Entre ser velho, idoso, vivido, 3ª idade e não ser velhaco

Diário de um desespero – ou quase – VIb

João Carlos Pereira

De tanto ouvir, nesses dias que correm aflitos, incertos, absurdos, com a desconhecida incerteza do que será da natureza humana na próxima manhã, que os idosos são o grupo de risco mais frágil da pandemia, passei a prestar mais atenção à palavra idoso e a considerar a força do sufixo oso.

Essa palavra passou a fazer parte da minha identidade há um ano e, se me jogou na fila das prioridades, me deu estacionamento e ofereceu caixas exclusivos, também me empurrou para o tal grupo de risco. O sufixo oso, de idoso, vem do latim “osus” e serve para formar adjetivos que exprimem a ideia de força, como vigoroso; extensão, como espaçoso; abundância, como grandioso; de qualidade, como pegajoso ou gostoso. Idoso, no caso, penso que seja demonstração de abundância. Abundância de idade. Tem muitos anos, é idoso.

Se antecedido de artigo, o adjetivo vira substantivo num piscar de olhos. O homem idoso pode ser simplesmente o idoso, aquele idoso. E quando se refere a doenças, por exemplo, também significa muito? Um leproso é assim chamado por que est[a coberto de lepra? O dengoso estaria atacado de um excesso de dengo, (ou de dengue?), do mesmo modo que um fogoso seria um tarado?

No caso de quem tem muita idade, entendo bem, é o velho. Meu primo Adelino Neto é uma exceção. Como eu, já nasceu velho, mas ainda não tem 40 anos. A forma “velhoso”, até onde sei, não existe. Velhinho, sim, é delicada referência a quem se cercou das manhas e da aura da idade para existir ou resistir. Velhaco, que eu achava tinha a ver com velho safado, mas não tem. Olha que doido!

A palavra apareceu na língua espanhola no século XIV e se originou de “bellaco” para expressar “homem de má vida”. “Bellaco”, acredita-se, é derivado do catalão antigo “bacallar”, que teria vindo do celta “bakallakos” e tem um pezinho no francês arcaico, “bechelier”. O verbete esteve rolando de boca em boca e deu origem a uma quantidade enorme de variações, como: velhaca, velhacaço, velhacada, velhacagem, velhacão, velhacar, velhacaria, velhacaz, velhaco, velhacório, velhaqueado, velhaqueadoiro/velhaqueadouro, velhaqueador, velhaquear, velhaquesco, velhaquete e velhaquez..’ Alguém que propositadamente engana, ludibria , trapaceia, é patife e ordinário é (ou faz) tudo isso.

Na primeira eleição direta para Presidente, depois do regime militar, Ulysses Guimarães foi “xingado” de velho por Fernando Collor, que acabou ganhando o pleito, mas abriu a lista de presidentes apeados do poder debaixo de acusações de velhacarias. Consciente de sua idade – ou que nunca foi vergonha ou ofensa para quem a possui – o dr. Ulysses respondeu à altura: “sou velho, mas não sou velhaco”. Collor ficou mudo e não disse mais nada. Do episódio restaram muitas lições, mas a principal é a de que o cara, para ser velhaco, não precisa ser velho.

Se não bastassem tantas questões, velho não aceita a forma velhoso, mas acolhe a delicadíssima referência aos tempos vividos no samba, quando se refere às alas de uma escola, como a Mangueira ou a Portela, por exemplo, que possuem as Velhas-Guardas mais famosas do carnaval. Ruim mesmo é quando velho vira senil, ancião, obsoleto, traste, velhote, veterano, maduro ou coroa.

Em Belém, um bairro faz o elogio da terceira idade: Val de Cãs, ou de Cans, que nada tem a ver com cães, mas com velhos, cabeças brancas (como a minha). Ali seria um vale de idosos (daí Val, como a terra dos meus sogros, em Portugal, o Val do Pereiro) porque, dizem, não sei, abrigava um asilo. Como quem conhece bem histórias antigas é o Sebastião Godinho, vou perguntar a ele.

Não tenho medo das palavras. Se não existisse entre mim e elas uma relação de absoluta confiança e de inteira cumplicidade, não teria me tornado um profissional da escrita. Alguém que sempre viveu das palavras e as temesse seria como um médico que não se aproxima do paciente, apavorado com a possibilidade de pegar uma doença. Eu as exploro à exaustação, até conseguir que, de seu caule, escorra o sumo de que tanto necessito. Ou as faço trabalhar, até tirar de seu corpo o sangue do sacrifício. Não o sacrifício Eucarístico, mas a prova que deram de si o máximo. Por isso não tenho problema algum em falar de velho. Ninguém pode me acusar de velhofobia, porque não produzo provas contra mim mesmo.

O tempo presente trouxe para a nossa categoria um “afeto” que, em nome de todos, dispenso solenemente e o enxoto como o exorcista, com o crucifixo na mão, repreende o maligno, recitando a fórmula latina, que termina como “vade retro, satana”. O maligno, no caso, que tem nefasta atração pelos mais vividos, ou mais rodados, ou mais experientes, seja lá o que for, é aquela coisa horrorosa, em todos os sentidos, que atende pelo nome de coronavírus.

Para a ironia ser completa, o bicho, gorducho e todo cheio de pontas, como se fossem umas anteninhas do mal, com cara de marciano, ainda é “novo”, o caçula de uma geração de coronas, quinto da sua dinastia, se não estou enganado. Agora, imagina quando esse cabra crescer, o estrago que vai fazer!

Valei-me, minha Nossa Senhora de Nazaré.

João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Lígia de Medeiros – Em fuga (azulejo)

Crônica

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