Trio elétrico

Edla Lula

Esta terça-feira, consagrada feriado por imposição popular, celebra o ápice da folia momesca. Numa tradição que nasce cristã – o “adeus à carne” para na quarta-feira de cinzas iniciar-se o tempo da abstinência e jejum – o povo extravasa toda alegria, em manifestações catárticas.

Se há algo em que o carnaval encontre a sua perfeita expressividade, podemos chamá-lo de Trio Elétrico. Desde o seu surgimento, há 70 anos, ele cumpre a função de misturar a massa humana – com samba, suor e cerveja. E como desaprovar? Não foi fazendo jorrar abundantemente vinho bom que Jesus Cristo realizou o seu primeiro milagre, numa saudação clara ao estado de felicidade?

Foi mais ou menos essa sensação que os jovens Dodô e Osmar provocaram ao invadir, pela primeira vez, a praça Castro Alves, em Salvador, com a engenhoca batizada de Fobica – um Ford bigode 1929. O carnaval de 1950 ficou oficializado como a data que marcou o episódio, por isso o carnaval baiano este ano faz a homenagem ao Trio Elétrico. A receptividade foi tamanha, que o que seria apenas um teste passou a ser o grande fenômeno daquele carnaval.

A antropóloga Goli Guerreiro, no livro A trama dos tambores: a música afro-pop de Salvador, conta que, naquele dia, Osmar Macedo teria pedido a Olegário, motorista da Fobica, que ele mesmo havia reformado para construir o carro de som, para parar, sob pena de serem presos por causa do arrastão que eles provocaram. “Não posso, a Fobica já quebrou desde lá de baixo. Quem está empurrando é o povo”, respondeu o motorista.

O relato de Osmar descreve uns 200 metros de gente para frente e mais 200 metros para trás, que formava “um verdadeiro rolo compressor humano de gente enlouquecida subindo em direção à Rua Chile”, circuito oficial do carnaval de Salvador. A partir dos anos seguintes, o fenômeno só aumentava. Antes do trio, Dodô e Osmar, com os seus paus elétricos, se apresentavam em bailes com um outro músico, Temístocles Aragão. Como a banda se chamava Trio Elétrico, os foliões identificaram o carro de som com o nome da banda – “Lá vem o carro do Trio Elétrico”, diziam uns para os outros.

Nos anos seguintes, cresceram o tamanho do carro, a sua quantidade e o próprio carnaval baiano. 

É bem verdade que, como de costume, o gigante capitalismo invadiu as ruas de Salvador, com os blocos e cordas a espremer nas calçadas os sem-abadás. O aparteidsocial não deixa de ser uma ameaça ao que há de mais belo no carnaval de Salvador.

Mas graças à persistência de artistas, especialmente os herdeiros de Osmar Macedo – Armandinho e seus irmãos André e Haroldo – o legítimo Trio Elétrico aí está, gratuito e para todos. Quem já experimentou aproximar-se de um desses caminhões cheios de luz e as caixas de som fazendo badalar num ritmo só o coração, sabe o quão explosivo é o carnaval do Trio. O suor quente que se mistura, um com o outro, é promotor de um fenômeno indescritível do que é se fazer uma só carne, um só corpo – algo antropofágico, como descreveu Caetano Veloso.

O Trio Elétrico proporciona que o carnaval cumpra com precisão a sua função libertária e libertadora, assim como acontecia no velho carnaval romano: todos são um só. Não há rico nem pobre, preto ou branco, senhor ou escravo, rei ou plebe, patrão ou empregado. A onda humana que sobe e desce ao um som genuíno, nos aproxima ao estado original da pessoa humana – estado de graça.


Edla Lula é baiana e jornalista.

Imagem: André Koehne, 2006.

Arte e Cultura

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