Igreja, comunhão de comunidades
Pe. Adroaldo Palaoro, SJ
Tudo o que vocês ligarem na terra, será ligado no céu
Mt 18,18
Precisamos reavivar a consciência de que somos comunidades de Jesus. Reunimo-nos para escutar seu Evangelho, para manter viva sua memória, para contagiar-nos com seu Espírito, para acolher em nós sua alegria e sua paz, para anunciar sua Boa Notícia.
O futuro da fé cristã entre nós depende, em boa parte, daquilo que, como seguidores(as) de Jesus, fazemos e vivemos em nossas comunidades concretas: elas são espaços de acolhida, de valorização do outro, de testemunho dos valores do Evangelho?
Somos nós que devemos centrar nossas comunidades cristãs na pessoa de Jesus como a única força capaz de regenerar nossa fé desgastada e rotineira. Ele é o único capaz de atrair os homens e as mulheres de hoje; o único capaz de despertar uma fé nova nestes tempos de incredulidade. A renovação das instâncias centrais da Igreja é urgente. Os decretos de reformas são necessários. Mas nada tão decisivo como retornar com radicalidade a Jesus Cristo. Afinal, somos “seguidores de uma Pessoa”, o Mestre da Galileia; e a essência da vida cristã está na identificação com Jesus Cristo e não nos ritos, nas doutrinas, nas leis…
O evangelho deste domingo nos desperta para a consciência de que fazemos parte de uma “comunidade em missão”; todos somos responsáveis pela vida interna da comunidade e pelo compromisso de fazer chegar a Boa Notícia a todas as pessoas; todos somos líderes e exercemos a liderança cristã o tempo todo.
É no interior das comunidades cristãs que devemos zelar pelo cuidado de seus membros, favorecer um ambiente onde todos são respeitados e se sintam envolvidos com o crescimento mútuo.
Liderar com autoridade implica espírito de confiança, tratar o outro com bondade, ouvir atentamente, ter verdadeiro respeito para com os talentos do outro, ter real interesse por ajudar o outro para que tenha êxito, confiar responsabilidade, manter acesa a chama do sonho para que cada um possa fazer emergir o melhor de si mesmo a favor da comunidade, sintonizar com os princípios profundos e permanentes da vida, expressar consideração, elogio e reconhecimento pela atuação do outro… Enfim, liderar a serviço dos outros nos livra das algemas do ego e da concentração em nós mesmos que acabam fragilizando os vínculos mútuos e destroem a alegria de viver.
No relato de Mateus, proposto para este domingo, à primeira vista parece que Jesus está pedindo para descartar e expulsar aqueles que fazem o mal, considerando-os como pecadores e publicanos. No entanto, a partir do Evangelho, considerar alguém como “pagão e pecador” não significa excomungá-lo da Igreja. Quem eram os preferidos de Jesus senão os publicanos e pecadores? Tratar alguém como pagão ou pecador não é considerá-lo como um proscrito, mas como um “filho pródigo”. Este texto dá pé para perguntar-nos até que ponto é evangélica a atitude de julgamento, de condenação, de desqualificação, de expulsão.
O texto começa dizendo: “Se teu irmão pecar contra ti…”, ou seja, um membro da comunidade. Ele não faz isso de forma intimista, mas pondo em risco a unidade e a vida comunitária, pois o “contra ti” tem aqui um caráter coletivo, como interpretam outros manuscritos que colocam “contra nós” ou “contra vós”. Por isso se instaura um processo em regra, que permite conhecer aqueles que fazem parte da comunidade.
O critério de fundo continua sendo o evangelho: gratuidade original, superação do juízo, salvação dos pobres e universalidade messiânica. O método é o diálogo, segundo a ordem descrita: um a um, duas testemunhas, comunidade inteira. O processo de discernimento torna-se doloroso, mas necessário e não pode ser delegado, deixando-o em mãos de uma instância superior ou externa, pois seria como se um casal deixasse em mãos de estranhos a solução de suas desavenças.
A comunidade dos seguidores de Jesus não pode abandonar o pecador; é a comunidade inteira que tem como missão salvar e não condenar: que ninguém exclua ninguém, nem aquele que rompeu com a comunidade. Só quando este resiste entrar em diálogo, fica praticamente excluído dela.
Não é a comunidade que exclui, mas aquele que é incapaz de deixar-se amar; ele mesmo se exclui do amor.
Onde não há amor, onde não nos deixamos amar, já deixamos de pertencer à mesma comunidade cristã.
O discurso comunitário (Mt 18) define a essência da Igreja como comunidade daqueles que se reúnem, se organizam, celebram, buscam em comum a vontade de Deus, vivem o mandamento do amor revelado por Jesus. A essência da Igreja não é definida pelos seus líderes, mas pela própria comunidade que, assim, aparece de forma autônoma, como “espaço de Deus”, fraternidade messiânica no mundo.
Esse é o sentido do discernimento sinodal, desencadeado pelo saudoso papa Francisco.
A comunidade que discerne em comum deve criar as condições de escuta, de reciprocidade e de respeito à diversidade; também deve criar espaço de referência que deve ser protegido das intervenções externas. Uma comunidade a caminho da liberdade para buscar e encontrar a vontade de Deus, capaz de ler os sinais dos tempos através dos quais o Senhor se comunica, discernir os movimentos dos espíritos em seu interior e eleger o caminho indicado por Deus (como experiência de Êxodo). Não basta sentir, escutar; é preciso compreender quais os movimentos do Espírito surgem na comunidade. Saber ler estes movimentos é talvez a maior dificuldade para uma comunidade em discernimento, como o é para uma pessoa. No entanto, a única maneira de avançar é pôr em prática estes processos (P. Artuso Sosa, sj).
Eis aqui como as novas relações devem ser vividas no interior da comunidade cristã:
- relações fundadas na verdade, ou seja, saber dizer “sim” e saber dizer “não” e não basear-se em suposições; – relações de encontro: assumir os problemas cara a cara, sem escamoteá-los;
- relações de liberdade: comunidade onde reine a liberdade de palavra;
- relações de amabilidade e compreensão: face a face, mas com amor e ternura;
- relações de contínuo desbloqueio: não guardar as coisas, porque nos fecham ao próximo, e quando explodem, causam danos recíprocos;
- relações de esperança: não perder nunca a esperança no outro, não se encastelar nunca, não desistir de reconstruir a amizade com ele;
- relações de amor vigoroso: ajuda e exigência mútua.
A estrutura hierárquica-piramidal fortalece a estrutura de poder, controle, vigilância, supervisão…; tal estrutura acaba por afetar e asfixiar a liberdade interna, a motivação e o compromisso dos membros da comunidade; além disso, ela suprime iniciativas, criatividade e incentivos, em relação a novos projetos.
Cada comunidade cristã é Igreja reunindo-se em nome de Cristo, orando a Deus Pai e resolvendo por si mesma seus problemas, em diálogo no qual todos participam (sem dúvida, em comunhão com outras igrejas); existem ministérios diferentes com lideranças diferentes, mas os assuntos da comunidade devem ser resolvidos por todos, cara a cara, irmão a irmão, em pequenos grupos ou em assembleia de todos os membros; nenhuma igreja é sucursal de outras, nem é colônia de outras maiores. Cada uma é sinal e presença de Jesus na terra.
A autoridade reside na assembleia comunitária, pois cada Igreja é responsável por seu próprio caminho de oração, comunhão e decisão, de forma que deve tomar com responsabilidade suas próprias decisões e criar suas instituições, desde os diáconos, os presbíteros e o próprio bispo. Nem o amor, nem a consciência de “estar em Cristo”, nem a solução dos possíveis problemas (de fraternidade, de sacramentos…) podem ser delegadas a pessoas isoladas ou a outra comunidade mais alta, embora todas sejam solidárias e se unem entre si pelo mesmo Cristo. O amor a Jesus e a comunhão dos seus seguidores não podem ser delegados, pois se assim fizesse deixaria de ser amor cristão, comunhão evangélica.
A Igreja não é uma Multinacional, mas uma comunhão de comunidades, e o Bispo de Roma, chamado carinhosamente Papa, representa a comunhão de todas as igrejas; não está aí para suplantar a autoridade das comunidades concretas, mas para garanti-las.

Texto bíblico: Mt 18,15-20
Na oração: Ter presente sua comunidade eclesial:
– Ela está próxima ou distante da comunidade sonhada por Jesus?
– Ela é lugar do discernimento sinodal?
– Prevalece o poder de uma pessoa só ou todos os membros são escutados?
– Há uma consciência de que todos são responsáveis pela construção da comunhão entre todos os membros?
– Que atitudes aparecem diante dos conflitos comunitários?
Adroaldo Palaoro é padre jesuíta, atua no ministério dos Exercícios Espirituais.
Podcast Rezando o Evangelho | Textos do Pe. Adroaldo
Ano A — 23º Domingo do Tempo Comum
Imagem: Luís Henrique Alves Pinto
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