A profecia não deve calar
Simone Furquim Guimarães
A leitura do Evangelho hoje é Mt 14,1-12. Este texto faz parte do conjunto de narrativas sobre as práticas de Jesus (cf. Mt 14 a 17).
E dentro dessas narrativas, aqui temos um relato de cunho político e profético, pois profecia é denúncia em tempos de opressão. O profeta João Batista incomodava a estabilidade do poder de Herodes Antipas, por isso o mesmo o prendeu e, na oportunidade que teve mandou matá-lo.
Quem era Herodes Antipas? Ele se dizia representante do povo judeu, mas era ávido por poder e riquezas e, para isso, fazia alianças com o poder romano. Herodes Antipas era filho de Herodes, o Grande. Após a morte de seu pai, o imperador romano, Augusto, deu a Antipas o título de “tetrarca”, ou seja, soberano de uma quarta parte do reino de Herodes, o Grande (que compreende a Galiléia e a Peréia). Mas Antipas queria mais poder, queria também governar parte da região entregue a seu meio irmão Felipe. Por isso, tomar Herodíades (Salomé) como esposa era tornar-se influente naquele reino. Esta era a denúncia do profeta João Batista.
Jesus teve de sair dali (cf. v.13) após Herodes saber de sua existência, pois Jesus é continuação da profecia que não pode calar; pois, profecia é denúncia em tempos de opressão.
Herodes manda matar João Batista no meio de um banquete, de uma festa no seu palácio, para a seleta elite da Galiléia. O evangelista Mateus mostra que esse banquete simboliza as mesas fartas em torno da qual são decididas as medidas sociais e econômicas responsáveis pela exploração, pela fome e morte dos pobres; simboliza o poder dominante nas mãos de um judeu (Herodes) que explorava os próprios judeus; simboliza a produção de morte (cf.v.5).
Interessante que o evangelista faz um contraponto logo no relato seguinte. O Evangelho relata em seguida a esse fato, a multiplicação dos pães (cf. vv.13-21).
Para Mateus, a multiplicação dos pães, oferecido por Jesus, é o banquete dos excluídos. É lugar para todos, está em um campo aberto, em um deserto. Esse banquete simboliza a partilha; é exemplo de negação ao modelo de governo estabelecido por Herodes e pelo império romano; simboliza o modelo do sistema tribal do antigo Israel: onde todos são iguais e possuem direitos iguais; não há subordinação; o poder é o poder serviço. A comensalidade instaurada por Jesus na multiplicação dos pães simboliza a produção da vida.
A atitude de Herodes nos remete há muitos governos e poderes na sociedade que se sentem incomodados e “querem calar a voz dos profetas”. Mas a profecia não deve calar!
Na nossa história, houve muitos Herodes que, para ter mais poder e riqueza, fizeram “alianças” com os “impérios” atuais para privatizar nossas riquezas naturais e nossas empresas estatais. Muitos Herodes mandaram matar profetas e profetisas na nossa sociedade, nas nossas igrejas. Recordemos de Margarida Alves, que foi sindicalista e defensora dos direitos humanos; fazemos memória a Irmã Dorothy Stang, Bruno, Dom, Chico Mendes e muitos outros que foram perseguidos e mortos por defender a floresta e seus povos.
À luz de João Batista e de Jesus Cristo, que a profecia nunca se cale e que possamos gritar e denunciar todas as injustiças provocadas pelos poderes dominantes e opressores!
Ouça no Podcast Ignatiana [link]
Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/Planalto Central).
Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.
Desde outubro de 2020, também disponível no podcast Ignatiana.
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