Fé, um caminho de misericórdia — Mc 2,13-17
Simone Furquim Guimarães
A leitura do Evangelho de hoje é Marcos 2,13-17. Ao longo das liturgias do Tempo Comum, vamos perceber que os Evangelhos nos apresentam, pouco a pouco, os ensinamentos e as ações de Jesus de Nazaré. É como se também nós estivéssemos caminhando com Ele, acompanhando seus passos, aprendendo com seu jeito de viver e de amar. E, nesse caminho, Jesus continua a nos dirigir o mesmo convite: “Segue-me”. Mas afinal, como devemos segui-lo?
O Evangelho de Marcos é conhecido como o “Evangelho do Caminho”, porque mostra Jesus sempre em movimento, sempre em ação. Ele caminha pelas cidades e povoados, mas, mais do que isso, Ele constrói um movimento: chama pessoas, reúne discípulos, forma uma comunidade. E chama justamente aqueles que estavam à margem da sociedade.
No texto de hoje, Jesus chama Levi, também conhecido como Mateus, que era cobrador de impostos. Naquele tempo, os cobradores de impostos eram considerados pecadores e impuros pelas autoridades religiosas. Eram vistos como traidores, porque eram funcionários do governo romano, lidavam com moedas estrangeiras. Mesmo assim, Jesus olha para Levi e diz: “Segue-me”. E Levi se levanta e o segue.
A comunidade cristã que está por trás do Evangelho de Marcos percebe claramente: Jesus não age como as autoridades religiosas de seu tempo. Os fariseus e escribas acreditavam que, para participar do plano de salvação de Deus, era preciso cumprir rigorosamente uma imensa quantidade de normas – eram 613 preceitos de pureza. Quem não conseguisse observá-los era considerado impuro, pecador, excluído.
Jesus não aceita esse modo de viver a fé. E isso fica ainda mais claro quando Ele entra na casa de Levi e se senta à mesa com muitos outros pecadores. Comer com alguém, naquele contexto, era sinal de comunhão, de amizade, de reconhecimento. Por isso, os escribas se indignam: como pode um mestre sentar-se com publicanos e pecadores? Para eles, esses estavam na lista dos “maiores excluídos”, sem direito à mesa de Deus.
Mas Jesus responde com uma frase que atravessa os séculos, mas até hoje muitos não observam o seu sentido: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores.” O Reino de Deus, anunciado por Jesus, não é um espaço reservado aos perfeitos, mas um lugar de encontro, de cura, de acolhida e de conversão.
E aqui o Evangelho nos interpela diretamente. Ainda hoje, infelizmente, muitas igrejas continuam criando jugos pesados: regras, discursos e práticas que mais excluem do que acolhem, mais condenam do que libertam. Muitas vezes, ouvimos homilias duras, moralistas, preconceituosas. Saímos das celebrações mais cansados do que renovados, mais feridos do que convertidos.
Nesta primeira semana do Tempo Comum, a liturgia nos coloca novamente diante do chamado de Jesus: “Segue-me”. Seguir Jesus é romper com métodos exclusivistas de evangelização. É derrubar muros de preconceito. É ir ao encontro das periferias existenciais. É sentar-se à mesa com quem foi deixado de lado. É fazer da Igreja um espaço de comunhão, onde todos e todas possam participar da mesma mesa do Senhor.
Seguir Jesus é aprender com Ele a olhar, chamar, acolher e caminhar juntos. É transformar a fé em caminho de misericórdia. É fazer do Evangelho uma boa notícia, de verdade, para todos. Amém!
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Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/Planalto Central).
Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.
Desde outubro de 2020, também disponível no podcast Ignatiana.
Ano A — Sábado da 1ª semana do Tempo Comum
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