A Vida é maior do que o Templo

Simone Furquim Guimarães

A leitura do Evangelho proposta pela igreja hoje é Lc 6,1-5. Trata-se da Boa Nova: a vida é maior do que o Templo (v.4) com suas normas.

Mais uma vez, há um confronto entre a “novidade” estabelecida por Jesus – o Filho do Homem – e “os moralistas de plantão” (os fariseus), engessados em leituras fundamentalistas da Lei.

A Lei do descanso no dia de sábado: “Seis dias trabalharás; mas no sétimo descansarás, quer na aradura, quer na colheita” (Ex 34,21) é fruto da preocupação com o descanso do trabalhador que era explorado no exílio da Babilônia (Dt 5,13-15). O sábado tornou-se um dia santo, dia de celebração de Javé Deus (Dt 5,13).

Porém, no pós-exílio (ano 539 a.C), com a reconstrução do Templo e instauração da religião judaica, os casuístas da época e os sacerdotes do Templo distorceram a Lei e a tornaram em normas pesadas, sacrificando as pessoas que desobedecessem. O transgressor era passível de penas graves (Ex 31,13-17). Segundo o livro de Números 15,32-36: um homem foi morto por apedrejamento por ordem do sacerdote maior (Moisés) e determinação de Javé (Deus) por ter apanhado lenha no dia de sábado.

Jesus observava que muitas vezes o Templo, a religião estava a serviço das autoridades religiosas e não para produzir vida para as pessoas. Sabendo que os fariseus e escribas procuravam na Lei (Torá) regras para condenar, Jesus procurava também encontrar nas Escrituras fatos para salvar as pessoas, como fez utilizando dois casos da Lei (Nm 28,9 e Lv 24,5-9).

Jesus desconstrói a interpretação fundamentalista da Lei e nos mostra o bem maior que Deus quer para todos nós, que Deus quer que aprendamos para aplicar em nossa vida, na vida com nossos irmãos. Nessa mesma passagem, o Evangelho de Mateus (Mt 12,7) acrescenta uma profecia para dizer o que verdadeiramente é da vontade de Deus: “Misericórdia que eu quero e não sacrifício, conhecimento de Deus mais do que holocaustos”(Oséias 6,6).

Hoje, muitos “fariseus de plantão” interpretam leis para condenar e excluir as pessoas. Por isso, cabe a nós um olhar crítico e evangélico. Saber que as normas, as leis são importantes para organização de nossa vida, tanto particular como comunitária, mas elas devem vir para produzir dignidade de vida para todos, sem exceção. Este é o amor evangélico (misericórdia); esta é a essência para nós cristãos.


Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI).

Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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