Comer e beber é fácil… assimilar uma Vida é desafiante

Pe. Adroaldo Palaoro, SJ

Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna…

Jo 6,54

Na festa de Corpus Christi há um grande perigo de alimentar a devoção à presença real de Jesus na Eucaristia desvinculada da realidade de sua Encarnação, ou seja, esquecer que Ele se “fez corpo”, viveu intensamente seu ser corporal e comprometeu-se com os corpos desfigurados e sofredores dos outros, recriando-os e impulsionando-os a uma vida mais plena.

Corpus Christi é festa do Corpo de Jesus e de todos os corpos. Festa do pão e do vinho, frutos da terra e da comunhão de todos os seres. A Terra é um grande organismo vivente; o universo, com suas estrelas e galáxias é um imenso corpo. Da mesma forma, cada átomo é um corpo no qual se movimenta o universo do imensamente pequeno.

Graças a este corpo que somos, a este “continente” que nos contém, podemos vincular-nos e estabelecer relações sadias com os outros, com Deus e com o grande corpo da Criação. Nossa maneira de nos relacionar está configurada por ele porque não há experiência de amor, e por isso não há experiência de Deus e dos outros, que não ocorra em nosso corpo.

Nos mistérios da Encarnação (“Deus se faz Corpo”) e da Ressurreição de Jesus (Corpo plenificado), o corpo se tornou espelho da divindade. Assim, o corpo humano começou a ocupar um lugar central.

Parece que não sabemos lidar muito bem com esse estranho e (des)conhecido que são os nossos “corpos”. Do corpo temos tido suspeitas e o temos olhado com desconfiança, maltratado e submetido a penitências e mortificações sem sentido, considerado como “fonte” do pecado.

É preciso estabelecer o diálogo com o corpo. Não se trata apenas de uma reconciliação amistosa, mas de uma descoberta radical. Ignoramos nosso corpo, apesar de tê-lo tão próximo; é preciso dar-nos conta das riquezas que tem, o muito que sabe, a importância do que tem a nos dizer, a necessidade de seu apoio e a sabedoria de sua amizade.

Aqui está nosso melhor amigo, fielmente junto a nós, e nem sempre o percebemos.

A corporeidade penetra toda a nossa autorrealização como seres humanos. O corpo não é simplesmente “organismo vivo” ou mera “exterioridade” ou mero “instrumento do espírito”. O corpo não é o túmulo da alma, mas o templo do Espírito, o lugar onde o “Verbo se fez carne”.

O corpo é de importância máxima para a experiência que temos de nós mesmos e para a comunicação com Deus, com os outros e com a natureza.

A consciência do respeito e do valor ao corpo é necessária para a maturidade afetiva. A desvalorização do corpo, por outro lado, resulta na mutilação da expressividade, da comunicação de sentimentos e prejudica a maturidade afetiva-social-espiritual.

Uma relação negativa com a corporeidade equivale a uma relação negativa consigo mesmo, com os outros e até mesmo com Deus. Não aceitar o corpo é atentar contra a vida.

Jesus, na sua vida oculta e pública, não anuncia uma verdade abstrata, separada da vida, uma lei puramente social, um princípio religioso… Ao contrário, Ele “é corpo”, isto é, vida expansiva, sentida, compartilhada.

Os Evangelhos nos situam Jesus no nível da corporalidade próxima: é Ele que sabe olhar, tocar, sustentar, acariciar… A Luz que nutre sua Encarnação nos permite ver com maior profundidade nossa humanidade, no espelho da corporalidade d’Ele. Essa é a luz que des-vela nossos rincões mais íntimos para deixar aflorar nossa verdadeira identidade, carregada de corpo. Deixando-nos contemplar, descobrimos Sua presença e Sua provocação em cada uma de nossas células. Corpo “cristificado”.

Quando viemos ao mundo, a primeira coisa que experimentamos foi que alguém estendeu suas mãos para receber este “corpo único e precioso” que nos acompanhará toda nossa vida. Alguém nos tocou ao começar a existência e, também, seremos tocados pela última vez algum dia.

Recebemos um corpo para permanecer nele enquanto dure nossa viagem e para estabelecer com ele “contatos humanizadores”, transmitir com nossa pele, e com todos os nossos sentidos, o afeto, o calor e a presença que precisamos para expandir esta ânsia de amor que nos habita.

Há textos do evangelho que nos convidam ao compromisso; outros à interioridade. O Evangelho de hoje nos convida a perguntar sobre o sentido de nossa corporalidade: “o que escapou de nossas mãos?”

As palavras de Jesus destacam seu caráter fundamental e indispensável: “Minha carde é verdadeira comida e meu sangue é verdadeira bebida”. Se os seus seguidores e seguidoras não se alimentam d’Ele, poderão fazer e dizer muitas coisas, mas “não tereis vida em vós”. Para ter vida dentro de nós, precisamos nos alimentar da vida de Jesus, nutrir-nos de seu alento vital, interiorizar suas atitudes e seus critérios de vida. Este é o segredo e a força da Eucaristia. Só conhecem isso aqueles que comungam com Ele e se alimentam de sua paixão pelo Pai e de seu amor a seus filhos.

A linguagem de Jesus é de grande força expressiva. A quem sabe alimentar-se d’Ele, encontra-se com esta promessa: “Esse habita em mim e eu nele”. Quem se nutre da eucaristia experimenta que sua relação com Jesus não é algo externo. Jesus não é modelo de vida que imitamos a partir de fora. Alimenta nossa vida a partir de dentro.

Esta experiencia de “habitar” e deixar que Jesus “habite” em nós pode transformar nossa fé na raiz. Esse intercâmbio mútuo, esta comunhão estreita, difícil de expressar com palavras, constitui a verdadeira relação do discípulo com Jesus. Isto significa identificação com Ele, sustentados por sua força vital.

A vida que Jesus transmite aos seus discípulos na eucaristia é a que Ele mesmo recebe do Pai, que é Fonte inesgotável de vida plena. Uma vida que não se extingue com nossa morte biológica. Por isso, Jesus se atreve a fazer esta promessa aos seus: “Aquele que come deste pão viverá para sempre”.

Se em nossa vida não deixamos transparecer a atitude de Jesus, a celebração da eucaristia continuará sendo “magia barata” para tranquilizar nossa consciência. É preciso descobrir Jesus em todo aquele que espera algo de nós, em todo aquele a quem podemos ajudar a ser ele mesmo, sabendo que essa é a única maneira de abrir espaço para que Ele venha “habitar” em nós.

Quem come deste Pão, entrega-se ao dinamismo da Vida, comprometendo-se com a luta contra as forças da morte: egoísmo, violência, indiferença, omissão, ódio, intolerância desonestidade na gerência dos bens, descuido nas relações afetivas, isolamento no medo, destruição da Casa-Comum…

O decisivo é ter “fome” e “sede” d’Aquele que se faz pão e vinho. Abrir-nos à sua verdade para que nos marque com seu Espírito de criatividade, de inspiração, de compaixão… e potencie o melhor que há em nós; é deixá-lo que ilumine e transforme as dimensões mais obscuras de nossa vida que estão ainda por evangelizar, fazendo-nos mais humanos e mais evangélicos. Um Corpus Christicelebrado sem escutar a voz dos pobres, vítimas inocentes de nossas estruturas injustas, será, provavelmente, só um rito que não significa nada; pior ainda, uma gravíssima profanação da vontade de Deus expressa na Encarnação de seu Filho, que veio a este mundo, essencialmente para salvá-lo. Devemos, pois, discernir o verdadeiro sentido de nossas adorações, exposições do santíssimo e procissões eucarísticas: se elas nos conduzem a uma identificação com Jesus de Nazaré e se estamos  verdadeiramente dispostos a fazer “memória d’Ele”, ou seja, fazer de nossa vida um “alimento salutar”, até desaparecer em favor dos outros.

Texto bíblico: Jo 6,51-58

Na oração: Sinta todo o seu corpo como um templo. E neste templo acolha o Sopro.

Procure saboreá-lo internamente. E deixe atuar em você a força da inspiração e da expiração para que todo o seu corpo seja iluminado e plenificado. Deixe vir a Luz e que ela penetre nas partes mais dolorosas do seu ser. Sinta que você é um corpo de argila e, também, um corpo de diamante.Simplesmente respire na presença d’Aquele que É.


Adroaldo Palaoro é padre jesuíta, atua no ministério dos Exercícios Espirituais.

Podcast Rezando o Evangelho | Textos do Pe. Adroaldo

Ano A — Corpus Christi [Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo]


Imagem: Luís Henrique Alves Pinto

Padre Adroaldo Palaoro, SJ Palavra de Deus

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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