeito encontrado pelas autoridades romanas foi decapitá-la. Essa estátua está guardada em algum lugar, mas agora o que não me falta é tempo para procurá-la.

Depois disso, aprendi que em janeiro e fevereiro chovia muito, que o inverno piorava em março e abril ofereceria “águas mil”. Em maio a situação se normalizava devagar, até que, em junho, a fornalha do tempo começava a funcionar e o calor voltaria a nos perseguir. O calor e eu temos uma relação complicada: ele me odeia e eu o detesto. Jamais faremos um bom acordo. Eu não gosto dele e ele não precisa de mim.

Meu pai me dizia que novembro era sempre o mês mais quente do ano e que ouvia de seus avós, meus bisavós, que cortar unha, à noite, atrasava a vida. Para nós falavam do risco de deixar tesoura aberta perto de uma janela, em dia de chuva, porque atraía raio; que comer manga com febre levava à loucura e misturar açaí com leite virava seria combinação mortal. Será que alguém, hoje, leva isso a sério?

Cada tempo preserva suas verdades e eu fujo de todas elas. Verdades absolutas – exceto as da fé – causam problemas psiquiátricos. Espero, sinceramente, que ninguém entenda isso como um elogio ao relativismo descomprometido, porque não é.

A nossa época criou bobagens perigosíssimas, tipo: aids é doença de homossexual, o homem não foi à lua e, a mais recente, as fake news que, irresponsavelmente, divulgam “verdades científicas” inexistentes e ensinam as piores atrocidades. Não é por acaso que os movimentos mais reacionários e bárbaros, como de reviver a ideologia nazista, ganham força. Não por acaso, igualmente, muita gente aceita lavagem cerebral em nome de um Deus que não existe, porque só pensa em prosperidade e ganhos financeiros, e acredita em sandices como cura gay, além de outros “milagres” operados em balcões de negócios da fé. Isso tudo me enoja e envergonha o pensamento cristão. Não duvido que, se estivesse por aqui, Jesus chicotearia os caras que propagam isso em seu nome.

Enquanto o conhecimento científico é tratado com seriedade no mundo todo, mas no Brasil dos pronunciamentos virou receita de almanaque, março vai chegando ao fim sem os temidos temporais. Tudo bem que eles deram um tempo, mas a previsão é de muita água para agora e de mais dilúvios para abril. Em ritmo de espera pelas chuvarada, vejo gente achando que a pausa é um sinal dos céus, para mostrar ao coronavírus que aqui, no calor, ele não se cria e que Deus é pai da Amazônia. E da África, da Ásia, dos EUA, do resto do mundo Ele é o quê? Por acaso deixou de amar a ama a Itália e a Espanha?

Nem como piada ou ato de fé isso pode ser considerado. Ninguém sabe, nem os cientistas, nem os sacerdotes, nem os pajés, nem as videntes mais famosas do planeta se esse vírus derrete, ou morre esturricado, nos trópicos, como assim desejo, ou se o bicho é tão mutante como o capeta, que assume diferentes formas para enganar os ingênuos.

As águas de março, por aqui, não fecham o verão, como na música, feita para celebrar o final de uma estação, no Rio, onde, de verdade, há estações. Nesta terra, o fogo apenas muda de alto para brando e de brando para forte, com chuva o dia todo ou chuva todo dia. O abril de águas mil pode ser apenas uma rima, mas ainda é esperança. Quando chove muito, a floresta não arde.

Se o coronavírus se sentir sufocado com o calor e a umidade da Amazônia e morrer berrando será bom para nós. Mas se gostar, estaremos lascados. Nessa hora, tomara que ninguém se lembre de colocar a culpa no Criador, somente que a mutação cumpriu seu papel e ajudou a escrever uma nova história. Deus e a ciência não se chocam, nem batem de frente. Apenas os tontos acreditam que rivalizam. Ou fazem que acreditam, para enganar o povo desorientado.

Belém do Pará, 26 de março de 2020.

João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Chegada do barco – Oswaldo Goeldi, s/d.

Crônica

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