O Senhor é meu pastor — Mc 6,30-34
Simone Furquim Guimarães
A leitura do Evangelho de hoje é Mc 6,30-34. Este texto marca o início da narrativa da multiplicação dos pães e dos peixes, introduzindo o grande relato do banquete que gera vida, que alimenta não apenas o corpo, mas também a alma do povo no deserto (cf. Mc 6,35-44).
O Evangelho toca nossos corações ao revelar o sentimento de Jesus: “Ao descer do barco, Jesus viu a grande multidão e ficou tomado de compaixão por eles, pois estavam como ovelhas sem pastor” (v. 34). Diante dessa realidade, Jesus não permanece indiferente; Ele ensina, anuncia o Evangelho, a Boa Notícia que gera esperança e vida nova; vida de fraternidade e solidariedade, vida de compaixão pelo outro/a.
Esse olhar compassivo de Deus também nos é revelado no livro do Êxodo: “Eu vi a miséria do meu povo, ouvi o seu clamor” (Ex 3,7). A compaixão, na tradição bíblica, é um sentimento profundo. A palavra vem do hebraico e remete ao “útero”, às “entranhas”. Trata-se de um amor visceral, comparável ao amor materno. Jesus vê, ouve e se comove nas entranhas diante da multidão. Essa compaixão orienta toda a sua missão.
É profundamente teológica a imagem do Bom Pastor (cf. Sl 22). A figura do pastor expressa, antes de tudo, o cuidado: cuidar da vida em todas as suas dimensões – física, espiritual, social e afetiva. O pastor verdadeiro não explora, não abandona, não dispersa; ele protege, conduz e alimenta.
Ao longo dos três anos de sua vida pública, Jesus formou novos pastores – seus discípulos – para reunir as ovelhas dispersas e anunciar a Boa Nova. Eles se tornam curadores pela Palavra, capazes de restaurar o corpo e a alma. Jesus peregrina por regiões marcadas pela exclusão e pela marginalização. Encontra pessoas famintas de pão, de saúde e, sobretudo, de dignidade. Jesus vê a miséria humana e não desvia o olhar.
Ele alimenta almas feridas pela desolação e pela desesperança, provocadas por lideranças religiosas que, em vez de cuidar, excluíam e dispersavam o povo – como já denunciava o profeta Jeremias: “Ai dos pastores que destroem e dispersam as ovelhas do meu rebanho” (cf. Jr 23,1).
Assim, ao rezarmos hoje o Salmo 22 – “O Senhor é meu pastor”, somos convidados não apenas à confiança, mas também ao compromisso. Somos chamados a assumir nossa vocação cristã como pastores e pastoras que amam, cuidam e defendem a vida, unindo-nos à missão de Jesus: gerar vida plena para todos e todas. Amém!
Ouça no Podcast Ignatiana [link]
Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/Planalto Central).
Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.
Desde outubro de 2020, também disponível no podcast Ignatiana.
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