Um poeta com os pés no chão e a cabeça nas nuvens

João Carlos Pereira

O folclore da Física registra que, certa vez, Albert Einstein estava tão envolvido com suas questões sobre a relatividade que, caminhando pelos corredores da Universidade onde lecionava, não recordava se havia almoçado ou não. Na dúvida, chamou um aluno para perguntar de que lado ele, Einstein, estava vindo. O estudante se assustou com a indagação e disse: “o senhor está vindo de lá, professor”. O gênio virou-se, reparou na paisagem e se justificou: “eu não lembro se almocei ou não, mas se vim de lá, da direção oposta ao restaurante, é sinal de que almocei”.

O folclore da Filosofia registra que, certa vez, o professor Benedito Nunes havia terminado a aula, na Universidade Federal do Pará, e ia voltar para casa, dirigindo seu fusca. Guiado pelo chamado “piloto automático”, abriu a porta do carro, ligou o motor e saiu. De repente, reparou que, sobre o banco do carona, havia um exemplar de “O Globo”. Diz a lenda que Benedito teria parado o veículo e pensado alto: “eu não compro ´O Globo´. Logo, esse carro não é meu”. Silogismo de facílima compreensão. Ato contínuo, deu meia-volta e estacionou no mesmo lugar. Só então foi procurar o seu carro. Ao que parece, nunca foi acusado de roubo. Naquele tempo, a chave de um fusca servia para todos os fuscas. Se é verdade, não posso garantir. Quem me contou isso, há quarenta anos, foi minha saudosa amiga Elanir Pessoa Gomes da Silva, a Lana. Mas é bem provável que seja.

A escola simbolista produziu uma categoria de poetas chamados de nefelibatas. Eram os escritores que viviam com a cabeça nas nuvens, em outro mundo, carregando uma atmosfera mística, subjetiva e pessoal para a poesia. Leonam Godim da Cruz era um nefelibata. Tanto como escritor, como na vida real.

Leonam Gondim da Cruz foi um homem raro. Era amigo queridíssimo, grande poeta e sábio. Um dos homens mais generosos e, ao mesmo tempo, mais desligados que conheci. Sua bondade era tamanha, que este pequeno defeito passava despercebido. Leonam poderia ser chamado de advogado dos pobres. Ele mesmo só não morreu pobre, porque amava demais a família para deixá-la passar necessidade. Fosse sozinho no mundo, viveria muito bem numa barraquinha, cercado de livros, deitado na rede. Ganhava o suficiente para manter a casa com dignidade, mas não enriqueceu. Seu último carro era do tipo popularíssimo, o mais barato de todos no mercado, do qual o filho, o também poeta e “imortal” Leonam Jr., não consegue se desfazer. Os impostos estão em dia, a conservação é impecável, mas o bem adormece em na garagem, como lembrança do pai.

Leonam, cuja inversão das letras forma a palavra Manuel, era saudado por seu amigo e confrade Alonso Rocha da maneira mais alegre possível: “fala, Manuel ao contrário”, dizia o poeta, tornou-se um contador de histórias. Um “conteur”. Era adorável ouvi-lo falar sobre qualquer assunto. Tinha o domínio tanto do registro oral, quanto da escrita. O prosador virou personagem de si mesmo. O homem desprovido de vaidades era também desprovido do senso prático. Sobretudo quando o assunto eram os carros.

Uma vez, comprou um fusca modelo “pé de burro”. Foi o primeiro da marca a circular em Belém. Na época, ter um carro desses fazia o dono virar celebridade. O diga o hoje desembargador Ronaldo Valle, que, muito jovem, gostava de ver o veículo passar diante da porta de sua casa, na Travessa 9 de Janeiro.

Leonam Cruz não dava a menor bola para a manutenção do automóvel. Para ele, o carro não precisava de revisão, de água no radiador, de bateria (nem sabia o que era uma bateria), de troca de óleo, de nada. Para ele o carro nascia e pronto. Funcionava igual a uma árvore. Como o Fusca sempre foi um carro maravilhoso, raramente tinha problemas. Sorte do Leonam.

Nem tudo na vida, porém, são pétalas de rosa. Um acidente, uma solda mal feita, muita água batendo na parte de baixo, qualquer coisa nesse sentido consumiu o piso do “pé de boi”. Sabe o carro do Fred Flintstone, que não tinha assoalho? O dele estava igual. A corrosão levou a placa de metal do lado do carona, o que impedia qualquer pessoa de sentar ali. Leonam se incomodava com isso? Para ele tanto fazia.

Um dia, uma antiga colega de Caixa, a advogada Amélia Franco, a quem o poeta tratava como se fosse sua filha, pediu carona. Se alguém achou que ele ficou envergonhado pelo buraco aberto nos pés do carona, tão grande que permitia visão completa do asfalto, achou errado. Abriu a porta e a colega precisou equilibrar as pernas, uma a leste, outra a oeste, até chegar ao destino. Qualquer pessoa teria inventado uma desculpa. Com o poeta nefelibita essa chance não existia.

Durante algum tempo, o poeta-cabeça-nas-nuvens dedicou-se à charutagem. Como não consumia álcool, achava-se no direito de dar uns pitos, alegando que não fazia mal, porque não tragava. Rigorosíssimo com os prazos processuais – jamais perdeu um sequer – mantinha, atrás de sua mesa, um calendário onde indicava a data-limite de ajuizar os processos. Um dia, nosso nefelibata estava mais nefelibata do que nunca. Sem computador, todos os documentos eram datilografados e revisados página por página por ele. Certo de que estava com uma caneta na mão, o Chefe do Departamento Jurídico da Caixa “assinou” um processo com o charuto. Em questão de segundos, o trabalho da secretária-datilógrafa estava perdido. A papelada incendiou-se aos olhos do charuteiro.

Numa outra vez, Leonam Cruz e Nélson Chaves, à época também funcionário da Caixa e vizinhos, se encontraram no final do expediente e começaram a caminhar no mesmo sentido. Nélson tinha o hábito de retornar para casa a pé. Leonam, não. Depois de andar três quarteirões, o poeta-advogado parou e disse ao amigo-engenheiro: “Nélson, temos de voltar. Eu vim de carro. Vamos, eu te dou carona”.

O homem que foi aprovado em concurso para Juiz e assumiu uma comarca do interior abriu mão da magistratura porque o salário de juiz era insuficiente para honrar os compromissos da casa. Novamente submeteu-se a outro concurso, desta feita para a Caixa Econômica, da qual havia se afastado para tentar a magistratura, e retornou ao antigo emprego que, à época, pagava quatro vezes mais que o Judiciário.

Hoje, o panorama é outro, mas quando se tem família para sustentar, os sonhos ficam para depois. Ou então se transformam em literatura.

Com Leonam Cruz foi assim.

Belém, 11 de setembro de 2020.


João Carlos Pereira (Belém do Pará, 1959-2020) jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.

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Imagem: Maurício Nogueira Lima — sem título, 1984. Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras.

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