Burnier: Martírio, memória e sonho

Este cálice é o novo testamento no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória de mim

1 Cor 11, 25

12 de outubro. O Brasil se volta para Nossa Senhora Aparecida, sua padroeira. Padroeira também de Brasília, título que compartilha com Dom Bosco, que sonhou com a próspera capital. No entanto, este texto tratará de um outro padre João Bosco: Burnier, que há exatos 50 anos terminou sua trajetória terrena. Assim como o padroeiro, ele também sonhou com um mundo mais justo, especialmente para os pobres e indígenas. É esse sonho que se perpetua a partir da memória de seu martírio, decorrente da resistência à violência policial durante as festividades da Mãe Aparecida, no atual Ribeirão Cascalheira (MT).

Inicialmente, há o martírio, que quer dizer testemunho. Testemunho esse dado por quem reconheceu, à beira da morte, que havia cumprido sua missão de serviço ao Reino até as últimas consequências. Diante da tortura de duas mulheres em uma delegacia, ele não se esquivou: defendeu-as junto a Dom Pedro Casaldáliga, o que lhe custou a vida. Apesar dos esforços contrário, agonizou por quase um dia e se foi, sereno, gerando comoção popular.

A história de Burnier e de tantos outros desafia a lógica de que nascemos e morremos sozinhos. Ela foi marcada pelo caminhar conjunto em prol dos oprimidos, sofrendo os efeitos de resistir ao domínio do ódio. Seu assassinato foi o ápice de uma vida entregue pela Vida, de uma voz que ecoa até hoje, mesmo com as tentativas de silenciamento.

Em homenagem ao Pe. João e a seus companheiros, a comunidade de Ribeirão Cascalheira realiza periodicamente a Romaria dos Mártires da Caminhada. Por ela, somos todos chamados a perpetuarmos o seu testemunho, tornando-nos partícipes de sua vida e morte em nosso tempo. Assim, através da memória, trazemos para o presente os anseios e as convicções que o fizeram não abaixar a cabeça.

Toda vez que narramos essa história, a revivemos de diferentes formas. Cada um de nós cria sobre ela novas memórias, entrelaçando o nosso projeto de vida ao projeto do Reino. Por exemplo, cresci escutando sobre a Romaria dos 25 anos do martírio, da qual meus pais haviam participado. Neste ano, pude ir à dos seus 50 anos com familiares e queridos amigos, alguns conhecidos lá. Outros tantos laços foram formados no Centro Magis Burnier, que atua junto às juventudes do Centro-Oeste e do Tocantins na construção de um mundo mais justo. E essas amizades se estendem para além da nossa existência terrena, como visto nas homenagens a Daniel Higino, companheiro de caminhada. Em nossa mente, o rosto do Pe. João se conecta ao de diversos outros que passaram por nós e marcaram nossa jornada conjunta.

Daí a importância de cerimônias que nos permitem rememorar coletivamente os que nos precederam. Ao cultivar a lembrança de Burnier, somos chamados a sonhar e a trabalhar, ainda que como semente, para a concretização dos sonhos pelos quais ele doou a sua vida. Esses momentos não servem para a romantização ou glorificação do mártir, que não é alguém extraordinário, mas devem ser vistos como um tributo a uma ação, que pode ser espelhada por humanos tão imperfeitos quanto aqueles que dela participaram.

É essa dinamicidade que converte o “luto substantivo”, que é a dor causada pelo vínculo, no “luto verbo”, que é a ação movida pelo vínculo gerado por essa dor — e é sempre coletiva. A exemplo disso, após Burnier ser baleado, a comunidade local fincou, no local do crime, uma cruz em homenagem ao padre. Os policiais a retiraram e o povo a recolocou sucessivas vezes, até a construção do Santuário dos Mártires. De modo similar, na pandemia, o pai de uma vítima da Covid-19 fincou, na praia, cem cruzes em homenagem aos mortos pela doença; na CPI sobre o tema, disse que elas haviam sido removidas, mas que as recolocou e faria o mesmo quantas vezes fossem necessárias. Assim, as formas de resistência atravessam o tempo e as conjunturas, unindo diversas causas no mesmo sonho de vida em abundância.

Após cinco décadas, lembrar Burnier é lembrar que sonhar vale a pena. Talvez essa pena não seja a capital, como a dele; pode vir em forma de exclusão, de humilhação e de diversos tipos de violência. Ela é inevitável, visto que, ao contrário do sonho do Dom Bosco salesiano, o nosso não será apenas um “presente que Deus vai mandar”, mas fruto de todas as nossas mãos unidas às d’Ele. Contudo, o preço a ser pago é menor do que o horizonte para o qual caminhamos e, em especial, do que as amizades e memórias produzidas no decorrer de uma vida engajada.

Que, neste dia e nos demais, façamos com que seu martírio siga produzindo memórias que nos movam em direção a esse sonho. Que a “Mãe Aparecida ao Profeta João” nos ajude a, amando, amar até o fim. Que as alegrias e fadigas de cada dia nos conduzam a um amor sem fim. Que sejamos todos “testemunhas da esperança”.


Clara Boing Marinucci é leiga, estudante de Direito da Universidade de Brasília (UnB). Integra a comunidade do Centro Cultural de Brasília (CCB) e é professora voluntária do Cursinho Pré-Loyola.

Biografia Clara Boing Marinucci Fé e Política

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Brasiliense, leiga e graduanda em Direito na Universidade de Brasília (UnB). Integro a comunidade do Centro Cultural de Brasília (CCB) e o corpo docente do cursinho popular Pré-Loyola.

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