O canário francês e a passarinhada paraense

Diário de um desespero – ou quase – XIII

João Carlos Pereira

Eu tinha tanto horror ao verbo passarinhar que, por muito tempo, o considerei como invenção doméstica, inexistente no dicionário, guardada na memória do menino já perdido. Mas existe. Ele, e sua forma substantiva, passarinhada, fizeram parte de minha infância. O irmão mais novo de meu pai adorava se embrenhar pelos matos para caçar passarinho. Isso é passarinhar. Uma vez, achou de me levar junto. Eu era criança, não me lembro bem a idade, mas era numa fase em que tudo virava aventura e distração. Mesmo as coisas mais cruéis, como trancafiar passarinho na gaiola.

Na véspera, arrumou as arapucas de tala de miriti, amarrou um matinho que parece ser de alpiste pelo lado de dentro do pequeno cárcere e separou umas gaiolas maiores. Cedo, bem cedo, pegamos seu Jeep e nos mandamos não sei para que interior, em busca dos bichinhos. Ele falava em sabiá, uirapuru, tem-tem, curió e outros cujos nomes não guardei. Sabia que eram aves de canto alto e farto, cuja beleza só se realizava em campo aberto, nos galhos, chamando fêmea, saudando o dia, alegrando a natureza. Engaiolados, o máximo que conseguiam era uma elegia.

Na literatura grega antiga, elegia era uma poesia triste, melancólica ou complacente, preparada, de forma especial, como música para funeral ou um lamento de morte. Pode haver coisa mais infeliz do que passarinho dentro de uma gaiola, ou de um viveiro, cantando solitariamente? Para mim, eles superam os versos de Calímaco, que, três séculos antes  de Cristo, escreveu o poema “Os Cabelos de Berenice”, do qual restaram apenas fragmentos, mas o suficiente para demonstrar a maestria no gênero.  Pouca coisa me aflige mais do que canto de passarinho preso.

Lembro, vagamente, que voltamos de nossa “passarinhada” e meu tio estava feliz da vida. Havíamos capturado  um monte de aves. Capturar, no caso, significava roubar a liberdade de criaturinhas que nenhum mal haviam feito para merecer a existência entre grades. Desde então, teriam como único consolo cantar para a solidão.

Acho que o desejo de liberdade que trago dentro de mim não é apenas coisa de agora, conhecida depois de muito haver penado pelos vales da representação, onde tudo tem de parecer perfeito, fruto de um mergulho profundo nos meus medos e na operação arranca-máscara à que me submeti. Ele vem dessa época, quando, sem saber a razão, sofria ao ver os passarinhos se batendo dentro da gaiola, de um lado para o outro, descrevendo um voo inútil e amargurado. O mundo todo lá fora, só deles, só para eles, e as criaturas detidas injustamente.

Em nossa casa existia um pátio, construção posterior, acredito, coberto com telhas de barro, com guarda-corpo em madeira trançada, que produzia formas geométricas, encimado por um balcão, também em madeira. O piso era de ladrilho hidráulico cor de vinho e de lá alcançávamos o quintal, onde havia um abacateiro estéril (me disseram, depois, que era do tipo macho e precisava de outro por perto, fêmea, para gerar abacatinhos (seria uma fake news do passado?), um limoeiro entanguido e uma goiabeira sempre  coberta de frutos. Também plantávamos maracujá, cidreira e capim-marinho para fazer chás. As gaiolas ficavam penduradas nesse espaço, como se fosse um Carandiru, um presídio São José, uma Papuda para aves indefesas, frágeis e, sobretudo, inocentes.

Um dia, eu acordei com instinto libertador ativado. Os espíritos da princesa Isabel  e de seu avô, D. Pedro I, devem ter se aproximado de mim e mandaram ver, lembrando do instante em que  ela acabou com o cativeiro escravo e ele nos afastou de Portugal. Apenas politicamente, deixo claro, porque do amor por aquela terra ninguém nos aparta, nem apartará, pois faz paz parte de nossas melhores essências, virou nosso DNA mais profundo e verdadeiro.

Recordo, mais de meio século depois,  que não hesitei um minuto, nem pensei nas broncas que levaria. Após baixar todas as gaiolas e colocá-las sobre a bancada, abri uma a uma as portinholas e botei os passarinhos para fora, sussurrando para que fossem e não retornassem nunca mais. A princípio ficaram atônitos com a liberdade. Nem sabiam direito para quem serviam suas asas. Depois, sumiram pelos quintais. Espero que não tenham sido vitimados por algum gato faminto ou por outro passarinheiro.

Me lembrei desse episódio que não deixou marcas nem na memória, nem no lombo, por causa de uma charge que recebi, no telefone. Se não ficou lembrança de uma descompostura ou de uma peia, é porque não existiram. O gesto heroico, contudo, impediu novas passarinhadas. Meu tio, a quem aprendi a amar como se fosse meu segundo pai, entendeu que, quanto mais passarinhos levasse, mais prejuízos teria. Tipo como disse Tiradentes: se dez passarinhos presos eu tivesse, dez passarinhos eu libertaria.

A charge, que chegou via zap, feita por um artista francês, mostrava um passarinho amarelo, canário, sem dúvida, pendurado em seu balanço, com uma velhinha ao seu lado, dentro da gaiola. Ela olhava, desolada, para a rua, pensando em como gostaria de estar ali, entre os que são livres. A legenda, de tradução rápida, expressava a fala do passarinho: “não é fácil, viu?”

Com o coronavirus à solta, viramos passarinhos entristecidos.

João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
jcparis1959@gmail.com

Imagem: Raoul Dufy – La cage d’oiseau (1913-1914)

Crônica

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