Ser mais companheiros

Pe. Paulo Lisbôa, SJ

Neste julho, já próximos do pico da pandemia, preparamo-nos para fazer da memória litúrgica de Inácio de Loyola, verdadeira comemoração. Como filhos e amigos de pessoa tão especial, desejamos de mentes e de corações mais convertidos a Deus por esta COVID-19, reassumir nossa vocação para o ser mais companheiros de Jesus.

Sabemos muito bem, pela leitura da Autobiografia, que o cavaleiro de Loyola, de “homem entregue às vaidades do mundo… com grande e vão desejo de ganhar honra” (Aut. 1), deixou que a graça do Amor de Deus o alcançasse e o convertesse. Foi em longo e paciente tempo de convalescença, experimentando os contrastes de sentimentos, tristezas ou alegrias que se sucediam, que chegou a renegar os antigos desejos mundanos e encontrar outros melhores. Chegou mesmo a dizer mais tarde:

… Então se lhe ofereciam desejos de imitar os santos, não olhando outras circunstâncias, senão a graça de Deus, com a qual prometia executá-lo como eles o tinham feito…

Autobiografia, 9

Dessa experiência primeira de profunda comunhão aos caminhos de Deus, através dos santos que seguiram a Jesus, é que pouco a pouco vai se sentindo mais realizado como pessoa. Ao mesmo tempo, começa a descobrir o que é ser verdadeiro companheiro de Jesus. Tudo o que irá acontecendo pelos meses e anos vindouros de peregrinação, será fruto de uma busca constante do modo de viver esse companheirismo.    Chegará o momento em que o estudante de Letras, Filosofia e Teologia perceberá que o seu Senhor o quer, reunindo amigos para o Bem. É então que pessoas bem intencionadas e interessadas começam a se aproximar dele, desejosas de encontrar o que Inácio irradiava: uma espiritualidade de seguimento de Jesus. Numa proximidade de amizade, partilhavam também sonhos que vão se juntando num projeto de vidas. No fundo, já projetavam juntos o projeto do Reino de Deus (EE [95 a 98].

Lembro apenas duas ocasiões importantes em que o grupo já de amigos no Senhor, se comprometeu nesta aventura própria de grandes apaixonados. Em 1534, já são seis os amigos que se propõem a fazer um voto, no dia festivo da Assunção de Maria, que consistia em

…ir a Veneza e Jerusalém e gastar a vida em proveito das almas…

Autobiografia, 85

Esta piedosa cerimônia realizou-se na igreja parisiense de Montmartre (monte de mártires). Anos mais tarde, a 22 de abril de 1541, o grupo aumentado de mais 3 amigos, sem a presença de Xavier que fora enviado para as Índias, reúne-se na Basílica romana de São Paulo Fora dos Muros para a primeira profissão solene diante dum quadro da Santa Virgem Maria.

Pode-se afirmar que daí para a frente, está constituída uma nova Ordem Religiosa, cujo fundador e já o primeiro Geral Pe. Inácio de Loyola, quis que tivesse como nome canônico de Companhia de Jesus (cfr. o que vem dito na Fórmula do Instituto). É bom lembrar que o termo “Companhia”, tradução portuguesa de “Societas” latino, quer significar sociedade. Esta palavra enquanto expressa uma associação religiosa de pessoas que têm um objetivo comum. Sabemos que o objetivo fora muito bem discernido e confirmado nas conhecidas “Deliberações dos Primeiros Padres” (de março a meados de junho de 1539).

Por outro lado, o termo “companheiro” parece-me vir da raiz latina cum + panis, isto é, juntos do pão (é minha visão). Assim, configura-se uma imagem muito bonita de pessoas que se reúnem em torno do Pão que é Jesus : Companhia de Jesus. Ajudados por esta imagem, talvez para muitos nova, penso que poderemos nesta próxima festa inaciana, celebrar com mais piedade e compromisso o ser mais companheiros, mais companheiras.

A Covid-19 nos ajudou e continuará ainda nos ajudando para isso.

Termino estas linhas trazendo a imagem de Santo Inácio de Loyola, quando compunha a sua última contemplação de seus Exercícios Espirituais (EE). Ele aí recapitula todo o infinito Amor que lhe foi tão gratuitamente concedido em vida. Ele deseja que o mesmo aconteça também com todo o que termina ou terminou a experiência dos EE. A insistente oblação do “Tomai Senhor…”, atesta a convicção do autor dos EE de que Deus o alcançou no mais puro Amor, para sempre:

Dai-me o vosso Amor e Graça, que isto me basta.

EE 234

Seja também esta, a atitude interna de cada um de nós, que desejamos viver mais em verdade, como Companheiros e Companheiras.

Com o carinho solidário de companheiro,
Pe. Paulo, SJ

São Paulo (SP), 10 de julho de 2020.


Paulo Lisboa é licenciado em Letras e bacharel em Filosofia e em Teologia, é sacerdote jesuíta com grande experiência na formação de jovens jesuítas e na orientação dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola (EE). 

Imagem: Konrad Baumeister — Primeiros votos em Montmartre, 1881.

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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