Sai da tua terra…

Maria Eugênia Rodrigues

Nasci e me criei em São Paulo e gostava do que a cidade me oferecia: vida cultural e gastronômica a mais variada possível; diversão; trabalho; família e amizades. O lado negativo era a poluição em todos os níveis, o trânsito e o “stress”.

Em 1998, depois de algum tempo afastada, voltei para a Igreja Católica. Conheci os Exercícios Espirituais (EE) no carnaval de 2000, no Mosteiro de Itaici, em Indaiatuba/SP. Me identifiquei com o método. O silêncio e a natureza me trouxeram uma paz e um equilíbrio surpreendentes. Nessa época, eu trabalhava como coordenadora de uma área de implantação na empresa Tecnologia Bancária, vivia submetida a muita pressão e repassava essa pressão aos funcionários que eu coordenava e por isso pensei e senti que havia encontrado “o tesouro… a pérola” (Mt 13, 44-46).

Logo a seguir iniciei os Exercícios Espirituais na Vida Cotidiana (EVC) acompanhada pela irmã Odila. Durante o EVC, na fase da eleição, ficou claro o chamado para o acompanhamento de pessoas e grupos na metodologia dos EE. Então, incentivada por minha acompanhante e após 3 retiros de 8 dias (2000-2002), iniciei a formação para acompanhante, fazendo o primeiro curso de capacitação, chamado CAP 1, em 2002. Durante o curso, constatei que a maioria dos participantes tinha feito os exercícios de 30 dias corridos. Senti o desejo de também realizá-lo e me inscrevi para o ano seguinte.

Durante esse retiro de 30 dias, em 2003, escutei pela primeira vez o apelo: “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que te mostrarei (Gn 12,1)”. É sobre o discernimento desse chamado que vou escrever a seguir. Há vários pequenos discernimentos dentro desse chamado maior e quando ficar evidente alguma regra de discernimento indicarei entre chaves o número do EE.

O retiro começou em 26/06/2003: Introdução e Princípio e Fundamento e logo no segundo dia 28/6/2003 foi proposto o texto de Gn 12, 1-4 para um tempo de oração e quando li a frase “Sai da tua terra… (Gn 12,1)” senti que esse apelo era mim! Me perguntava se estava aguardando demais a aposentadoria, me apoiando muito em seguranças terrenas e qual seria minha vocação. Seria algo além do que já fazia? Experimentei a seguinte resistência: desejo de segurança financeira, apego aos meus livros, objetos raros, fotografias das viagens. Me dei conta de que queria parecer ser boa, justa, mansa, pura e cheia de fé, no fundo por vaidade. Meu apelo e colóquio com Deus foi o seguinte: que eu possa, Senhor, com a Tua graça, amar meus irmãos e irmãs no mundo como Tu os ama. Que eu como Tu, enxugue as lágrimas dos seus olhos, lave os seus pés, semeie a vida e a esperança em meu caminhar. Que eu me entregue de corpo e alma à construção do Teu Reino, colaborando dentro de minhas limitadas possibilidades.

Terminado o retiro, permaneceu com muita força a frase: “Sai da tua terra… (Gn 12,1)”. Parece que todo lugar que eu ia, se lia essa Palavra, o que me dava certeza de ser comigo mesmo, mas eu interpretava: pensava que sair da tua parentela, era parar de “remexer” na terapia, as dores da infância inclusive muito bem tratadas no retiro: então pedi alta da terapia.

Passado mais um tempo, quando a Palavra voltou e me tocou, interpretei: minha terra é o trabalho, que conheço e domino, é um apelo à aposentadoria, para me dedicar mais a vida espiritual e à construção do Reino, mas é preciso que se cumpra o tempo! Fiz a minha parte com relação a juntar e dar entrada na papelada, até que em junho de 2005, fui demitida e aposentada, quase simultaneamente.

A Palavra voltou e eu pensei então que devia mudar de casa, pois morava numa “quitinete”, e gostaria de abrir grupos de oração inaciana em minha casa. Então comecei a procurar um apartamento maior, mas nenhum me agradava. E o chamado persistia.

Pensei em procurar, então, uma casa nos arredores de São Paulo, mais ao jeito de uma mini chácara e fui visitar várias, mas nenhuma agradava ou não fechava o negócio. Eu tinha um terreno de 1000m2 em Embu-Guaçu e pensei que poderia, talvez, construir uma casa. Resolvi ir até lá, com uma amiga, para avaliar melhor a situação e me senti desolada [EE 317] ao me imaginar morando ali. Portanto, coloquei o terreno à venda.

O apelo continuava, até que em novembro, já inscrita para realizar o EEL5 no Mosteiro de Itaici, e ainda procurando nos arredores uma casa para me mudar, me veio à mente a seguinte frase: “Porque não Indaiatuba?” Achei engraçado esse pensamento em forma de pergunta, mas pensei: como estou indo para lá, posso procurar alguma coisa e ver como me sinto.

Cheguei mais cedo e procurei alguma coisa no bairro à direita do pedágio da rodovia SP 75, vindo de São Paulo para Indaiatuba, mas as chácaras eram isoladas e me deixaram insegura. Seguindo em direção ao Centro, vi a propaganda de um condomínio fechado no caminho de Cardeal. Fui verificar, mas achei muito “chique” e com estilo padronizado.

Desisti da busca, pois era feriado e as imobiliárias que encontrei estavam fechadas. Quando estava para entrar no Mosteiro, percebi uma imobiliária bem na entrada e resolvi arriscar mais essa, que estava aberta! O corretor me mostrou em fotos muitas chácaras lindas, mas muito acima do meu poder aquisitivo, então me convidou a conhecer, o condomínio Colinas do Mosteiro e Terras de Itaici, que fica quase em frente ao Mosteiro de Itaici e caso eu gostasse, poderia comprar um terreno e construir de acordo com as minhas posses. Gostei do lugar, porque não era estilizado, os terrenos eram grandes suficientes para uma mini chácara, era bastante arborizado e silencioso. Vi um terreno interessante e acessível, mas construir era um risco a ser discernido. Fiquei de pensar, porque também queria perceber, como ecoava em mim essa possibilidade, se Deus me confirmaria aquele pensamento que tinha vindo: “porque não Indaiatuba?”

Entrei para o retiro, que para minha surpresa, se tratava justamente do processo de eleição da segunda semana dos Exercícios Espirituais. Esse tema para mim já foi sinal de que eu estava em discernimento. Escolhi para me acompanhar a Rosângela Arruda, que muito me ajudou, mas ao final eu estava ansiosa, pois pensava que, se discernisse errado, custaria muito caro consertar já que estaria com 50 anos e aposentada. Estava impressionada com a regra que indica que o anjo mau, pode assumir a aparência do anjo de luz para atraí-la para seus enganos escondidos [EE  332].

Durante o almoço de encerramento encontrei com Cecília e Hans, que moravam em Indaiatuba, vindos de Santo André, e que também são acompanhantes de retiros no Mosteiro de Itaici. Hans me aconselhou a comprar o jornal da cidade e esperar alguma oferta imobiliária. Ele me deu o telefone de uma amiga que construiu no mesmo condomínio que eu estava interessada, para eu saber um pouco mais sobre o condomínio e a questão de construir. Essa pessoa para quem liguei, me confortou quanto ao condomínio, inclusive o valor da taxa condominial muito acessível, mas me disse que teve muita dificuldade em furar um poço, precisou dinamitar e gastou para isso um carro zero. Então com mais um pouco de pesquisa sobre gastos e problemas em construir à distância, cheguei à conclusão que seria melhor comprar uma casa pronta, isto é, usei a razão em tempo tranquilo para fazer esse pequeno discernimento [EE 178].

Voltei em outro final de semana com um amigo, que gostou da cidade e do lugar, e eu fui percebendo que me sentia consolada [EE 316] com a ideia de morar nessa cidade.

Em janeiro de 2006, voltei ao Mosteiro, para realizar o curso CAP 2, já com o jornal da cidade comprado e com 3 casas em oferta nesse mesmo condomínio. Cheguei mais cedo, procurei as imobiliárias, visitei os imóveis e continuei a observar em mim o que a possibilidade de mudar para uma dessas casas me provocava. Predominava a consolação!

Para minha surpresa, assim como o retiro EEL5, descobri que o curso CAP 2 é predominantemente sobre prática de acompanhamento e discernimento espiritual. Essas coincidências sobre discernimento espiritual, me soavam como confirmação desse chamado e eu pude experimentar na prática, muitas das indicações de Santo Inácio: acabei por me inclinar pela casa mais barata e simples para que qualquer pessoa, independentemente do nível social, pudesse vir à minha casa e se sentir à vontade. Porém, a casa era bem popular e eu tinha receio que fosse frágil demais. Então combinamos que o corretor traria um engenheiro para avaliar a casa no sábado após o almoço. Antes de sair com o carro para esse encontro, pedi à Nossa Senhora que me indicasse, através de algum sinal, se a casa era realmente essa: eu me dirigia à Mãe Peregrina que estava no chaveiro do carro. Quando chegamos à casa e a dona abriu a porta da sala, a capela da Mãe Peregrina estava sendo recebida nessa casa, sobre a mesa perto da janela! Fiquei tão consolada, senti ser de fato um sinal e a dona da casa disse que se fechássemos o negócio eu continuaria a recebê-la todo dia 15 de cada mês.

Na manhã seguinte, domingo, o texto indicado para oração era o de Marta e Maria (Lc 10, 38-41). Pedi a graça de Jesus confirmar o sinal dado por sua mãe e me veio a seguinte contemplação: Eu via Jesus que vinha de Jerusalém bem cansado por uma estrada cheia de poeira e chegava a Betânia na casa de seus amigos para descansar; eu me coloco à porta e lavo seus pés cansados em uma bacia, mas imediatamente a cena se muda para a casa que eu  pretendia comprar; eu estou do lado de dentro na porta da sala, ele entra e vai até a imagem da Mãe Peregrina, silenciosamente, mas para mim parecia confirmar a Mãe, eu o recebo como hóspede, ofereço uma rede que ele aceita e eu o sirvo da melhor maneira possível. Ao final ele me diz: receba os meus amigos, como você me recebeu e escute-os com toda a atenção!

Voltei dessa oração muito consolada e sentindo que a escolha estava feita! [EE 175]. À tarde passei na casa, encontrei o casal morador e o vendedor sentados em um banco em frente à casa e negociamos valores.

No dia seguinte, contatei a imobiliária para dar andamento no negócio com o novo valor. Mas, nesse mesmo dia, os donos da casa entraram em contato comigo, propondo tirar a imobiliária do negócio, pois assim poderíamos baratear para ambos os lados; eu fiquei de pensar. No outo dia, na oração da manhã, estava indicado justamente o EE 170 que afirma que as coisas sobre as quais eu queira fazer eleição devem ser boas em si. Aceitar a proposta dos proprietários seria desonesto. Então pedi a graça de abrir mão da casa [EE 179] se eles impusessem essa condição, o que foi um grande exercício, pois já tinha percorrido um longo caminho para chegar até aqui. Enfim, contatei a imobiliária para finalizarmos o negócio e, como os vendedores aceitaram que fosse via imobiliária, iniciamos a geração da papelada, que durou uns 2 meses. Por várias vezes, diante das dificuldades que surgiam, eu abria mão da casa [EE 179], pois entendia que, se fosse da vontade de Deus, deveria ser um negócio limpo e transparente.

Finalmente, em abril de 2006, realizamos o negócio e me mudei para Indaiatuba, trazendo minha mãe e irmã para me ajudarem nesse início, nessa adaptação. Estranhei bastante o silêncio e os ruídos desconhecidos, tive muito medo de ficar sozinha nessa casa até 16 de julho, dia de nossa Senhora do Carmo que finalmente me trouxe a graça da paz e da confiança em Deus.

Esse discernimento (sair da minha terra), realizei seguindo o segundo tempo de eleição, isto é, observando as consolações e desolações [EE 176].

Não senti falta de São Paulo, nem de nada do que a cidade me oferecia. Logo me engajei na Comunidade Mãe Rainha, gostei muito de minhas vizinhas, muito acolhedoras, e senti tudo isso como mais uma confirmação de que Deus tinha me chamado mesmo para essa terra.  Eu só não sabia qual seria a missão dentro desse chamado, então mantive aberta minha empresa de informática, caso fosse da Vontade de Deus que eu continuasse a trabalhar por aqui; fiz curso no SESI de cultivo de hortaliças e jardinagem, caso fosse trabalhar com flores; realizei pequenas melhorias na casa e fiquei aguardando outro sinal de Deus que chegou no dia de Santo Inácio, 31 de julho, durante o  almoço no Mosteiro, quando fui convidada pra fazer parte da CVX e para ajudar na creche no bairro do Tombadouro: aceitei ambos! Mais à frente me tornei acompanhante de retiros no Mosteiro de Itaici e em 2012 trouxemos os EE para a Paróquia.   

Moro nessa casa até hoje, mas durante esse tempo, por duas vezes fiz novo discernimento. Em setembro de 2007, acompanhando um retiro de 8 dias, senti uma moção: “eu quero que você se consagre a mim!” e durante alguns meses discerni se o Senhor me chamava para a vida religiosa. Foi bom exercitar, abrir mão da casa e do lugar, mas ao final do discernimento, em um retiro de 8 dias personalizado, me identifiquei com Nossa Senhora que se consagrou a Deus na vida cotidiana e entendi que essa experiência foi como o sacrifício de Isaac (Gn 22, 1-18).

Alguns anos mais tarde, fazendo um retiro na comunidade Betel em Andradina/MS, senti um novo apelo de entrar para essa Comunidade, mas prosseguindo no discernimento, este não se confirmou, apesar de eu estar disposta a deixar tudo e me juntar a eles.

Discernir a vontade de Deus é encontrar com nosso desejo mais profundo.

Depois de instalada na “Terra Prometida”, essa pequena chácara em que resido, me lembrei que na década de 1990, voltando de ônibus de Araraquara/SP, quando me aproximava da cidade de São Paulo, rezei a Deus no meu coração: Senhor quero morar no interior, lá vou rezar mais que nessa cidade poluída e muito agitada. Mas a resposta do Senhor foi a visão de uma chuva de graça caindo do céu, sem limite de território, tanto no interior, como na grande cidade. Eu entendi que poderia rezar em qualquer lugar, e concordo até hoje, mas concluo que discernir a Vontade de Deus é encontrar com nosso desejo mais profundo!

Bibliografia

  1. A BÍBLIA de Jerusalém. São Paulo: Paulinas, 1985.
  2. INÁCIO DE LOYOLA, Santo. Exercícios Espirituais. 6. ed. São Paulo: Loyola, 2012.

Maria Eugênia Rodrigues é leiga, pertencente à Comunidade de Vida Cristã (CVX), comunidade Nossa Senhora de Montserrat, Indaiatuba (SP).

Imagem: Ligia de Medeiros — Muda (azulejo)
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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

4 comentários Deixe um comentário

  1. Que lindo depoimento!
    Obrigada por nos ajudar a ver Deus agindo em todas as coisas do começo ao fim! Fiquei com vontade visitar esse acolhedora chácara ! ☺️
    Nos ajuda a perceber Deus em todas as coisas e nos chama a viver uma fé autêntica ! Gratidão por sua partilha!
    Obrigada por compartilhar e nos ajudar a ver Deus atuando em todas as coisas!

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  2. Maria Eugênia foi minha acompanhante no EVC em 2020 e até hoje mantemos contato através de outros encontros.
    Neste tempo do EVC conheci sua história, notadamente em relação ao discernimento para a mudança de cidade e que implicaria também numa grande mudança de vida, segundo a vontade de Deus. Maria Eugênia me ajudou muito neste caminho de discernimento num momento importante da minha vida, me mostrando como Deus pode nos tocar e nos falar através das coisas, pessoas e toda Sua criação.

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