Coração Imaculado — Lc 2,41-51

Simone Furquim Guimarães

Hoje a Igreja celebra o Coração Imaculado da Virgem Maria e nos convida a refletir sobre o Evangelho de Lucas (2,41-51). O texto narra que, aos doze anos, Jesus acompanhou seus pais a Jerusalém para a festa da Páscoa. Ao término da celebração, enquanto a caravana retornava para Nazaré, Jesus permaneceu no Templo, dialogando com os doutores da Lei. Seus pais, sem perceberem sua ausência, procuraram-no aflitos durante três dias.

Quando finalmente o encontraram, Maria lhe perguntou por que havia agido daquela forma. Jesus respondeu: “Não sabíeis que devo estar na casa de meu Pai?” (v. 49). Nessa resposta encontramos a chave de leitura do texto: Jesus reconhece que sua vida está orientada pela vontade do Pai e que sua missão consiste em dedicar-se plenamente às coisas de Deus.

O Evangelho termina afirmando que Maria guardava todas essas coisas em seu coração (v. 51). Lucas destaca essa atitude em diversos momentos de sua narrativa (cf. Lc 2,19; 2,51). Embora nem sempre compreendesse plenamente os acontecimentos, Maria acolhia o mistério com fé, conservando-o no coração e permitindo que, aos poucos, a vontade de Deus se revelasse em sua vida.

Guardar no coração não significa uma atitude passiva, mas um caminho de discernimento e compromisso. Maria torna-se discípula de seu Filho, assim como os demais discípulos e discípulas, fazendo parte do seu Movimento. Assim como Jesus se colocou a serviço do Reino, Maria também foi diaconisa, ou seja, colocou-se a serviço do projeto de Deus; e ela permaneceu ao lado de Jesus até os momentos mais difíceis, junto à cruz, testemunhando sua paixão e morte.

Ao fazermos memória de Maria, também é importante recordar o papel das mulheres na sociedade judaica do mundo bíblico. Era principalmente a mãe quem educava os filhos nos primeiros anos de vida, transmitindo-lhes a fé, as tradições e a memória do povo. Até cerca dos doze anos, a formação da criança acontecia, sobretudo, no ambiente doméstico.

Podemos compreender, portanto, que os primeiros ensinamentos de Jesus sobre o Deus de Israel foram recebidos no seio de sua família, especialmente por meio de Maria. Isso nos ajuda a perceber que a teologia nasce também na casa, no cotidiano da vida, através da transmissão da memória do Deus libertador do Êxodo. É uma fé cultivada entre os pequenos, os humildes e os que vivem à margem dos espaços de poder.

Não podemos esquecer que é o próprio Evangelho de Lucas que apresenta Maria como uma mulher profética e corajosa. No Magnificat, ela proclama: “Dispersou os homens de coração orgulhoso. Depôs poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Cumulou de bens os famintos e despediu os ricos de mãos vazias” (cf. Lc 1,51-53). Trata-se de uma espiritualidade comprometida com a justiça, a misericórdia e a libertação dos pobres.

Jesus certamente bebeu dessa fonte profética presente na fé de sua mãe. Por isso, ao contemplarmos hoje o Coração Imaculado de Maria, somos convidados a aprender com ela a escutar a Palavra, guardar os acontecimentos no coração e colocar nossa vida a serviço do projeto de Deus.

Que Maria, mulher profética, corajosa e fiel, inspire nossos passos e nos ajude a construir, com esperança e compromisso, o Reino de Deus entre nós. Amém.


Ouça no Podcast Ignatiana [link]

Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/Planalto Central).


Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.

Desde outubro de 2020, também disponível no podcast Ignatiana.

Ano A — Sábado. Imaculado Coração da Bem-aventurada Virgem Maria

Palavra de Deus Simone Furquim Guimarães

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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