Jesus se revela como aquele que inclui — Mc 16,15-20

Simone Furquim Guimarães

A leitura de hoje é Mc 16,15-20. Este pequeno trecho faz parte de uma seção maior que se inicia no versículo 9, na qual se relata novamente a experiência do Ressuscitado: primeiro, sua aparição às mulheres e a outras pessoas; depois, o anúncio feito aos onze discípulos, que inicialmente não acreditam; por fim, o próprio Jesus se apresenta a eles e chama atenção para a falta de fé.

A pesquisa bíblica nos ajuda a compreender melhor esse capítulo. Muitos estudiosos indicam que os versículos 9 a 20 não pertencem ao texto original do Evangelho de Marcos, sendo provavelmente um acréscimo posterior, já que não aparecem nos manuscritos mais antigos. Considerar isso é importante por dois motivos presentes no capítulo 16.

Primeiro, porque os versículos 9 a 14 retomam a narrativa da ressurreição, funcionando como uma espécie de síntese do que já foi dito anteriormente, mas com algumas modificações.

Segundo, porque aparecem afirmações mais duras, como: “Quem crer e for batizado será salvo; quem não crer será condenado” (cf. v.16). Essas palavras exigem atenção, pois parecem entrar em tensão com o conjunto da prática e do ensinamento de Jesus ao longo dos Evangelhos.

De fato, nos quatro Evangelhos, Jesus se revela como aquele que inclui, acolhe e dialoga com todos: judeus e não judeus, samaritanos, siro-fenícios e tantas outras pessoas consideradas estrangeiras ou “pagãs”. Em nenhum momento ele exclui alguém por não crer ou por não pertencer a um grupo religioso específico.

Por isso, é fundamental interpretar o texto bíblico à luz do amor misericordioso do Pai. Caso contrário, corremos o risco de justificar exclusões e até violências em nome de Deus.

Sabemos que a Bíblia é Palavra de Deus enraizada na história humana: foi escrita por mãos humanas, em contextos culturais específicos. Por isso, não pode ser lida de forma literalista, mas precisa ser interpretada com responsabilidade e discernimento.

Se queremos ser fiéis a Jesus Cristo, devemos ler a Sagrada Escritura a partir daquilo que ele viveu e ensinou continuamente: o amor misericordioso de Deus e o cuidado com todas as pessoas, especialmente as mais sofridas.

Que esse mesmo Jesus, que viveu na Palestina e acolheu a todos e todas, continue vivo entre nós – através de nossas atitudes e de nossa prática. Amém.


Ouça no Podcast Ignatiana [link]

Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/Planalto Central).


Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.

Desde outubro de 2020, também disponível no podcast Ignatiana.

Ano A — Sábado. São Marcos, Evangelista

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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