Uma mulher anônima e corajosa — Lc 11,27-28

Simone Furquim Guimarães

A leitura do Evangelho de hoje é Lc 11,27-28. O texto relata que uma mulher anônima e corajosa, em meio à multidão, ergue a voz e proclama: “Felizes as entranhas que te trouxeram e os seios que te amamentaram!”. Com essas palavras, ela reconhece quem é Jesus, enquanto muitos ao seu redor o confundiam com um enviado de Belzebu (Lc 11,15) ou duvidavam de sua missão (Lc 11,16).

Diante dessa manifestação de fé, Jesus responde com uma bem-aventurança ainda mais ampla: “Muito mais felizes são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática”.

Jesus era judeu e viveu profundamente enraizado na tradição de seu povo. Para os judeus, ouvir a Palavra de Deus significava colocá-la em prática no cotidiano. Entre os textos mais importantes meditados diariamente estava a orientação do livro do Deuteronômio: “Não deverá haver pobre algum no meio de vocês […] vocês devem colocar em prática toda esta lei que hoje lhes estou dando” (Dt 15,4-5).

A fé, portanto, não era apenas uma questão de crença, mas de compromisso concreto com a vida, especialmente com a vida das pessoas mais necessitadas. É isso que chamamos de ortopráxis: uma fé que se manifesta em ações. A Carta de Tiago recorda essa mesma preocupação quando adverte as comunidades cristãs que estavam negligenciando os pobres. Por isso afirma com firmeza: “A fé sem obras é morta” (Tg 2,17).

Ao responder àquela mulher, Jesus também dirige uma mensagem aos que conheciam as Escrituras, mas não permitiam que elas transformassem suas vidas. Ouvir a Palavra exige acolhê-la com o coração. Como diz o Deuteronômio: “A Palavra está muito perto de ti: está na tua boca e no teu coração, para que a ponhas em prática” (Dt 30,14).

Muitos doutores da Lei sabiam os textos de cor, mas nem sempre conseguiam relacioná-los com a realidade do povo. Em vez de promover a vida, algumas vezes utilizavam a própria Lei para justificar exclusões e sofrimentos. Jesus denuncia essa atitude em diversas ocasiões, lembrando que a Palavra de Deus deve estar sempre a serviço da vida.

Por isso, os chamados “doutores da Palavra” têm muito a aprender com os pequenos e as pequenas. A mulher anônima do Evangelho reconheceu em Jesus a realização das promessas de Deus. Ao proclamar “felizes as entranhas que te trouxeram”, ela reconhece a grandeza da missão de Jesus e a ação de Deus em sua história.

Mas Jesus amplia essa felicidade para todos aqueles que escutam a Palavra e a vivem no dia a dia. É o mesmo ensinamento que encontramos em Lc 8,21: “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a colocam em prática”. Assim, quem acolhe a Palavra e a transforma em ação torna-se parte da família de Jesus.

Também nós, seguidores e seguidoras do Nazareno, somos convidados a nos perguntar: estamos ouvindo a Palavra de Deus? Estamos colocando em prática aquilo que ela nos ensina?

Nossa fé precisa aparecer nas escolhas que fazemos todos os dias, inclusive na forma como participamos da vida em sociedade. Nesta eleição, a Palavra de Deus nos chama a buscar um governo que se preocupa com o bem comum, com a justiça e a dignidade para todas as pessoas, especialmente para aquelas que mais sofrem com a pobreza, a exclusão e as desigualdades; um governo que promove políticas públicas para retirar as pessoas da miséria e da fome.

Oremos para que Deus abra nossos corações, a fim de acolhermos sua Palavra, reconhecendo-a não apenas na Bíblia, mas também na vida e na luta do povo. Que sejamos felizes porque ouvimos essa Palavra e a colocamos em prática.

Amém!


Ouça no Podcast Ignatiana [link]

Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/Planalto Central).


Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.

Desde outubro de 2020, também disponível no podcast Ignatiana.

Ano A — Sábado. 27ª semana do Tempo Comum

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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