Colcha de retalhos

Simone Furquim Guimarães

A leitura do Evangelho hoje é Jo 11,45-56. O Evangelho informa que as autoridades judaicas conspiravam para matar Jesus. Esta narrativa antecede e prenuncia a Semana Santa. Naquele ano da morte de Jesus o sumo sacerdote que estava responsável pelo Templo era Caifás. Era ele que levava os sacrifícios do povo diante do altar de Deus. Somente ele poderia entrar neste altar. O Evangelista diz que ele profetizou sobre a morte de Jesus e a consequência deste evento para o futuro dos fiéis: “reunir os filhos de Deus dispersos”.

Segundo o evangelista tudo isso foi importante, ou seja, a partir desse evento, os seus seguidores e todos e todas que passaram a crer em Jesus ressuscitado, voltaram a se reunir em torno de seus ensinamentos e ações. Segundo São João, Caifás não sabia que profetizava o surgimento do grande movimento que se criou a partir daí, que foi o movimento cristão. Essa é a reflexão e entendimento que a comunidade joanina consegue elaborar após passados 70 anos da morte e ressurreição de Jesus. A Palavra de Deus, o projeto de Deus foi fecundo a partir daí. Em meio ao caos gerado diante da opressão imposta pelo Império Romano, surgia um movimento de solidariedade, de amor entre os irmãos e irmãs.

Uma metáfora que usamos sobre a Bíblia é que ela é como uma colcha de retalhos. A humanidade vai tecendo: o povo da Biblia foi tecendo, a partir de suas experiências de vida. E nós continuamos a tecer, a partir de nossa experiência, de vida de nossa realidade. E o que une os retalhos é um só tecido, que está escondido, mas que é o que sustenta toda colcha. Ou seja, Deus é quem sustenta a vida, é quem permite que a vida vai sendo tecida pelas pessoas na história humana.

Jesus fez parte da história humana, durante sua vida pública mostrou o projeto de Deus. Ele sofreu a paixão e morte por parte das autoridades religiosas e política do seu tempo. Deste evento, os primeiros cristãos, em torno do ano 95 a 100 depois de Cristo, releem e, em meio a sua realidade de sofrimento, interpretam esse evento acontecido com Jesus, mostrando que ele venceu a paixão e morte e ressuscitou e que era preciso que tudo isso acontecesse para que os cristãos, assim como a comunidade joanina, perseverassem na fé, na solidariedade e no amor cristão.

Hoje, nós cristãos e cristãs, continuamos tecendo essa colcha, pois o texto bíblico não se esgota, continuarmos tecendo a Palavra de Deus, pois Bíblia e Vida estão interligadas. Diante de tantos males causados pela pandemia do COVID-19, nossa Semana Santa deverá ser de muita união e reflexão em torno das narrativas sobre a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo; e, com sabedoria, podermos perceber os sinais de Deus para nós, para a construção de uma sociedade mais humana, solidária, da construção do Bem Viver, do cuidado com todos e com a natureza. Tudo isso se faz necessário para vencermos os poderes da morte e celebrarmos a vida em abundância!


Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI).

Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.

Justiça e Paz Palavra de Deus

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