Estou apenas no começo do meu desespero

Diário de um desespero – ou quase – I

João Carlos Pereira

Os dias desapareceram da semana. Diluíram-se nas ausências do cotidiano. Dormimos e acordamos no mesmo calendário. Não há mais amanhã e nem ontem. Tudo é um hoje sem fim, onde o dia e a noite são meros cenários. Auroras e poentes estão do mesmo jeito. Quando isso passar, não haverá memória de datas, exceto para quem cultiva o quase inexistente hábito de escrever diários.

Como fiz a vida toda, busco refúgio na poesia. Encontro em Adélia Prado a resposta de que não preciso, porque não há espaço para perguntas, mas a explicação fundamental para a hora que não há, porque dias não há, meses não há e o relógio parou, sem que sequer notássemos. Como a poeta, “estou no começo do meu desespero e só vejo dois caminhos: ou viro doido, ou santo”. Trago, igualmente, “os cabelos entristecidos e a pele assaltada de indecisões”.

Não conheço as rotas para a santidade, embora saiba que existam, mas as da loucura se abrem desbragadamente à minha frente. Não posso ir à janela e ver a cidade, pelo menos a parte onde moro, vazia. Forma-se um silêncio tão absurdo, que confundo a hora do almoço com a alta madrugada. Não surge ninguém na calçada e às vezes passa um carro. Nem os cães vadios ousam algum trajeto.

Na esquina, ao longe, uma família de venezuelanos aborda os raros motoristas, em busca de dinheiro para comprar comida. Olho para eles e não desconfio de Deus, mas posso perguntar, ao próprio Deus, por que a cruz para esse povo é tão pesada. Por que para eles restou a pior parte? Sobrou-lhes a rua – de onde fomos todos varridos como medida de sobrevivência – e a eles escasseia o que mais nos consome, agora de forma obsessiva: a higiene. Todos serão devorados por esse vírus, como se passasse a conta pela pobreza, pelo governo que os mandou embora, pelo país que não os soube amar e acolher?

Sinto medo, muito medo. Minha amiga me perguntou “o que será de nós”. Nem posso imaginar. Talvez me acostume à grade que o vírus me impôs e circulo em casa como a onça do Museu, cuja angústia e solidão vejo todos os dias, limitada a uma jaula minúscula. Ela vai, desesperada, de um ambiente ao outro, e volta. Quando cansa, deita-se num troco e ali permanece. Não tem mais as crianças que lhe fazem caretas e ameaças corajosas, sentindo-se protegidas. Minha clausura involuntária não é melhor nem pior que a da onça: é igual.

Quando os dias ressurgirem, de alguma maneira ela saberá que é sábado ou domingo, porque terá quem a admire e fustigue. Na segunda-feira, repousará. Nesse momento nossos destinos se separarão, mas ambos continuaremos, de alguma forma, detidos, colocados a ferro. A liberdade, que já foi vago conceito, assim como a felicidade, ganhará uma nova e ainda desconhecida forma. Mas nunca mais serei o mesmo. Ao menos manterei viva a possibilidade de pensar e de questionar.

Como os monges trapistas, eu poderia ficar confinado a uma vida contemplativa, de trabalho e de oração, igual à das irmãs do Carmelo de Benevides, se essa fosse minha opção. Gosto do silêncio, amo a solidão, às vezes me faço de ilha no mundo em que vivo. Mas é minha decisão ser assim. Um vírus me colocou diante de mim mesmo e fez de meus gostos uma sobrecarga. Não quero ser brigado a querer um vínculo com a lei, ainda que ela seja o reflexo de meu espalho mais verdadeiro: o isolamento.

Desejo paz, silêncio, exílio e o deserto, mas por livre determinação. Não por imposição de governos. Ou medo de um vírus.

Belém do Pará, 22 de março de 2020.

João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Figura decomposta – Ismael Nery, 1927

Crônica

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