Transfigurado

Simone Furquim Guimarães

A leitura de hoje é Lc 9,28b-36. O Pai exorta-nos a ouvir Jesus:

Este é o meu Filho, o Escolhido; ouvi-o!

Lc 9,35

A teologia que os primeiros cristãos nos ensinam, conforme o Evangelho de Lucas, diz que Jesus foi escolhido para revelar o Deus presente, o Deus amoroso e misericordioso. O Deus que quer se manifestar para seu povo, como se manifestou para Abraão, para Moisés e para Elias.

Nos versículos anteriores deste capítulo 9 (cf. Lc 9,22-26), Jesus anunciou aos discípulos sua paixão e morte; mas que no final será glorificado. Disse que quem o segue “deve tomar sua cruz”. Ensina que o caminho para construção da vontade de Deus aqui na terra não é fácil, enfrenta dificuldades; ou seja, passa necessariamente pela cruz, pelo sofrimento. A cruz faz parte do caminho de Jesus e do caminho das comunidades cristãs: “É necessário que o Filho do Homem sofra muito, seja rejeitado pelos anciãos, chefes dos sacerdotes e escribas, seja morto e ressuscite ao terceiro dia” (Lc 9,22).

É importante esclarecer que enfrentar a cruz não quer dizer que a pessoa deve se entregar ao sofrimento por si só. Não é isso que Jesus quer, nem para ele e nem para seus seguidores e seguidoras. Acontece que ele tem consciência de que construir o Reino de Deus (o projeto de Deus) aqui neste mundo, exige enfrentar as incompreensões e perseguições dos poderes vigentes, das instituições que querem manter o poder dominante, seja político, cultural, econômico ou religioso.

E os primeiros cristãos entenderam esse ensinamento de Jesus, tanto que continuaram sua missão. Compreenderam que a morte não é o fim último. Jesus permanece glorioso (presente) em cada cristão e cristã que segue os seus ensinamentos.

A transfiguração no alto da montanha é prefiguração de sua glória; evoca os acontecimentos no Sinai (Ex 34,29-30). A presença de Moisés representa a Lei que deve ser cumprida, e a presença do profeta Elias representa a profecia que não deve calar. Eles se foram, desaparecem; o que permanece é Jesus.  Para os primeiros cristãos, Jesus é a chave para entender o Primeiro Testamento. Ele é a inspiração para as igrejas prosseguir na missão e não impedir que a revelação fique circunscrita para alguns grupos, como queria Pedro, ao pretender construir tendas no alto da montanha.

Em seguida, Jesus desce e vê a multidão em busca do pastor (Lc 9,37). O Pai quer de nós ouvidos atentos para perceber e sentir a presença de Cristo em nossa vida, na vida dos que sofrem: os empobrecidos de hoje.

Jesus é o Filho glorioso, transfigurado (metamorfose, do grego), ressurreto, que vence a morte! Que possamos presenciar a glória do Senhor e passemos por essa transformação (metamorfose) para vencer as várias situações que produz a morte.


Ouça no Podcast Ignatiana [link]


Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/Planalto Central).


Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.

Desde outubro de 2020, também disponível no podcast Ignatina.

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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