Sinodalidade: a Igreja no século XXI

Luiz Fernando Krieger Merico

Mística do século XXI — programa nº32

Reflexões a partir das encíclicas
Laudato si’ e Fratelli tutti

O futuro vai nos mostrar o caráter profundamente revolucionário das encíclicas Laudato Sí e Fratelli Tutti. E vai mostrar também a importância delas na história da igreja. Estas encíclicas oferecem à pregação cristã uma oportunidade de retomar de um modo novo, a forma como é feita a transmissão da fé. A crise ecológica/ambiental e nossa multifacetada sociedade, demonstram claramente que não existe um jeito definitivo ou tradicional para a pregação cristã. A pregação, no seu amplo conjunto, tem que se adaptar aos tempos vividos. Por exemplo, a igreja parou de celebrar missas em latim – uma língua morta que ninguém entendia – porque era preciso ser entendida e ter algum diálogo com os fiéis. Algo parecido precisamos fazer hoje, e rápido!

A defesa da criação é tão antiga quanto o livro do Gênesis. Mas há uma defasagem, na verdade um verdadeiro abismo, entre as necessidades do momento histórico que vivemos, e a forma como a pregação e a igreja em geral manifestam-se sobre este assunto.

Tudo o que se entende, hoje em dia, como tabu no âmbito da igreja tem que ser colocado em discussão profunda: o celibato, o papel das mulheres, os processos decisórios, a centralidade na hierarquia, a formação do clero. Tudo isto tem dificuldade de se relacionar com a dinâmica do mundo atual… e produz dificuldade na transmissão da mensagem – do próprio evangelho e das encíclicas que dele derivam. É muito difícil imaginar a disseminação da Laudato Si e da Fratelli Tutti se os mensageiros não assimilarem seus conteúdos e se não tiverem mais conexão com as gerações presentes, suas realidades e seus desafios.

Sim, porque o ser humano não mudou depois de 2.000 anos. A mensagem é sempre pertinente, mas os mensageiros às vezes aparecem em uma roupagem de tempos passados, com uma prática de tempos passados, que não se justificam mais, e esse não é o melhor serviço prestado à própria mensagem… Por esse motivo, devemos nos adaptar. Não para mudar a mensagem, evidentemente, mas para que ela possa ser compreendida e assumida no mundo como ele é hoje!

O papa Francisco, de novo, dá algumas pistas importantes. Ele lançou em outubro passado um Sínodo sobre a “sinodalidade” da igreja. O termo grego “sínodo” significa “caminhar juntos”. A “sinodalidade” expressa a participação e a comunhão em vista da missão. A unidade, a variedade e a universalidade do Povo de Deus devem se manifestar no caminhar juntos.  Entretanto, em virtude das resistências da igreja hierárquica, o próprio Papa alerta que o conceito de sínodo é “fácil de exprimir em palavras, mas não de ser colocado em prática”. As palavras-chave do Sínodo são humildade, diálogo, mudança, discernimento, deixar para trás os preconceitos e estereótipos, superar o clericalismo, promover a inclusão – tudo isto em um mundo pluricultural e plurireligioso. Há aqui uma real oportunidade para a igreja retomar sua conexão com o mundo circundante. Se você ainda não questionou seu pároco sobre a sinodalidade em sua paróquia, faça isso imediatamente.

As decisões e mudanças na igreja sempre foram muito lentas. Isto, antigamente, era até uma virtude, na medida que permitia reflexão sobre determinados temas. Mas na sociedade humana atual, a história foi acelerada – as mudanças acontecem muito, mas muito mais rapidamente do que antes. A aceleração dos tempos tem que ser compreendida pela igreja e respostas tem que ser formuladas, sob pena de acelerada perda de conexão com o mundo real.

As ameaças à nossa casa comum são gigantescas… as nossas respostas também devem ser.

Nossas reflexões sobre a mística do século XXI, a partir das encíclicas Laudato Si e Fratelli Tutti, sempre estão presentes aqui, no blog Ignatiana.


Ouça no Podcast Ignatiana

Encíclicas ecofraternais do Papa Francisco

Laudato si’, sobre o cuidado da casa comum (2015)
Fratelli tutti, sobre a fraternidade e a amizade social (2020)

Luiz Fernando Krieger Merico é graduado em Geologia (UFPR), mestre em Análise Ambiental (UNESP), doutor em Geografia (USP), possui aperfeiçoamento no Schumacher College (Inglaterra) em Economia Ecológica. É autor do livro A transição para a sustentabilidade.

Ecologia Mística do século XXI

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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