Corda
João Carlos Pereira
Faltavam quinze minutos para as 10 horas da manhã, com um atraso de 45 minutos da o horário previsto, deste dia 10 de setembro de 2020, quando um caminhão baú, tipo médio, vindo pela avenida “Gentil Bittencourt”, atravessou a cancela do que, antes da pandemia, era a segunda saída do estacionamento da Basílica. Ele se espremeu entre as laterais da pista, construída para a passagem de veículos de passeio. A carga preciosa que trazia era pesada e não permitia maior velocidade.
Por uma coincidência, o caminhão vinha em passo de procissão. Quando estacionou em frente à “Estação dos Carros”, vários grupos de repórteres de rádio, jornal e televisão e sites, entre os quais o meu http://www.otempotodo.com, que é especializado em Círio, se espremiam para conseguir uma imagem exclusiva. Feita a manobra para entrar de ré e colocar-se na direção da porta da “Estação”, todos os olhos e câmeras estavam voltados para a carga que, de minuto para o outro, perdeu essa condição e se transformou no que realmente é: a corda do Círio.
Como se estivessem diante de um ícone sagrado, os Guardas de Nossa Senhora, alguns poucos devotos, Diretores da Festa e Jornalistas aplaudiram com entusiasmo os quase vinte pacotes de corda, que foram acondicionados lado a lado, formando um cubo envelopado por plástico grosso. Pesado demais para ser carregado, o volume foi seccionado e os volumes se soltaram. A Corda deste ano foi cortada muito antes da hora e propositalmente, na própria fábrica de onde saiu, no Estado de Santa Catarina.
Os quase 20 pacotes foram armazenados ao lado da berlinda do Círio, sobre uma espécie de tapete vermelho. Algumas peças já vieram presas às estruturas de ferro que, em tempos normais, são anexadas às estações e, finalmente, à berlinda. “Nós temos ocuidado de enviá-las para a fábrica. A corda já chega completa”, explica do diretor Albano Martins Jr. No próximo sábado, no ginásio de esportes do Colégio “Gentil”, a corda fragmentada receberá reforço de fitas adesivas, num trabalho conjunto da Guarda e da Diretoria.
Quando, enfim, os Guardas da Santa conseguiram arrumar a corda, ou os seus fragmentos, o reitor da basílica, padre Luiz Carlos, fez uma oração, cujo texto leu na tela de seu celular. Em seguida, puxou uma “Ave-Maria” e transformou uma simples corda num objeto devocional.
Nos anos anteriores, a corda chegava como presente de um doador anônimo para a Diretoria da Festa. Graças a essa ajuda, 18 mil reais eram economizados. Em 2020, o generoso benfeitor ofereceu uma colaboração financeira bem maior, a ser usada para cobrir outra despesa, e a Diretoria optou por pagar a encomenda. De quanto foi a troca ninguém diz. E nem é relevante saber.
Todos os gestos e ações da Diretoria do Círio, em especial do diretor-coordenador , Albano Martins Jr., se revestem de uma rara dimensão histórica. Tudo o que for feito para o Círio 2020 será lembrado para sempre. Tanto os erros como os acertos. Até o momento, contabilzam-se apenas acertos, a começar pela suspensão da romaria e tudo que puder gerar aglomeração. O coronavírus não respeita ninguém.
Os 800 metros de corda, este ano, não esperarão os fieis que deveriam puxá-los na Trasladação e no Círio. Num movimento inverso, a corda irá até os devotos. Uma parte será exposta na Estação das Docas; outra, na loja “Lírio Mimoso” e as restantes peregrinarão pelas mais de 90 paróquias da Arquidiocese. “Essa feliz idéia do nosso Arcebispo permitirá que as pessoas vejam a corda de perto”, elogiou Albano Martins Jr.
O ex-coordenador Claudio Acatauassu, presente à chegada da corda, contou que a Fábrica que a produzia, no Estado da Paraíba, fechou as portas e foi preciso procurar outra que aceitasse a encomenda. Em 2020, a corda foi produzida em Santa Catarina. Considerando frete terrestre, cada metro custou R$ 22,50.
A corda do Círio surgiu por vontade da natureza e pela força dos homens. Como a romaria era realizada à tarde e a área do Ver-o-Peso era uma grande praia, as águas da baía do Guajará invadiam a pista de terra batida, no segundo semestre, sempre muito seca, e formava uma lamaçal. Em 1855, a maré alta se formou antes da passagem da Santa. A berlinda ficou atolada e foi preciso que um comerciante da área emprestasse uma corda para ajudar a desatolá-la. O povo gostou. Acho aquilo o máximo. Eram os homens dando uma mãozinha para a Mãe de Deus. No ano seguinte, por precaução, uma corda foi levada. Como a maré não atrapalhou, as pessoas resolveram puxar a berlinda, mesmo sem atoleiro. Com o tempo, a corda foi incorporada ao Círio, mas só se tornou oficial em 1885, trinta anos depois da primeira utilização.
Nos anos em que D. Irineu Joffily dirigiu a Arquidiocese, a corda foi suprimida. A decisão gerou uma comoção na cidade e só foi revogada por intervenção pessoal de Magalhães Barata. O mesmo Arcebispo que teve a ousadia de quebrar uma tradição, não conseguiu enfrentar o interventor e renunciou ao comando da Igreja de Belém, alegando problemas de saúde.
D. Irineu tomou posse em Belém no dia 23 de janeiro de 1925. Durante seu governo, reformou o cabido metropolitano, fechou o Seminário, regularizou as relações com a Santa Casa e instalou casas religiosas de algumas congregações, como as dos Padres Lazaristas e Salesianos, além da Irmãs do Bom Pastor.
Seu grande equívoco foi mexer com o Círio. As mudanças foram tão grandes, que não ficou roda sobre roda. Todos os carros viraram andores, inclusive a berlinda. Quem olhar com atenção, verá que até a atual, feita por João Pinto, em 1964, manteve as varas para uma eventual necessidade de ser colocada sobre os ombros de homens musculosos.
D. Irineu renunciou em 1931 e morreu em 1950.
O último Círio em que a Corda não foi atrelada à berlinda aconteceu em 2002, sob a coordenação do recém-falecido e muito saudoso João Maroja. Antes da romaria, um incêndio consumiu a Casa Chamma e o trajeto do Círio ficou interditado. Como a corda era atrelada antes da Casa “Chamma”, não houve condições de atrelá-la e a Berlinda seguiu livre.
Belém, 20 de setembro de 2020.
João Carlos Pereira (Belém do Pará, 1959-2020) jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Nossa Senhora de Nazaré – Sérgio Bastos, aquarela.
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