Um perfume que não existe em free shop

João Carlos Pereira

Se dei a impressão, na crônica passada, de que tenho horror a free shop, mandei bem. Poucas coisas eu detesto mais do que os espaços dos grandes aeroportos (o que não inclui o de Belém, é claro, mas a fissura por compras fez surgir uma espécie de amostra grátis desse ambiente de consumo) destinados à venda de produtos de marca, com livre trânsito na alfândega. São perfumes, roupas, acessórios, eletrônicos, bebidas, comidas, cigarros, bolsas, maquiagens, brinquedos, doces, bombons e tudo mais que puder fazer brilhar os olhos da turistada. Livros não há, previno. Mas quem vai a um free shop pensando em livros? Essezinho aqui. Eu.

Eles estão estrategicamente posicionados, para que o povo largue nos caixas os euros ou dólares que sobraram da viagem, ou se estrepem no cartão de crédito. Este que vos escreve não dá a menor bola para nada que é oferecido, porque sabe exatamente o valor de cada vintém levado na pochete escondida na cintura. Tudo lá é muito mais caro do que em qualquer outro lugar, mas o povo se dana a comprar.

Durante algum tempo, cada vez que passava por essas lojas, pegava um perfume. Um dia, reparei, tinha um saco cheio de caixas fechadas, que jamais seriam abertas. Aos poucos fui presenteando os amigos aniversariantes, até que o estoque acabou. Não sei, juro por Deus, a razão de haver comprado tanto perfume. Acho que era compulsão, só podia ser.

O único perfume que uso, seja para ir bem ali, comprar um pão, ou para uma festa à noite, é uma essência de patchouli, vendida apenas em supermercado. Um amigo, certa vez, insistiu que se tratava de uma colônia francesa, cujo aroma conhecia bem, mas não conseguia lembrar o nome. Toda vez que me encontrava, insistia para que revelasse o nome. Não adiantava eu dizer que era patchouli, da Mithus, porque ele não acreditava.

Há anos e anos e anos uso o mesmo perfume. Por duas vezes, a fábrica deu um tempo na produção e eu usava uma gotinha, para poupar. Não dava certo. Gosto de me encharcar de perfume, me banho com a colônia, que já ficou impregnada na minha pele, Nos demos tão bem, meu perfume e eu, que sou incapaz de viver sem ele. Quanto custa? Acho que o vidro pequeno não chega a 15 reais.

Nos meses em que fiquei sem meu estrato, como se dizia antigamente, passei baixo. Fui ao Ver-o-Peso, comprei a raiz, álcool próprio para produzir perfumes, fixador e tentei produzir meu cheirinho. Foi um desastre. Me disseram que na Perfumaria Orion acharia a solução para o meu maior problema. De fato encontrei um substituto meia-sola, não por deficiência do perfumeiro, mas por conta de minha exigência. Se não tinha tu, ia tu mesmo.

Um dia, passando pelo corredor do supermercado, vi meu perfume exposto. Pense numa criatura feliz. Comprei logo uns cinco fracos e, todas as vezes que vou lá, aumento o estoque. É como se fizesse estoque para tempos de guerra. Hoje tenho muitos vidros e sempre compro um ou dois. O medo de que a fábrica suspenda a fabricação virou paranóia.

Minha saudosa amiga Leonor Severa Miglio não usava outro perfume que não fosse Callandre, de Pacco Rabane. Não era exatamente uma marca fácil de achar. Nem tão barata. Assim que colocava os pés num free shop, ia procurar e comprava logo dois: um, para dar de presente no aniversário dela, em outubro; o outro, no Natal. Todos os amigos que saiam do país comprava para ela. Severa era merecedora de todo Callandre do planeta, porque era uma criatura rara. Um dia, na cidade do Porto, a vendedora me avisou: eu tenho apenas uma caixa e é a última. Eles vão parar de fabricar.

Talvez a severa tenha usado o derradeiro frasco de Callandre, mas estava prevenida. Até hoje, quando passo pelo setor de perfumes, pergunto se ainda há. Normalmente, a vendedora é novinha e lamenta, dizendo que nunca ouviu falar em Callandre. No céu deve existir à vontade e a nossa Severinha , com certeza, continua cheirosíssima, desfilando sua elegância nos jardins de Nossa Senhora.

Piores do que o free shop são as lojas de marca que acompanham o viajante até quase a porta do avião. Como a ordem do consumismo é sugar até a última cédula dos fissurados por compra, os aviões ainda oferecem um serviço de venda a bordo. Depois da refeição, os comissários passam com carrinho de “ofertas” anunciadas nas revistas. Quem ainda tem grana, paga em espécie. Quem já está liso, pode usar o cartão.

Eu olho com atenção o catálogo disfarçado de revista e procuro um livro ou um CD. Mesmo sabendo que essas “inutilidades” não despertam a atenção de ninguém, ainda perco meu tempo.

Se já desprezava tudo isso, antes de começar a me desapegar das futilidades, agora, então, depois que o corona vírus mostrou que tem a força, é que não presto a menor atenção e não acumulo mais nada. Aliás, minto: olho para o preço dos vinhos e me assusto com os rótulos caríssimos. É idiotice pensar que não há compradores para as grandes safras ou para os maltes envelhecidos desde a eternidade. Claro que há. E muitos. Não existissem, para que seriam produzidos?

Pobre sou eu, que não dou três mil reais por uma garrafa de vinho.

O deslocado do eixo do mundo sou eu.

Ainda assim, sou feliz por não precisar de free shop e de grifes na minha vida.

Belém, 23 de setembro de 2020.


João Carlos Pereira (Belém do Pará, 1959-2020) jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.

Série Diário de um desespero – ou quase
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Imagem: Lula Cardoso Ayres — Pássaro vermelho, 1952. Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras.

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