O filé mignon da espiritualidade inaciana

Teresa Andrade

Venho a ser, do lado paterno, descendente de alemães.  Meu tetravô paterno veio em 1820 para o Brasil, fugindo de perseguições religiosas. Toda a minha vida, apesar de ser católica pela mãe, escutei as divergências e dificuldades da Igreja Católica, com as questões de Lutero, protestantismo e bulas diversas (jejum, oração etc.).

Confesso que, por falta de conhecimento, armei-me contra essa questão e quando, em minha vida, foram apresentados a biografia e os Exercícios Espirituais de Inácio, a priori, os rechacei, bem como a ideia de aprofundar-me e conhecer melhor o que Lutero e Inácio traziam de novo no bojo de suas espiritualidades. Até que em determinado momento, alguém inaciano falou-me de três pontos que há muito tempo eu buscava para mim: oração, discernimento e indiferença inaciana, ou seja, o desapego às afeições desordenadas.

A bala de canhão que atingiu Inácio, a mim também atingiu em cheio.

A bala de canhão que atingiu Inácio, a mim também atingiu em cheio. Minhas defesas, foram quebradas. Quis, a partir desse momento, conhecer a fundo esse homem que pregava um método, uma maneira, uma “experiência” de perceber a vontade de Deus na vida (discernimento) e, também, o desejo de colocar essa vontade em ação (indiferença inaciana), afastando de si o peso das afeições desordenadas, isto é, ser livre diante de tudo e de todos, como Jesus o foi.

O que me move mais e me sensibiliza na sua história é a entrega total de sua vida, de tudo que foi, experimentou, teve e fez. Também de apreciar a mudança que Deus nele operou: de um homem mundano, dedicado às armas, a um homem espiritual, pela indiferença.

Alguns episódios de sua vida são pouco falados e conhecidos pelo laicato, como as dificuldades de relacionamento e diferenças entre o nosso Inácio de Loyola (espanhol) e João Pedro Carafa (italiano), futuro Papa Paulo IV.

Loyola conheceu-o ainda como clérigo, que foi alcançando o bispado, o cardinalato e, finalmente, o papado. Homens de forte temperamento, desejos, modos diferentes de pensar e que, por circunstâncias da vida, foram colocados a se confrontarem e a experimentarem posições e sentimentos humanos antagônicos, que Inácio chamará de AFEIÇÕES DESORDENADAS, experimentadas sofridamente por ambos.

Em 1524, Cardeal Carafa fundou, com Caetano de Tiene, a Ordem dos Teatinos. Ele convidou Inácio a fazer parte dessa instituição, mas este se recusou e fundou a Companhia de Jesus, dez anos mais tarde, em Montmartre-Paris. Em curto espaço de tempo, o número de jesuítas cresceu e se expandiu. Situações como essa, sobrepuseram-se, dificultando essa relação. Por volta de 1527, nosso homem começou a dar os Exercícios Espirituais ao Bacharel Diogo de Hoces que, a princípio, temeu fazê-los, pois Carafa havia lhe dito que os Exercícios Espirituais talvez fossem uma má doutrina. Hoces, no final dos Exercícios, seguiu nosso mestre, entrando para a Companhia de Jesus. Esses episódios foram, humanamente, minando a relação.

Inadvertidamente, por zelo apostólico, pensando na Igreja como um todo e na própria Companhia de Jesus, Inácio enviou carta a Carafa, alertando-o sobre alguns pontos mais frágeis da missão e obra, tais como o exemplo de maior pobreza e trabalhos apostólicos mais intensos. Aquilo que ele sugeriu, aplicou também à Companhia. Por causa desse e de outros episódios similares, é que Loyola escreveu o EE 22: “Deve-se pressupor que todo bom cristão está mais pronto a justificar uma proposição do próximo do que a condená-lo. Se não a pode salvar, pergunte como ele a entende; se a entende mal, corrija-o com amor; se isto não basta, procure todos os meios convenientes para que a entenda bem e assim se salve”. Esforço hercúleo de Inácio, “para sair de si e de seu próprio interesse”, construindo harmonia e justiça. Aqui vemos a humildade de Inácio, tudo isso em meio às perseguições.

Na vida, vamos deixando-nos encher de orgulho e vaidade.  O simples fato de alguém lembrar o que poderíamos melhorar, é considerado uma intervenção inoportuna. Isso é recorrente até hoje.

Por contendas políticas da época (fobia anti-espanhola), Paulo IV aliou-se à França, num ataque direto à Espanha. Inácio, por suspeitas à Ordem, sofreu um mandado de busca em sua casa, à procura de armas escondidas. Posso imaginar a dor e o sentimento de injustiça, experimentado por ele. Como transformar tudo isso em perdão? Como transformar nossas contendas, no aqui e agora de nossas vidas, em perdão? Qual a atitude de Inácio no meio dessa perseguição? Ele viveu e pôs em prática o que havia escrito, no seu livro dos Exercícios, sobre o “Sentir com a Igreja” (EE 352-370).

Contemplo aqui a luta interna desse homem de ver-se injustamente perseguido por sua Mãe Igreja, sofrer a Inquisição por causa dos Exercícios, mas apesar de todos os desafios que ela lhe impunha, escolheu amá-la, cuidar dela, apaziguá-la nas contendas. Por tudo isso, posso aprofundar e conhecer o caráter desse homem. Aqui noto, pelas decisões por ele tomadas, com a graça de Deus, o uso do discernimento para direcionar suas atitudes, o uso da vontade para colocá-las em prática (indiferença), para apaziguar-se e aos seus, diante de fatos tão controversos. Nosso mestre e companheiros haviam prestado obediência absoluta ao papado, como regra das Constituições da Companhia de Jesus, na Contra Reforma. Tinham servido como servos leais aos Papas Paulo II, Júlio III e Marcelo II que muito lhes apoiaram. Repentinamente morre Marcelo II e é eleito Carafa como Papa Paulo IV.

Posso contemplar, depois de tantos desentendimentos, a angústia de Inácio e Companheiros com essa eleição. Isso exige dele o mais alto grau de indiferença. Em algum momento ele havia confabulado com seus filhos: “o que mais poderia me trazer melancolia e tristeza seria a dissolução da Companhia de Jesus pelo papa, mas mesmo em tal caso, acho que se me recolhesse em quinze minutos de oração, voltaria a ser tão feliz como antes”.  Ao tomar conhecimento dessa eleição, isso acontece. O medo de Paulo IV tirar-lhe a Companhia gerou nele uma afeição desordenada, mas extraordinariamente, entrou nos quinze minutos de oração, discernimento e indiferença, voltando a entregar Deus, tudo o que tinha e possuía.

Exponho aqui as dificuldades pessoais de Inácio, para que delas possa aprender mais na vida e assim tirar proveito. Todos os episódios relatados refletem algo que, humanamente também já experimentei.

Que as dificuldades de Inácio com suas limitações e finitudes humanas e com a ajuda dos Exercícios Espirituais me ensinem a tirar proveito e que como ele, possa alcançar com a ORAÇÃO e o DISCERNIMENTO um tal grau de INDIFERENÇA, que me conduza à maior glória de Deus (AMDG).

Dou graças a Deus, pela Ordem dos Teatinos e a Companhia de Jesus, terem sido fundadas por esses dois grandes santos: São Caetano de Tiene e Santo Inácio de Loyola.

Bibliografia:

Tellechea Idigoras, J. Inácio. Inácio sozinho e a pé. São Paulo: Loyola, 1991.

Livro dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola. [link]

Relato do peregrino (Autobiografia de Inácio de Loyola) [link]


Teresa Andrade é leiga, pertencente à Comunidade de Vida Cristã (CVX), comunidade Maria Mãe da Esperança, Rio de Janeiro (RJ).

Imagem: Ligia de Medeiros — Fundo do mar
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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

2 comentários Deixe um comentário

  1. Obrigada por mostrar como relacionou sua caminhada na fé com a de Inácio. O discernimento que ele ensinou é ferramenta muito útil no nosso seguimento a Jesus, hoje!
    Beijocas!

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  2. Grata por mostrar Inácio como esse homem com tanto zelo pela Igreja, pela busca do bem maior. Inácio legou à Igreja uma espiritualidade alicerçada no MAGIS.

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