Maria Madalena, apóstola da Ressurreição — Mc 16,9-15
Simone Furquim Guimarães
A liturgia da Igreja nos convida, nesta semana da Oitava da Páscoa, a permanecer no coração do mistério da Ressurreição. É um tempo de aprofundar a fé no Cristo vivo e de renovar o compromisso missionário: anunciar, com coragem e esperança, a Boa Notícia!
No Evangelho de hoje (Mc 16,9-15), Maria Madalena é apresentada como a primeira testemunha da Ressurreição e a primeira enviada a anunciar o querigma – “Jesus ressuscitou!”. Antes mesmo dos Doze, é uma mulher quem vê, crê e anuncia.
Esse detalhe não é secundário. Ele revela algo essencial sobre o movimento de Jesus: desde o início, homens e mulheres participaram como discípulos e discípulas, aprenderam com o Mestre e foram igualmente enviados à missão. As primeiras comunidades cristãs, como testemunha a carta aos Romanos (cf. Rm 16), eram marcadas por uma dinâmica de colaboração, onde mulheres exerciam funções de liderança, serviço e anúncio. Trata-se de um horizonte de comunhão, mais do que de hierarquia – um povo reunido para servir ao Reino de Deus.
No entanto, sabemos que, ao longo da história, essa memória foi sendo, em parte, obscurecida. Já no final do primeiro século, surgem vozes que restringem a participação feminina, como vemos nas cartas pastorais. Textos como 1Tm 2,12-15 refletem um contexto em que mulheres foram silenciadas e afastadas da liderança, com justificativas teológicas que, muitas vezes, reforçaram desigualdades.
É importante reconhecer isso, porque essas interpretações não ficaram apenas no passado. Elas ajudaram a sustentar, em diferentes épocas, formas de organização social e religiosa que legitimaram a desigualdade entre homens e mulheres – e, em muitos casos, contribuíram para situações de violência e exclusão.
Por isso, anunciar a Ressurreição de Cristo hoje também é um ato de memória crítica e libertadora. É recuperar o testemunho das mulheres que estiveram com Jesus: discípulas que o seguiram, que serviram, que permaneceram fiéis até a cruz (cf. Mc 15,40-47) e que foram as primeiras a proclamar a vitória da vida sobre a morte.
Proclamar “Cristo ressuscitou!” implica também transformar nosso olhar sobre as relações humanas. Significa acolher o projeto de Jesus como um caminho de inclusão, onde todos e todas são chamados à dignidade de filhos e filhas de Deus. É um chamado à construção de relações mais justas, marcadas pela equidade, pela solidariedade e pelo compromisso com a vida.
Que Maria Madalena, apóstola da Ressurreição, nos inspire a viver uma fé corajosa, que anuncia, denuncia e transforma. Que, como ela, sejamos testemunhas do Cristo vivo no mundo de hoje. Amém.
Ouça no Podcast Ignatiana [link]
Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/Planalto Central).
Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.
Desde outubro de 2020, também disponível no podcast Ignatiana.
Ano A — Sábado na Oitava da Páscoa
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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.
