Os familiares de Jesus — Mc 3,20-21
Simone Furquim Guimarães
A leitura do Evangelho de hoje é Mc 3,20-21. Nela, percebemos que os próprios familiares de Jesus entram em crise diante de suas palavras e de suas práticas. Assim como os fariseus e os escribas, eles não conseguem compreender o modo de agir de Jesus nem o sentido profundo de sua missão. No mesmo capítulo, vemos que as lideranças religiosas já tramam sua morte (v. 6) e, no texto de hoje, seus familiares querem contê-lo, amarrá-lo, pois acreditam que ele está fora de si, que enlouqueceu.
O Evangelho de Marcos nos mostra claramente que, à medida que crescem as ações libertadoras e os ensinamentos de Jesus, crescem também as incompreensões e os conflitos. Jesus enfrenta resistência das autoridades religiosas, dos próprios familiares e conterrâneos (Mc 6,4) e até mesmo de seus discípulos, que muitas vezes não compreendem o alcance de suas palavras e gestos (Mc 6,52).
No final do capítulo 3, o texto nos provoca com uma pergunta fundamental: quem são, afinal, os verdadeiros familiares de Jesus? Ele mesmo responde afirmando que sua família é composta por todos aqueles e aquelas que fazem a vontade do Pai (Mc 3,35). Seguir o projeto de Deus – que consiste em amar sem condições, promover a vida, a dignidade e a justiça – é uma atitude profundamente revolucionária. Trata-se de um caminho de transformação que rompe com paradigmas consolidados ao longo do tempo.
Os Evangelhos nos mostram que as pessoas se aproximavam de Jesus porque sentiam nele alguém que se preocupava com elas, buscava justiça para os mais vulneráveis e excluídos de sua sociedade. No entanto, essa postura foi mal compreendida por muitos, inclusive por aqueles que lhe eram mais próximos. A lógica do amor radical e da inclusão sempre causou estranhamento e resistência.
Ao trazermos esse texto para o nosso contexto de vivência cristã, somos convidados a nos fazer perguntas importantes: por que tantos cristãos ainda hoje não compreendem Jesus e o Evangelho? Quais são as crises, os medos ou as ideologias que nos impedem de acolher a Palavra de Deus em nossa vida pessoal e em nossas comunidades?
O Evangelho de hoje também nos provoca a refletir sobre atitudes, no mínimo, incoerentes entre professar a fé cristã e perseguir pessoas. Por que indivíduos que se dizem cristãos perseguem e ameaçam outros cristãos que buscam viver o Evangelho de forma concreta, como o Padre Júlio Lancelotti? Por que o compromisso com os mais pobres, vulneráveis e excluídos incomoda tanto?
Não podemos esquecer as palavras de Jesus no final do capítulo 3: “Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mc 3,35). Diante disso, a pergunta que permanece para cada um de nós é decisiva: estamos, de fato, fazendo a vontade de Deus em nossa vida e em nossas escolhas?
Que essa Palavra nos ajude a discernir o caminho e a assumir, com coragem, o seguimento de Jesus.
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Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/Planalto Central).
Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.
Desde outubro de 2020, também disponível no podcast Ignatiana.
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