No meio do medo, Deus está presente — Jo 6,16-21

Simone Furquim Guimarães

Estamos na segunda semana do tempo pascal, esse tempo em que a Igreja prolonga a alegria e a reflexão sobre a Ressurreição, buscando compreender, cada vez mais profundamente, o seu sentido para a vida. A leitura de hoje, Evangelho de João 6,16-21, nos coloca diante de uma cena breve, mas extremamente rica em significado.

Logo após a multiplicação dos pães, os discípulos entram no barco e atravessam o mar. É noite. O vento sopra forte. O mar se agita. E o medo toma conta deles. O cenário é de instabilidade, insegurança e ameaça. E, como se não bastasse, eles veem Jesus caminhando sobre o mar – o que aumenta ainda mais o temor. Mas então ressoa a palavra que muda tudo: “Sou eu. Não tenham medo.”

O Evangelho de João é marcado pelo uso de simbologias. O mar, aqui, não é apenas um dado geográfico. Ele representa o caos, as forças que ameaçam a vida, tudo aquilo que escapa ao controle humano. Essa imagem já estava presente no imaginário bíblico desde o relato da criação em Gênesis 1: ali, antes de toda criação, há trevas e águas agitadas. E é nesse cenário que Deus faz surgir a luz e a vida.

Assim, o caos não é o fim da história. Ele é o lugar onde Deus age.

Para os primeiros cristãos, essa imagem era ainda mais concreta. O mar também evocava o medo histórico: por ele chegavam os invasores, os exércitos, as forças imperiais que oprimiam o povo. Se antes o trauma vinha do domínio babilônico, associado a Nabucodonosor, agora era o Império Romano que produzia sofrimento, violência e morte.

É nesse contexto que o gesto de Jesus ganha força: ele caminha sobre o mar. Ou seja, ele não é dominado pelo caos – ele o atravessa, ele o supera. E mais ainda: ele se revela com palavras que ecoam o próprio nome de Deus. Quando diz “Eu sou”, Jesus retoma a revelação divina do Êxodo, quando Deus se apresenta a Moisés como aquele que está presente, que acompanha, que não abandona.

A mensagem é clara: no meio do medo, Deus está presente.

E talvez essa seja a pergunta que esse Evangelho nos faz hoje: quais são os “mares agitados” do nosso tempo? Também nós vivemos cercados por forças que geram medo, insegurança e sofrimento. Guerras, injustiças, desigualdades… realidades criadas por quem, ainda hoje, age como se fosse dono do mundo.

Mas o Evangelho não nos convida à fuga – ele nos convida à confiança. A teologia de João nos lembra que, mesmo em meio ao caos, há uma presença que não se retira: Cristo ressuscitado. Aquele que venceu a morte continua dizendo: “Não tenham medo.”

Crer nisso não elimina imediatamente a tempestade. Mas muda a forma como atravessamos o mar.

Hoje, diante de tantas forças que produzem medo e morte, somos chamados a abrir os olhos da fé e reconhecer em Jesus aquele que revela um caminho diferente: um caminho de paz, de justiça e de vida. Um caminho tão profundamente humano que, justamente por isso, revela o divino.

Que, neste tempo pascal, possamos renovar essa confiança: o mar pode estar agitado – mas não estamos sozinhos.


Ouça no Podcast Ignatiana [link]

Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/Planalto Central).


Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.

Desde outubro de 2020, também disponível no podcast Ignatiana.

Ano A — Sábado da Segunda Semana da Páscoa

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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