Aos 80 anos, Waldemar Henrique foi tema do “Quem São Eles”

João Carlos Pereira

As comemorações dos 80 anos do maestro Waldemar Henrique, iniciadas na sexta-feira,15 de fevereiro de 1985, foram estendidas por todo ano e a largada dos festejos aconteceu em clima de carnaval. Com a necessária antecedência de doze meses, a direção da Escola de Samba “Quem São Eles” marcou uma visita a WH para comunicar-lhe que ele seria o tema do grande desfile do ano seguinte. O maestro, que nunca havia pisado numa avenida para desfilar, encheu-se de entusiasmo e, na Doca de Souza Franco, em Belém, o tema “Waldemar Henrique – o canto da Amazônia” levantou a torcida, na madrugada de segunda-feira 17 de fevereiro, dois dias e algumas horas depois do “Parabéns pra você”.

Se, para o público, que lotava as arquibancadas, o desfile do “Quenzão” era um segredo guardado a sete chaves, para o homenageado não havia mais novidades. Na quinta-feira, dia 14, véspera de seu aniversário, com autorização da chefia de reportagem de O LIBERAL e em comum acordo com a direção da Escola, eu o convidei para acompanhar os últimos preparativos do grande desfile. Um veículo do Jornal foi buscá-lo em casa e o levou até o barracão, onde viu a finalização dos carros, dos estandartes e das alegorias em forma de boto. Admirou o abre-alas com 14 metros de cumprimento, 9 de altura e a escada de dez degraus, que davam acesso à plataforma onde havia uma lira estilizada, na forma de uma letra W – de Waldemar – e o piano de isopor – que ele fingiria tocar. “Está tudo tão bonito, mas tão bonito, de tão bom gosto, que eu não sei o que dizer”, comentou, emocionado. Quando soube que haveria um tapete vermelho cobrindo os degraus que teria de subir, emocionou-se. Depois de ver a alegoria da Matinta Perera, brincou: “o Cassiano Ricardo dizia que eu falo muito da Matinta porque ela é minha parenta” . Oensaísta e poeta paulista brincava com o compositor paraense, porque sabia que Waldemar era Henrique da Costa Pereira, e a Matinta, Perera. A ausência da letra i fazia toda diferença.

A visita prosseguia e o maestro se encantava com o desfile antecipado. No final, contou que, na juventude, saía num bloco de “assustados”, que percorria as ruas de Belém, nas noites de carnaval. “Nós batíamos nas casas, entrávamos, pedíamos alguma coisa para comer ou para beber e íamos embora. Era tudo muito alegre, muito íntimo, muito familiar e muito sadio. Bastante diferente de como é hoje”. Hoje, entenda-se, era 1985. Se o “hoje” fosse 2020, 40 anos depois, a diferença seria inimaginável para ele. Waldemar Henrique voltou para casa, no final da manhã, maravilhado com o que viu. Na sexta-feira, O LIBERAL contou, com exclusividade, como foi a visita. Na mesma edição, Sebastião Godinho, que nos acompanhou, publicou um artigo, intitulado “Ao mestre, com carinho”, sugerindo que a data de nascimento do maestro e de inauguração do Theatro da Paz fosse feriado na cidade.

O “Quem São Eles” se preparava para entrar na passarela do samba nas altas horas da madrugada. O céu da cidade, que o compositor havia cantado, em outro momento, “forrado de veludo azul marinho”, estava vermelho como uma brasa, sinal de que um dilúvio se formava sobre Belém. Waldemar Henrique estava cansado, mas procurava não demonstrar. A cordialidade e o sorriso constantes, marcas registradas de sua elegante e suave presença,não foram alterados. Mas era pedir demais a um homem de 80 anos que estivesse disposto para sambar, depois de atravessar a noite em claro. “Eles foram buscar o maestro em casa muito cedo. Ele ficou na concentração durante várias horas. Não dormiu, não se alimentou bem. Realmente estava muito cansado”, lembra Sebastião Godinho, à época seu secretário, que apresentou-se como voluntário para empurrar o carro em que a grande estrela da noite desfilou, apenas para poder ficar mais perto do amigo, em caso de alguma necessidade.

Momentos antes de o “Quem São Eles” começar a se apresentar, o que estava escrito no céu, aconteceu. Choveu forte por mais de uma hora. Uma chuva amazônica,com trovões, varou a madrugada e transformou as largas e coloridas plumas das fantasias em tristes fiapos. “Nós conseguimos um guarda-chuva para o Waldemar e ele nem cogitou não subir no carro. Estava entusiasmado e, na base do quem está na chuva é para se molhar, ajeitou o fraque e foi aplaudido como um verdadeiro ídolo que ele era”, lembra o presidente da Escola, o odontólogo, carnavalesco e primo de WH, Luiz Guilherme Pereira.

Enquanto o “Quem” – escola do coração do maestro e da qual integrava a ala dos compositores – enfrentava o temporal, o público cantava obelo samba-enredo escrito por Edyr Proença e Antônio Carlos Maranhão. A música deu ao desfile uma feição waldemaenriqueana que jamais outro samba conseguiria. “Era tradição do ´Quem São Eles´ fazer um concurso, mas, sinceramente e com todo respeito, nenhum dos sambas apresentados, estava à altura do Waldemar. Só para se ter ideia, o primeiro colocado nem falava nele. Fazia uma simples referência ao número 7, que era a cadeira do Waldemar,na Academia Paraense de Letras. Não havia sentido levar um samba desses para a avenida”, revela o ex-presidente Luiz Guilherme Pereira, que honrou a decisão dos jurados, pagou o prêmio ao compositor, mas avisou: “nosso compromisso era premiar, não levar para a avenida”.

No momento em que as eliminatórias aconteciam, o clima de desespero aumentava na Escola. Nada do que havia sido apresentado era bom o suficiente para cantar WH. Uma noite, o jornalista, professor universitário e radialista Edgar Augusto estava em sua casa, que fica a três quadras do “Quem São Eles”, quando recebeu a visita, um tanto desesperada, de Luiz Guilherme Pereira e Davi Miguel, o decano dos compositores da escola. Eles traziam um saco de fitas K-7 que os compositoresapresentavam na hora da inscrição, para que Edgar ouvisse (todas!) e ajudasse a selecionar alguma de qualidade razoável, que fosse digna do tema. Não haveria tempo para atender o pedido e nem como resolver o problema. Foi diante dessa realidade que Edyr Porença e Antônio Carlos Maranhãocriaram uma música a partir de títulos e frases de composições do homenageado, formando uma rara harmonia de imagens, arrematada pelo refrão “tudo isso é Waldemar”. “O Edyr e o Maranhão vieram aqui em casa e me mostraram o samba. Na hora eu disse: é isso aí! Está perfeito. É esse e está acabado!”, determinou Luiz Guilherme, batendo o martelo. O samba – de altíssimo nível – foi para o concurso, mas faltou combinar com os russos, quer dizer, com os jurados, e, estranhamente, não ganhou. Seleção tem dessas coisas. Nem sempre o melhor vence. Inconformado, Luiz Guilherme virou a mesa.

A decisão do Presidente da escola podia não parecer a mais democrática, mas estava respaldada em dois pontos. O primeiro era o da não obrigatoriedade do vencedor do concurso de samba-enredo ser levado para a avenida, descoberto numa brecha do regulamento. O outro, puramente estético. “Se quisesse, o Luiz Guilherme poderia ter manipulado a votação, mas ele é correto demais para fazer isso. Poderia, como se diz, ter ajeitado as coisas, acertado com os jurados, mas nada disso aconteceu. Eu subi no palco do ´Quem´ e convidei o Alfredo Reis para cantar comigo o samba do Maranhão e do papai, que acabou indo para a avenida”, lembra Edgar Augusto, recuperando, para a história, um dos mais curiosos momentos do carnaval de Belém.

Com o samba e a Escola dominando a pista encharcada, a chuva não dava sinais de que ia passar. Um ano de trabalho estava seriamente comprometido. Waldemar seguiu até o final, agradecendo, com acenos de sombrinha, o carinho das arquibancadas. No dia seguinte, depois de repousar, o maestro acordou bem disposto. Apesar de haver ficado umahora debaixo de chuva, não gripou. Na apuração, as notas dos jurados deram o campeonato ao Rancho “Não Posso MeAmofiná”. O “Quem São Eles” ficou em segundo lugar, por uma diferença de meio ponto. “Um desrespeito histórico para com a cultura, para com o Waldemar, que, no momento em que se comemoravam os seus 80 anos, não merecia, por causa da chuva, um segundo lugar,”indigna-se, até hoje, Luiz Guilherme Pereira.

No ano seguinte, o maestro voltou à avenida, novamente com o “Quem São Eles”, para desfilar, ao lado de João de Jesus Paes Loureiro e Antônio Carlos Maranhão, na abertura do tema “Pai d´Égua”. Desta vez, por recomendação de Godinho, o maestro só foi levado para a avenida perto da hora do desfile. Diferente de 1985, não choveu.


João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Di Cavalcanti — O Grande Carnaval, 1953.

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