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Simone Furquim Guimarães

A leitura do Evangelho de hoje é Lc 6,1-5. Nela, Jesus nos recorda que para Deus, a vida humana está acima de qualquer norma religiosa. As leis existem para servir à vida, e não para sufocá-la.

No texto, os fariseus questionam Jesus porque seus discípulos colhem espigas de trigo em dia de sábado. Segundo a interpretação rigorosa da Lei, esse gesto não era permitido. Jesus, porém, não aceita uma compreensão da religião que ignora as necessidades concretas das pessoas. Para responder aos seus críticos, ele recorda um episódio da vida do rei Davi, que, diante da fome, entrou na casa de Deus e comeu dos pães reservados aos sacerdotes, repartindo-os também com seus companheiros.

Ao citar esse exemplo, Jesus mostra que a vontade de Deus não pode ser reduzida ao cumprimento mecânico de regras. A Lei só cumpre sua finalidade quando promove a vida, a justiça e a dignidade humana. Quando uma norma se torna instrumento de opressão, ela se afasta do projeto divino.

Essa Palavra nos convida a olhar para nossa realidade e a nos perguntar: as leis, normas e estruturas de nossa sociedade estão a serviço da vida de todos? Elas garantem dignidade aos mais pobres, aos que passam fome, às mulheres vítimas de violência, aos que não têm moradia ou acesso à terra?

A mensagem do Evangelho dialoga com o tema do Grito dos Excluídos e Excluídas, celebrado neste 7 de setembro: “Vida em primeiro lugar”. Também ecoa em seu lema: “Na defesa da terra, da paz e da moradia, erguemos a voz: mulheres vivas e soberania!”.

Inspirado pela tradição profética, o Grito denuncia situações que ferem a dignidade humana: os conflitos que ameaçam a paz dos povos, a concentração de terras, o déficit habitacional, a exclusão social e o aumento da violência contra as mulheres. Ao mesmo tempo, anuncia a esperança de uma sociedade fundada na justiça, na solidariedade e no respeito à vida.

Quando percorremos os Evangelhos, encontramos Jesus caminhando pelas periferias da Galileia, próximo dos pobres, dos famintos e dos excluídos. Seu olhar está voltado para aqueles que sofrem. Por isso, ele não permite que a religião seja usada para justificar a indiferença diante da fome ou da dor humana.

Ao afirmar que é “Senhor do sábado”, Jesus proclama que nenhuma lei pode ser colocada acima da vida. O projeto de Deus é a promoção da dignidade humana, da justiça e da fraternidade. Toda norma, toda instituição e toda prática religiosa devem ser avaliadas a partir desse critério maior.

Que esta Palavra fortaleça nosso compromisso com o Evangelho e nos ajude a reconhecer, nas dores e lutas do nosso tempo, o chamado de Deus para defender a vida. Como seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré, sejamos também voz profética em favor dos que são silenciados, para que a justiça floresça e a dignidade de todos seja respeitada.


Ouça no Podcast Ignatiana [link]

Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/Planalto Central).


Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.

Desde outubro de 2020, também disponível no podcast Ignatiana.

Ano A — 22ª semana do Tempo Comum

Palavra de Deus Simone Furquim Guimarães

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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