Magnifica Humanitas
Guilherme C. Delgado
Magnifica Humanitas do Papa Leão nos interpela sobre novas escravidões do tempo presente: IA à frente.
Papa Leão XIV demorou um pouco, mas produziu em sua primeira Encíclica um documento altamente significativo sobre as “coisas novas” do tempo presente, que penetram cotidianamente em nossas vidas com as roupagens das técnicas modernas, carregando em seu bojo graves riscos à nossa desumanização. O alerta certeiro à chamada Inteligência Artificial (IA) não é dirigido à inovação tecnológica em si ou a quaisquer utilizações dessas novidades na vida cotidiana; mas ao domínio absoluto do poder tecnocrático, substituindo nossos discernimentos e opções éticas. Aplica-se em especial à substituição do discernimento pessoal às respostas de IA, que prescindem na prática de opções éticas, em nome da eficiência tecnológica calcada no utilitarismo individual embutido nos algoritmos. E o risco apontado não é uma digressão teórica abstrata, mas se imiscui no poder econômico altamente manipulador da comunicação contemporânea exercido pelas Plataformas Digitais. Estas dispõem de meios ilimitados para disseminar a substituição do discernimento ético pessoal e coletivo, colocando em seu lugar a pronta entrega da resposta final que se desejaria obter, sob mediação de algoritmos “infalíveis”.
Estou simplificando didaticamente, mas é para estimular a leitura da Encíclica, que não é longa (40 páginas em tipo reduzido); e explica com muito mais propriedade e didatismo, aquilo que aqui somente tenho espaço para enunciações muito gerais. Mas é preciso desde logo advertir que a Encíclica opera na abordagem do tempo presente com a antinomia simbólica da construção auto-suficiente da Torre de Babel (Livro do Gênesis) em contraposição à reconstrução acolhedora de Jerusalém pós-exílio babilônico (Livro de Neemias).
Como muito bem adverte o Papa Leão no Capítulo II da Encíclica – sobre “Fundamentos e Princípios da Doutrina Social da Igreja”: 1- princípio do bem comum; 2- princípio da destinação universal dos bens; 3- princípio da subsidiariedade; 4- princípio da solidariedade; 5-princípio da justiça social; todos esses princípios éticos ficariam dispensados em nome da substituição pela eficiência utilitária individual, propiciada pelas novas tecnologias impregnadas pelo selo da eficiência privada.
Obviamente é preciso considerar que a IA apresenta alguns usos legítimos, a que grande parte das pessoas já tem recorrido, a exemplo das traduções de textos a vários idiomas, correções gramaticais na escrita, diagnósticos médicos comparativos de sintomas biológicos etc., sujeitos a revisões finais; sem que em princípio se possam apresentar refutações ético-científicas à sua utilização.
Por sua vez a utilização indiscriminada de IA à elaboração de trabalhos escolares temáticos, bem como manipulação de imagens, perfis, áudios e identidades com finalidades de confundir discernimentos são porta de entrada ao mundo da criminalidade digital, ora visitado com grande freqüência, especialmente nas campanhas eleitorais.
Não por acaso, o Capítulo IV da Encíclica chama atenção especial para dois temas fortemente afetados pelas novas tecnologias digitais. A comunicação humana tem sido fortemente afetada pela ofuscação ao livre discernimento que a IA potencializa, mediante massiva disseminação de falsidades, que atendem a interesses e ideologias nada coerentes à verdade factual.
Outra questão igualmente relevante está posta pelo risco de desvalorização do trabalho pessoal, substituído massivamente pela ‘robotização’, que ademais cria cenários de desemprego geral à medida da generalização do uso da IA.
Finalmente, o último capítulo nos acena com o outro lado da antinomia – ao invés da construção da Torre de Babel, dar prioridade à reconstrução acolhedora de Jerusalém dos tempos bíblicos de Neemias (Livros Históricos).
Entra em cena no Capítulo V a construção da ‘civilização do amor’ nos tempos atuais, pondo em destaque para todas as pessoas e instituições àquilo que a Encíclica ensina didaticamente em tópicos específicos, que convém reproduzir: 1- desarmar as palavras; 2- construir a paz na justiça; 3- assumir o olhar das vítimas; 4- cultivar um saudável realismo; 5- revitalizar o diálogo; 6- necessidade de diplomacia e multilateralismo; 7- rezar e ter esperança. E conclui, fazendo a referência significativa ao ‘verbo que se fez carne’, elegendo a humanidade como lugar de coabitação permanente do próprio Deus.
Acesse aqui a Encíclica MAGNIFICA HUMANITAS
Guilherme Delgado é doutor em Ciência Econômica pela Universidade Estadual de Campinas (1984), atuando principalmente nos seguintes temas: agricultura, política agrícola, política social, previdência social e previdência rural.
Imagem: Lígia de Medeiros – Muda (azulejo)
Guilherme Delgado Igreja antropologia cristã ética cristã Doutrina Social da Igreja Encíclica Inteligência Artificial (IA) Magnifica Humanitas Papa Leão XIV tecnologias digitais
Ignatiana Visualizar tudo →
IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.
