As muitas formas de anunciar o fim do mundo
Diário de um desespero – ou quase – LXXXIX
João Carlos Pereira
Toda vez que a vinheta do plantão do jornalismo da Globo interrompe a programação, meu coração dispara. Penso logo que explodiu a III Guerra Mundial, ou que o Papa morreu ou que Brasília está em chamas, como agora. Jamais espero – e acho que nunca houve mesmo – uma notícia boa. Notícia boa não é muito a cara do jornalismo. E o que há de muito bom para ser anunciado, agora, que não seja a cura do corona vírus? Ações de solidariedade são sempre bem-vindas, rendem ótimas pautas, mas dificilmente elas justificam um plantão.
Conhecida como a vinheta do fim do mundo, porque sempre anuncia uma desgraça, a chamada já ganhou toques de modernidade, mas a música está de tal modo ligada a uma tragédia, sugerindo que não se pode aguardar com tranquilidade o que ela trombeteia. É também sinal de um jornalismo que não dorme e está sempre de plantão.
Nem sempre, porém, as coisas foram assim. Principalmente em Belém, na gostosa Belém de outrora, como diria o de Campos Ribeiro, num tempo em que a vida da cidade acontecia, sobretudo, nos bairros do Comércio, da Campina, do Reduto e da Cidade Velha. Quando algum fato realmente extraordinário merecia atenção, a “Folha do Norte”, jornal da família Maranhão, botava a boca no trombone, acionando uma sirene poderosíssima. Se a “Folha” apitava fora de hora, podia apostar que o mundo estava desmoronando ou um fato na política local, sempre contra o baratismo, precisava ser difundido.
O sinal da “Folha” atraía multidões para a porta do número 253 da rua “Gaspar Vianna”, onde já estava afixada uma página com a grande novidade. Era o plantão do passado. A partir dali, todo serviço de propagação, numa época em que até telefone fixo era luxo para poucos, ficava a cargo da “rádio cipó”.
Um pouco mais adiante, na continuação da rua Gaspar Vianna, outro jornal, “O Estado do Pará”, possuía uma método bem diferente de anunciar a chegada do Armagedon. Como a “Folha” dispunha de uma sirene poderosa, o concorrente se virava nos 30 para disputar a atenção. Por isso o canhãozinho do “Estado” disparava uma bala e provocava um estrondo enorme. Todo mundo, nas imediações, corria para ver do que se tratava.
A história do canhão do “Estado” é pouco conhecida e não sei por quanto tempo funcionou, mas o apito de “Folha” eu vi ser acionado muitas e muitas vezes, quando o prédio já era propriedade da família Maiorana. Ao meio-dia e às seis horas da tarde, dona Ruth Gonçalves, a responsável pela chave do cofre da empresa e pessoa da mais irrestrita confiança do patrão, acionava a sirene. O som dava a impressão de vir das profundezas da terra. Chegava com a força de um vulcão em erupção. Era tão vibrante, tão intenso, que provocava vibrações no piso.
A última vez em que a sirene da “Folha”, já domínio de “O Liberal”, tocou fora de hora foi para celebrar a confirmação do nome do professor Nélson Ribeiro para a pasta da Reforma Agrária, na equipe do presidente Tancredo Neves. Em outubro, vibrava incessantemente, minutos sem parar (nunca me perguntei quem deixava de ver a passagem da santa para fazer o trabalho….) no momento em que a berlinda de Nossa Senhora de Nazaré alcançava o Boulevard Castilhos França e parava em frente ao antigo prédio de “O Liberal”.
Hoje, o plantão da “Folha”/ “O Liberal” está mudo. Do canhãozinho do Estado não se tem mais notícia. A vinheta da Globo tomou o lugar deles e está aí para proclamar a entrada dos quatro cavaleiros do Apocalipse. Nem imagino por onde começariam a devassa, mas desejo que seja pelo Alasca. Daria tempo para fugir. Mas fugir para que lugar?
Tomara que aqueles microfones estilo sorvete e as câmeras, fazendo movimento ascendente de rotação, não apregoem mais desgraças do tipo 11 de setembro. Acho que, por enquanto, já nos bastam os aperreios da pandemia e as loucuras oriundas de Brasília, além “trumpezisses”, que deixam o planeta em polvorosa.
O tempo presente necessita de paz, não de sobressaltos.

João Carlos Pereira (Belém do Pará, 1959-2020) jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Henfil — Novela de rádio, 1980
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