Evangelho da alegria — Jo 16,23b-28
Simone Furquim Guimarães
Estamos na sexta semana da Páscoa, tempo litúrgico em que celebramos o Cristo Ressuscitado, exaltado junto do Pai. Por isso, as leituras do Evangelho de João são tão significativas, pois aprofundam o mistério de Jesus e o sentido de sua missão neste mundo.
A leitura de hoje (Jo 16,23b-28) é marcada por uma solene despedida de Jesus. Ele declara aos discípulos: “Eu saí do Pai e vim ao mundo; e novamente parto do mundo e vou para o Pai”. Essas palavras revelam não apenas sua origem divina, mas também o caminho de amor que realizou entre nós.
As comunidades joaninas do final do primeiro século compreenderam Jesus Cristo como a Palavra encarnada (cf. Jo 1,1). Para expressar essa fé, releram a tradição do profeta Isaías: “Assim como a chuva e a neve descem do céu e para lá não voltam sem antes fecundar a terra, assim acontece com a Palavra que sai da boca de Deus” (cf. Is 55,10-11).
A teologia cristã chama esse movimento de kenosis, que significa, dentre outras coisas: o Deus que se esvazia de seu poder e se torna humano para estar em nosso meio. Jesus é a Palavra que se fez carne, que armou sua tenda entre nós.
O evangelista João comunga com a espiritualidade do povo do Êxodo, que apresenta Deus como aquele que ouviu o clamor do povo, desceu para libertá-lo e caminhou junto dele pelo deserto. É o Deus que habita em tendas no meio do povo, próximo, compassivo e solidário.
Por isso, ao longo dos Evangelhos, Jesus revela constantemente a face de um Deus Pai amoroso, terno e misericordioso. Um Deus que não domina pela violência, mas que se aproxima pela compaixão. Dessa forma, o Evangelho nos desafia a abandonar imagens de um deus vingador, opressor e legitimador de guerras, conquistas e violências praticadas em nome da religião. Discursos assim contradizem o projeto revelado por Jesus.
João nos ensina que Deus deseja armar sua tenda entre nós porque quer se comunicar diretamente conosco e nos ensinar a construir seu Reino neste mundo. Jesus cumpriu essa missão até o fim e agora nos convida a continuar esse caminho, lembrando-nos de que também somos amados pelo Pai: “Pois o próprio Pai vos ama” (v.27).
E Jesus nos encoraja a viver esse projeto com esperança e alegria. No Evangelho, ele afirma: “Ninguém vos poderá tirar a vossa alegria” (v.22).
Anunciemos, portanto, o Evangelho da alegria, revelando ao mundo a face terna, amorosa e misericordiosa do Pai.
Ouça no Podcast Ignatiana [link]
Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/Planalto Central).
Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.
Desde outubro de 2020, também disponível no podcast Ignatiana.
Ano A — Sábado. 6ª Semana da Páscoa
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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.
