Nossa Senhora da Amazônia e, talvez, do Marajó

João Carlos Pereira

Ao longo de tantos anos estudando a história do Círio, encontrei dezenas, centenas de invocações ao santo nome da Virgem Maria de Nazaré. Era Nossa Senhora para todos os gostos. Um dia, achei uma lista completa com exatos mil nomes para a Mãe de Jesus. Cada nome é uma forma carinhosa de homenageá-La. A nossa santinha, de Nazaré, aparece como a 478º. da relação, onde existem denominações curiosas, como Nossa Senhora do Perpétuo Socorro contra os raio e as tempestades, a do Belo Amor, a dos Esposos, a dos Olivais, a dos 33, a do Perfume da Fé, a Aparecida dos Ferroviários e mais centenas, muitas centenas.

Esta semana, pelo zap, recebi a informação sobre a que poderia ser a milésima primeira invocação: Nossa Senhora da Amazônia. Como o mundo virtual está povoado de gente que não tem o fazer e, na falta de uma atividade, inventa moda, fui averiguar, antes de passar uma fake news.

Não é que a Santa existe?

Não sei se há uma estátua de Nossa Senhora da Amazônia, mas quadro foi pintado. Quadro e flâmula. Até o papa Francisco já tem a sua. Nesse sentido, os devotos de Santa Dulce dos Pobres foram mais rápidos e mandaram preparar uma imagem da freira brasileira, conhecida como Anjo Bom da Bahia. Tudo bem que a peça não mereceu o capricho que uma santa tão cheia de virtudes, e da qual me tornei devoto, merecia. Mas antes ter do que não ter. Até já ganhei uma e me tomei de muito afeto por ela.

Mas esta Nossa Senhora da Amazônia é curiosa. Ela foi desenhada por uma jovem de 23 anos chamada Lara Denys, que venceu um concurso nacional para escolher os contornos da Senhora amazônica. Seu vestido traz uma estampa simples, baseada na arte dos indígenas Waimiri-Atroari. O manto tem um tom mais escuro que o tradicional azul celeste. O véu branco representa a pureza da mãe de Jesus Cristo, que aparece nos braços da Nossa Senhora também com traços caboclos. É um curumim escritinho.

Se a proposta era não emprestar sensualidade à nova imagem, a artista errou a mão. Ela parece mais mulher do que santa e está sobre uma vitória-régia, cercada por orquídeas da Amazônia.

A proposta é bem bonita e o foi levada ao papa Francisco, que parece ter gostado. Francisco é Jesuíta e tem a cabeça aberta para as coisas do mundo. Logo ele para reclamar de algo tão natural e, ao mesmo tempo, tão divino, como o corpo humano. Com o OK do Sumo Pontífice, os amazonenses mandaram construir uma igreja na forma de uma barca, que é o transporte típico de nossa região.

Se alguém acha que essa notícia é furo de reportagem, digo como antigamente: “margarida seca, 1,2,3”. A expressão, sem nenhum sentido lógico, era usada quando alguém aparecia com uma “novidade” tipo essa, que foi notícia em 2011.

Nove anos se passaram da escolha do ícone de Nossa Senhora da Amazônia e, por incrível que pareça, ninguém por aqui sabia disso. Se houve repercussão foi em Manaus. Em Belém, ninguém tomou conhecimento.

Acho essa proposta com forçar a barra para emplacar uma Nossa Senhora da Amazônia (na verdade, dos amazonenses), quando temos Nossa Senhora de Nazaré, que é Mãe, Rainha e Padroeira destas terras todas. É a mesma coisa que querer comparar a importância da festa de Nossa Senhora de Nazaré, em Belém, com dois milhões de fieis, com a da Senhora Aparecida, em São Paulo, com 200 mil. Em vez de somar o propósito de exaltação, o povo insiste num bairrismo anacrônico e de traçado retrógrado.

Paraenses e amazonenses têm essa birra ridícula, igualzinha à de brasileiros com argentinos e de gaúchos com catarinenses. Precisamos de uma Nossa Senhora da Amazônia? Com certeza, sim. Mas sem que essa crença venha rivalizar, de maneira artificial, com o que está colocado há séculos, que é a devoção amazônica pela Virgem Maria de Nazaré.

Quando contei ao Bernardino Santos sobre esta “nova” santa, ele ficou entusiasmadíssimo e quis saber como se faz um santo. Mas Nossa Senhora já está na glória dos altares desde sempre. O que muda é maneira de chamá-la. Apaixonado pela terra de seu pai, ele teve logo uma ideia: criar a Nossa Senhora do Marajó.

O caminho não é difícil. A Virgem Maria é amada e venerada (vejam bem: ve-ne-ra-da, não adorada) em todo canto deste planeta. Logo, se for realizado um concurso e a Igreja não se opuser, pode surgir, em honra à crença marajoara pela Rainha dos Céus, uma Nossa Senhora do Marajó. O Vaticano dando OK e o Bispo local autorizando, edificar o templo será o de menos.

Há grandes artistas aqui capazes de esculpir esta nova santa. Será a 1002 invocação.

Bora, Bernardino. Lança oficialmente a ideia. Ela tem tudo para dar certo. Quanto mais demonstrações de amor por Nossa Senhora, melhor.

Com certeza Nossa Senhora vai ficar muito feliz com mais esta homenagem, que Ela recolherá à Glória de seu filho, Jesus.

Católicos pensam assim.

Belém, 18 de setembro de 2020.


João Carlos Pereira (Belém do Pará, 1959-2020) jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.

Série Diário de um desespero – ou quase
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Imagem: Lara Denys — Nossa Senhora da Amazônia, 2011.

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