A deliciosa (e perigosa) comida remosa

João Carlos Pereira

Tinha para mim que só encontraria o significado da palavra remoso no dicionário do Comendador Sobral, por imaginar que se tratava de uma expressão típica do Norte. Achei variação do verbete na página 3125 do quarto volume do dicionário “Caldas Aulete”, que ainda preservo na biblioteca por ter sido presente do Denis Cavalcante. Na verdade, há remoso, que remete para reimoso, também encontrável nas falas do Rio Grande do Sul. Tem a ver com reuma, ou reima, que significa mau gênio, na área dos pampas. É também alguma coisa que faz mal à saúde, compromete o humor.

Em condições normais, nada é remoso. Mas basta um dente extraído, uma cirurgia, um parto, que quase tudo ganha essa condição. Caranguejo, peixe de pele, mariscos, carne de porco e até ovo recebem logo a perigosa classificação. Tudo que cisca na água é remoso. Até peru. Num minuto, comidas gostosas viram veneno. Oferecer um camarãozinho, desses regionais, que dão cor salmão ao guará, é o mesmo que decretar a piora ou a morte a um doente.

Não se sabe bem o estrago que um alimento remoso pode produzir no organismo. Mas que faz mal, faz. A medicina ainda não evoluiu o suficiente para achar um antídoto para a moléstia. Comida remosa faz surgir uma secreção que atrapalha a cicatrização. Ou então aumenta o nível de açúcar no sangue.

A professora e jornalista Iolanda Maués me disse que, antigamente, os médicos recomendavam que as parturientes comessem bacalhau para ter mais leite. Hoje, do jeito como as coisas estão, capaz de ser mais barato comprar uma vaca. Mas ela adverte: bacalhau também é remoso. O amigo José Maria Toscano ensina que comidas remosas são ricas em substâncias, que podem acelerar um processo infeccioso. Mas não desencadeiam um infecção.

Como não sou da área médica, estou à vontade para meter minha colher de leigo nesse mingau. Alguns médicos daqui franzem a testa, não autorizam, nem desautorizam. Não dizem nem sim, nem não. São fieis à cultura da terra. Sinal de ampla sabedoria. Se o paciente tem medo de comida remosa, recomendam não arriscar. Pode não fazer mal, mas também pode. Não é comprovado o malefício, mas ninguém é besta de negar.

Fora de Belém, ninguém sabe o que é remoso. Logo, se não sabe, não existe. Mas quem tiver um “Caldas Aulete” ou puder acessar a internet vai encontrar a palavra. E como palavra puxa palavra, melhor não brincar com coisa séria. Eu não brinco.

A Amazônia, a querida Amazônia, como diz o papa Francisco, possui saberes que nem a vã filosofia pode imaginar. Aqui se benze criança, se tira mau-olhado, se cura espinhela caída, se sangra tronco de árvore e a seiva vira remédio poderoso, se ferve uma folha, se abre um cipó, se evoca um espírito da mata ou dos rios e o problema desaparece.

Eu acredito em tudo que se diz nas barracas das erveiras do Ver-o-Peso e naquilo que aparece nos livros de folclore como lenda. Se mundo amazônico sequer foi descoberto, quanto mais estudado. Nestas terras, o impossível não se discute.

Comida remosa faz parte do que há de melhor no cardápio e integra a lista do que é proibido é que é bom. E por que estou falando nisso agora, tamanha segunda-feira? Porque basta não poder, para ter vontade.

Semana passada, fiz uma cirurgia na boca e puxei assunto de comida remosa com o dentista. Ele me olhou desconfiado e disse: meus professores de São Paulo nem sabem o que é isso, mas eu respeito. Respeito a crença das pessoas. Na dúvida, melhor não arriscar.

Quem duvidar, que desafie. Eu não tenho essas coragens.

P.S. Versão ampliada da crônica publicada na edição de 31 de agosto de 2020, de O Liberal.


João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Antonio Henrique Amaral — Banquete, 1986. Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras.

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