Os riscos da missão — Mc 8,1-10

Simone Furquim Guimarães

O Evangelho de hoje é Mc 8,1-10 e nos apresenta a segunda narrativa da multiplicação dos pães: sete pães e alguns peixinhos partilhados no meio de uma grande multidão. O detalhe é fundamental: o milagre acontece na região da Decápole, território considerado pagão pelos judeus. Diferente da primeira multiplicação (cf. Mc 6,31-44), realizada entre os judeus, agora Jesus está entre aqueles que não pertencem oficialmente à sua religião.

Nesse conjunto de narrativas, vemos um Jesus que peregrina por outras terras, aproxima-se de outros povos, vê suas necessidades, escuta seus clamores e deixa-se tocar pela dor deles. O evangelista sublinha um verbo decisivo: Jesus “teve compaixão”. Essa compaixão não é sentimento superficial; é comoção profunda que move à ação.

É significativo perceber que essa abertura acontece logo após o encontro com a mulher siro-fenícia (Mc 7,24-30). Aquela mulher estrangeira, considerada de fora, provoca um deslocamento no olhar de Jesus. Ao dialogar com ela, Jesus revela – e ao mesmo tempo aprofunda – a compreensão de que o amor de Deus não conhece fronteiras. Se antes a imagem era a das “migalhas” que caíam da mesa, agora o cenário é outro: os que eram considerados de fora são convidados a sentar-se à mesa. Eles não recebem sobras; participam do banquete em igualdade e fartura – e ainda sobram sete cestos.

A compaixão de Deus, tão presente na Bíblia, dirige-se sempre aos famintos, aos injustiçados, aos oprimidos. E, na narrativa de hoje, esses famintos não são judeus, mas continuam sendo filhos e filhas de Deus. Também eles sofrem sob sistemas políticos e sociais excludentes. O Evangelho, assim, nos provoca a reconhecer a universalidade da salvação e nos chama ao respeito, ao diálogo fraterno e amoroso com as diversidades humanas.

Hoje recordamos também a vida e a luta de uma grande discípula do Nazareno. No dia 12 de fevereiro, completaram-se 21 anos do assassinato de irmã Dorothy Stang. Sua vida encarna esse mesmo movimento de Jesus: sair das próprias fronteiras, atravessar para outras margens, ver, ouvir e ter compaixão.

Irmã Dorothy viu a injustiça contra os povos indígenas e os trabalhadores rurais do Pará, na Amazônia. Ouviu o clamor dos campesinos e das campesinas ameaçados pela violência e pela exploração. E, movida pela fé, promoveu sua própria “multiplicação dos pães”: incentivou projetos de desenvolvimento sustentável, que gerou trabalho, renda e dignidade, e contribuiu para diminuir conflitos fundiários na região.

Assim como o Mestre de Nazaré, irmã Dorothy assumiu os riscos de sua missão ao lado dos empobrecidos. Sua frase permanece atual e desafiadora: “Não vou fugir e nem abandonar a luta desses agricultores que estão desprotegidos no meio da floresta. Eles têm o sagrado direito a uma vida melhor numa terra onde possam viver e produzir com dignidade sem devastar.”

Que o Evangelho de hoje nos ajude a ampliar o olhar, romper fronteiras e transformar compaixão em compromisso concreto. Que também nós, como Jesus e como irmã Dorothy, sejamos presença de partilha, justiça e vida em abundância para todos e todas. Amém!


Ouça no Podcast Ignatiana [link]

Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/Planalto Central).


Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.

Desde outubro de 2020, também disponível no podcast Ignatiana.

Ano A — Sábado da 4ª semana do Tempo Comum

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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