Comprometidos no cuidado da Vinha do Senhor
Pe. Adroaldo Palaoro, SJ
…e arrendará a vinha a outros agricultores, que lhe entregarão os frutos no tempo certo
Mt 21,41
No mês de setembro de cada ano, a Igreja celebra a jornada do “Tempo da Criação”; uma iniciativa ecumênica que une os cristãos de todo o mundo para despertar a sensibilidade pelo Cuidado da Criação. Trata-se de uma boa oportunidade para refletir e orar sobre o sentido profundo de nosso compromisso com a criação, não só a partir de um ponto de vista estritamente ecológico, mas também a partir de uma visão profundamente espiritual e bíblica que nos recorda que nossa fé cristã nos compromete com a Casa Comum que Deus nos confiou.
Somos convidados a viver este Tempo da Criação como uma oportunidade espiritual para renovar nossa relação com Deus, com os outros e com a Criação inteira. Sejamos semeadores de paz e de esperança, a começar pela nossa vida cotidiana: com atitudes de gratidão, de simplicidade, de respeito, de cuidado e de amor por tudo o que nos rodeia.
Sempre dizemos que uma imagem vale mais que mil palavras. Jesus sabia disso muito bem. Por isso, no evangelho deste domingo, Ele traz a imagem da vinha que, no seu interior, revela uma força transformadora, visível nos seus frutos saborosos; ao mesmo tempo, ela é lugar do encontro, da vida, da festa, da paz e da esperança.
Na simbologia hebraica, a Vinha é a Casa Comum, a casa de todos; ela é um dom de Deus para que desfrutemos de seus frutos, mas também para que a cuidemos, com a finalidade de assegurar que todas as pessoas possam viver junto dela com dignidade.
Na perspectiva bíblica, a imagem da vinha nos fala de convivência, de harmonia, de alegria, de acolhida e de gratuidade, por ela ser dada em herança. Não somos proprietários desta vinha, somos seus administradores. A vinha é um destino, é uma missão.
Também a Vinha pode ser para nós, hoje, símbolo de nossa Casa Comum, a mãe Terra. O Deus da ternura e do cuidado colocou em nossas mãos uma vinha que Ele embelezou e preparou para dar abundantes frutos.
A vinha é o rosto da suma bondade d’Ele; ela é o lugar da revelação das suas entranhas misericordiosas. Assim como fez aos agricultores da parábola, também a nós Ele nos convoca a sermos co-criadores em sua vinha, para que a cuidemos, a protejamos e a amemos, possibilitando-a dar todos os seus frutos. Também Ele nos entrega a vinha para que saboreemos os seus frutos, mas conscientes de que somos meros trabalhadores nela, e não donos da mesma.
O Deus da entrega e do amor extremo convida a nos relacionar com Ele, a acolher esta encomenda e a reconhecer que tudo é do Filho, aquele que é a “pedra angular” de nossa vida quando o acolhemos e sabemos devolver tudo o que temos recebido. Só dessa maneira nossa vinha dará seu fruto e saberemos trabalhar nela a partir da criação de laços de fraternidade e de entendimento, junto a tantos outros que também foram chamados a cuidar dela. E assim, unidos no Filho, continuaremos cantando um canto de amor à vinha.
E o que foi feito com a vinha do Senhor?
O ser humano rompeu as relações com o senhor da vinha, tomou posse dela, apoderou-se de seus frutos; fechado em si mesmo e absoluto em suas decisões, desencadeou uma fúria destruidora, uma sede de dominação, um comportamento soberbo e soberano diante da Vinha que recebeu como herança. O afã de dominar a vinha em benefício próprio é a origem de muitos conflitos, da violência e da miséria no mundo.
Consequências: há um outro ar contaminado que invade tudo:
– individualismo sem medida, competitividade selvagem, falta de solidariedade, materialismo, hedonismo, insensibilidade diante da dor dos outros, ausência de princípios éticos, falta de compaixão e de cuidado, surdez às mensagens do universo e de todas as coisas, indiferença frente à sacralidade do mundo…
O drama do ser humano é perder a memória de que é parte do todo: seu instinto de posse e domínio o leva a romper a relação cordial com todas as criaturas, caindo num devastador vazio existencial. A “centração em si mesmo”, sem levar em conta a rede de relações que o envolve, provoca a quebra da “re-ligação” com tudo e com todos. Este é o veneno que corrói o ser humano por dentro: petrificação de sua interioridade, a perda do gosto pela verdade, pelo belo e pelo bem, o extravio da ternura e da transcendência, a atrofia da comunhão com o todo cósmico…
A vinha está sendo “desnaturada” e o ser humano “desumanizado”. Esta crise aponta para um ser humano doente e a doença consiste justamente na separação entre o ser humano e a vinha, na falta de cuidado e no esquecimento de seu parentesco e solidariedade.
A crise ecológica é a própria crise do ser humano. A vinha está em ruínas, devido à maneira como ele a habita; arranca pedaços dela para satisfazer seus interesses individuais e não se dá conta que está destruindo seu próprio habitat. Podemos qualificar tudo isso de desolação comunitária: o lugar pós-moderno do “inferno”.
Diante desta situação que caminha para a destruição total, faz-se urgente uma nova consciência ecológica, ou seja, que o ser humano mude sua maneira de se relacionar com a natureza e passe da “dominação à benevolência, do ‘sobre-pôr-se’ e do ‘im-pôr-se’ ao ‘com-pôr-se’, da guerra à paz, da exploração ao respeito, da destruição ao cuidado, do secularismo devastador à sacralidade reverente (L. Boff).
Aquilo que é narrado como tendo acontecido muito tempo atrás, numa terra distante, na realidade acontece agora, dentro de cada um de nós. Daí a força provocativa da parábola deste domingo.
Em chave de interioridade, podemos afirmar que há uma vinha em nosso interior, plantada com todo cuidado. A vinha interior é plantada por Deus em função da vida; por isso ela é sagrada e é lugar de contemplação e encontro íntimo com o Criador; ela é o teatro da glória de Deus, isto é, da manifestação da presença divina. Ela deve ser o lugar da fecundidade, da convivência e da celebração.
Com o toque divino, uma identidade nova ressurge em nós: já não somos mais estrangeiros, nem inimigos em nossa própria vinha.
Para reconstruir a vinha interior é preciso:
– erradicar a “força dominadora” do nosso coração que, no afã de tudo possuir, alimenta conflitos e violências e que acabam destruindo a Vinha da vida;
– ativar uma mentalidade nova, um coração novo, uma sensibilidade cósmica, na qual a gratidão se expressa como atitude de acatamento, de respeito e de cuidado diante da Criação.
Nós e o universo só seremos felizes quando todos formos uma grande vinha, por onde o Senhor passeia, à hora da brisa fresca da tarde (Gen 3,8) . A vinha é a face graciosa que Deus oferece à humanidade. Na vinha, Deus realiza seu sonho. E fica feliz!
Nesse sentido, a espiritualidade cristã vai além de uma determinada experiência religiosa; ela se expressa como uma “atitude amorosa” para com a Vinha, recebida em herança.
A Vinha inteira é um imenso altar, no qual podemos contemplar a presença do Criador; ela é sinfônica (harmonia de sons); estamos rodeados por uma multiplicidade de notas, sons, sinais e mensagens diferentes. Com a Vinha, formamos uma mesma realidade complexa, diversa e única; ela nos encanta e nos convida, constantemente, à admiração e ao cuidado.

Texto bíblico: Mt 21,33-43
Na oração: deixe o Espírito transitar pela sua vinha interior, para que aí Ele estabeleça o “cosmos” (harmonia e beleza”) e crie um coração novo, de onde brotarão frutos de refinado sabor.
— Dê nomes aos “frutos” de sua vinha interior.
Adroaldo Palaoro é padre jesuíta, atua no ministério dos Exercícios Espirituais.
Podcast Rezando o Evangelho | Textos do Pe. Adroaldo
Ano A — 26º Domingo do Tempo Comum
Imagem: Luís Henrique Alves Pinto
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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.
